Ayahuasca no reino do Jaguar

Texto: Chip Brown 

O xamã peruano Juan Flores posa junto do rio Fervente, em tempos evitado pelos nativos devido à presença de jaguares e forças sobrenaturais. Actualmente, os únicos jaguares existentes são os que ele convoca do mundo dos espíritos. Mestre Juan procurou curas tradicionais depois de ser baleado nas pernas. Mais tarde, fundou o centro xamânico de cura Mayantuyacu.

Os aprendizes do mestre Juan Flores trouxeram-me o meu passaporte de acesso ao mundo dos espíritos num pequeno cálice de plástico. Continha la medicina, uma decocção com textura de xarope à base de folhas de chacruna e ayahuasca, fervida durante dois dias e posteriormente decantada para garrafas de água usadas. No início da cerimónia, o mestre consagrou a bebida com exalações de fumo de mapacho, o tabaco selvagem da Amazónia. De seguida, começou a encher o cálice, servindo pequenas quantidades a cada participante.

Éramos 28 pessoas num grupo proveniente dos EUA, Canadá, Espanha, França, Argentina e Peru. Tínhamos vindo em busca de algo especial naquele local distante da Amazónia peruana, construído nas margens de um ribeiro estranho chamado rio Fervente. Alguns esperavam encontrar a cura para problemas graves; outros procuravam um rumo; outros queriam, simplesmente, um vislumbre do outro mundo, o recanto mais esotérico daquilo a que Alan Rabinowitz chama, em traços gerais, o “corredor cultural do jaguar”. Estes domínios englobam os habitats e as rotas de migração que a sua organização de conservação, a Panthera, está a tentar proteger para assegurar a sobrevivência de cerca de cem mil jaguares, bem como a vitalidade do seu património genético.

Pequenos morcegos voavam em ziguezague entre as vigas. O remédio foi partilhado silenciosamente. O ribeiro fazia-se ouvir em plano de fundo e fiapos de vapor formavam remoinhos ao colidirem com o ar frio da noite. Quando os aprendizes se aproximaram de mim, ajoelhei-me, talvez por força do antigo hábito católico romano, ou talvez por todos estarem a fazer o mesmo. Um aprendiz passou-me o cálice e outro ficou a seu lado segurando um copo de água. Hesitei, lembrando-me do que o famoso curandero Don José Campos me dissera alguns dias antes, na movimentada cidade portuária peruana de Pucallpa.

“A ayahuasca não se toma”, dissera. “Ela é que nos toma.”

Inclinei o copo e bebi.

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