Texto e fotografia: Hugo Marques

Silhueta comum nos céus de Trás-os-Montes, o mais pequeno abutre português é ainda mal conhecido.
Um projecto de conservação internacional pretende resolver esse problema.

Numa manhã do Verão de 2016, uma equipa de investigadores reúne-se nas encostas dos Parques Naturais do Douro Internacional e Arribes del Duero. 

Há uma certa aura de solenidade no ar.

A equipa, que em breve constituirá o Projecto LIFE Rupis, prepara-se para capturar e libertar o primeiro britango marcado com um emissor, um dos momentos fundamentais do projecto de conservação financiado pela União Europeia que pretende identificar as áreas vitais e os padrões de migração desta ave necrófaga, estabelecendo os alicerces de uma estratégia de conservação integrada.

É capturado um macho subadulto saudável, designado simbolicamente por Rupis. Trabalhando rapidamente para diminuir o stress do animal, são recolhidos dados biométricos e colocado um emissor PPT que permitirá o conhecimento da sua posição em tempo real. A libertação é rápida e Rupis rapidamente descola. Daí para a frente, passam a existir duas formas de o detectar – a clássica, procurando a sua silhueta, desenhada em tons brancos e pretos, pairando sobre as arribas do Douro e perscrutando quilómetros de território em busca de uma carcaça entre os milhares de cabeças de gado e animais selvagens que ali circulam. A outra forma de detecção é menos romântica, mas mais eficaz: Rupis emite sinais regulares para um satélite e, nas semanas seguintes, registará dezenas de pontos num mapa que o Projecto Rupis disponibilizou para toda a comunidade de seguidores e apaixonados pela vida selvagem.

Na era das redes sociais, Rupis torna-se uma pequena estrela e o seu avistamento, no PNDI, na Área Protegida Privada da Faia Brava e em vários locais de Espanha, é saudado como se de uma celebridade se tratasse. De alguma maneira, enquanto viola repetidamente a fronteira terrestre entre Portugal e Espanha, esta ave é emissária de uma novidade em projectos de conservação, abraçada pela Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA), coordenadora do projecto, e pela Associação Transumância e Natureza, a Palombar – Associação de Conservação da Natureza e do Património Rural, a Vulture Conservation Foundation (VCF), o Instituto de Conservação da Natureza e Florestas (ICNF), a Guarda Nacional Republicana, a EDP Distribuição, a Junta de Castilla e León e a Fundação Património Natural: no século XXI, a conservação implica também o envolvimento da comunidade. Pequenas concessões à sociedade do espectáculo podem produzir extraordinária empatia.

No final de Setembro de 2016, Rupis despediu-se dos fãs ibéricos e iniciou a sua marcha para sul. Ignorou a polémica diplomática sobre a soberania de Gibraltar e poisou no rochedo, ganhando fôlego para a travessia do Mediterrâneo. No dia seguinte, foi reconhecido em território marroquino, perto de Khemisset. Incansavelmente, venceu diariamente maiores distâncias do que os participantes no velho rali Paris-Dakar. Um dia depois, superara a cordilheira do Atlas. Passou pela Argélia, ignorou sensatamente o Saara Ocidental, talvez ciente de que a soberania por ali é difusa. Sobrevoou um canto do Mali, entrou na Mauritânia e, de novo em território maliano, rumou à única mancha verde assinalada pelos mapas em centenas de quilómetros – o Parque Nacional Boucle du Baulé. É ali o seu refúgio, o ponto de fuga, o território ancestral de uma migração gravada no seu código genético.

 

O britango, o mais pequeno dos abutres que nidificam na Península Ibérica, escolhe estas paragens da África subsaariana para passar os meses do Inverno europeu enquanto aguarda que as temperaturas no continente onde nasceu comecem a subir para então empreender a viagem de regresso.

Os dados dos emissores dão conta de quase cinco mil quilómetros de voo e da travessia de desertos, montanhas e mares até Rupis nidificar no mesmo local dos seus antepassados. Inicia, normalmente, a viagem para o território português no final de Fevereiro, utilizando uma rota semelhante.

Apesar deste início promissor, há ainda lacunas no conhecimento da espécie. Pouco se sabe sobre a distribuição do britango em tempos mais recuados, como no princípio do século XX. Provavelmente, terá sido comum em todo o Portugal rural, dada a sua estratégia alimentar muito ligada à pastorícia. Na década de 1970, a espécie sofreu uma importante regressão, acompanhando as transformações do tecido agrícola. Hoje, está confinada às zonas da raia de Trás-os-Montes e Alto Douro e às zonas raianas da Beira Interior.

As causas para o seu declínio constituem uma repetição de tantos outros diagnósticos que afectaram as grandes aves no território europeu. Podem enumerar-se a destruição do habitat, os choques com linhas de alta tensão e o envenenamento, mas o principal factor estrutural foi o abandono de práticas agrícolas tradicionais e a diminuição da pastorícia extensiva, que contribuíram para a diminuição radical da disponibilidade de alimento. Não foram só as comunidades humanas que se adaptaram – também as aves tiveram de encontrar outros caminhos de sobrevivência.

Enquanto escrevo este texto, observo no computador o mapa com os movimentos dos cinco britangos marcados pelo projecto desde 2016 até ao Verão deste ano: Rupis,  Poiares, Douro, Faia e Bruçó. Reparo que o indivíduo marcado no passado mês de Julho no campo de alimentação de aves necrófagas de Bruçó, por uma equipa da VCF, Palombar e SPEA se encontra no coração do PNDI, onde, durante sete longos e extenuantes dias, a equipa de investigação acompanhou o seu progresso sob calor impiedoso.

Percorrendo as arribas através dos peculiares topónimos que me são familiares, como a Fraga Amarela, a Pena Ruiva, Castelares, o Poio dos Altares, Derruidas, Abitureira, Escalavrada, Revincadeira ou Picão do Diabo, encontro o britango, ou abutre-do-egipto, pela primeira vez neste emaranhado de trilhos escondidos que desembocam em paisagens de sonho, no coração do troço remoto do Douro classificado como PNDI (em Portugal) e PN Arribes del Duero (em Espanha).

Nos canhões fluviais, esta ave tem o seu principal santuário em Portugal, com mais de 130 casais divididos entre a vertente portuguesa e espanhola – é um núcleo superior à população estimada para Portugal, já que se calcula que apenas existam cem casais nidificantes no nosso território. É uma silhueta habitual nos territórios mais selvagens e é por isso mesmo o estandarte comum, o símbolo de cooperação transfronteiriça em matéria de ordenamento do território e conservação da avifauna desde 1995.

Em terras transmontanas, esta ave é conhecida pela população rural como almocreve-dos-cucos e a sua figura ilustra o logótipo das duas áreas protegidas. Os transmontanos sempre conviveram pacificamente com as aves necrófagas. Funcionando como uma espécie de brigada de limpeza, os abutres cumprem uma função de manutenção de ecossistemas saudáveis muito valorizada localmente.

 

Os britangos tornam-se adultos a partir dos 4 anos. Frequentemente, os juvenis podem passar os primeiros anos de vida na zona de invernada em África. Para construírem os seus ninhos, escolhem, quase sempre, locais isolados e inacessíveis em cavidades rochosas e escarpas sobranceiras ao rio Douro e aos seus principais afluentes.

Ao contrário do grifo, que é o abutre mais comum em Portugal e na Europa e uma espécie residente, o britango alimenta-se das partes mais moles das carcaças e sobretudo de pequenas aparas que sobejam dos festins dos grandes abutres debicando no chão as sobras. Aproveita também outras porções de biomassa putrefacta, nomeadamente cadáveres e seus restos nas estradas, excrementos e pode também caçar pequenos animais.

Ao abrigo do Projecto LIFE Rupis, a equipa de conservação procura melhorar a disponibilidade alimentar do britango, colocando cadáveres de animais domésticos provenientes de mortes naturais das explorações pecuárias extensivas ou subprodutos animais provenientes de unidades de transformação em alimentadores autorizados e licenciados pelo ICNF. A Palombar celebrou igualmente uma parceria com a Cooperativa Agropecuária Mirandesa, unidade de transformação de bovinos de raça mirandesa, para que as partes não aproveitadas das vacas possam ser utilizadas na alimentação dos abutres. É por essa razão que me encontro há seis horas num pequeno abrigo camuflado entre a vegetação densa.

Montei abrigo num local escarpado perto da barragem de Bemposta. Com campo de visão privilegiado sobre o vale do Douro, consigo observar com facilidade os voos de patrulha do pequeno abutre. Apesar de já estarmos em Abril, as manhãs ainda são particularmente frias e estas aves aguardam que o dia aqueça e que se formem correntes térmicas, de forma a voarem com menor dispêndio de energia. 

Num silêncio quase absoluto, ao qual só escapa o ruído dos agricultores cuidando de pequenos olivais e meia dúzia de pastores que acompanham as suas ovelhas e cabras, identifico apenas os sons de pequenos passeriformes.

Em estado de quase meditação, fruto destas esperas prolongadas, observo por fim, proveniente do meu lado esquerdo, primeiro uma sombra na encosta e depois a silhueta redonda e estilizada de um britango adulto, com a sua cauda em forma de mitra ou chapéu de bispo. O voo silencioso quase a rasar as vertentes escarpadas mostra uma ave de enorme beleza a percorrer uma paisagem pincelada de grandes blocos de rocha entrecortados pelas manchas de giesta, esteva, piorno e rosmaninho.

A observação de um bando de abutres em alimentação é um momento frenético, quase explosivo. Os grifos empurram-se e disputam a comida acintosamente, com movimentos bruscos e emitindo grasnidos. Arrancam os pedaços de carne que se soltam à força com recurso a garras e bicos poderosos que penetram nas carcaças do animal morto. É um espectáculo ruidoso. Dir-se-ia que uma ruidosa claque de futebol acaba de entrar numa área de serviço.

Os britangos e outras aves de menor porte, como os milhafres e os corvos, passeiam sorrateiramente no meio deste festim e procuram, atentos, os pequenos pedaços, as aparas de pele, músculo e ossos. Alertados pelo aglomerado de grifos, os britangos bicam os tecidos mais moles, como os globos oculares, apressando-se antes que os grifos devorem o cadáver. Na natureza, como nas ocasiões sociais, a discrição tem as suas vantagens.

 

Combinei uma sessão fotográfica no alimentador de abutres inserido na Área Protegida Privada da Faia Brava gerida pela Associação Transumância e Natureza, outra parceira do Projecto LIFE Rupis. O experiente naturalista e guia ecoturístico Fernando Romão prepara a deposição dos pedaços de carne no terreno de acordo com a especificidade da alimentação dos britangos para evitar que os grifos se antecipem. Colocada há algumas semanas no local, a carcaça de um burro de Miranda decompõe-se, deixando nas proximidades um odor a carne putrefacta. As aves, porém, tardam em identificar o petisco ou talvez estranhem a dádiva num local não referenciado.

Nesta região do Nordeste, existem nove campos de alimentação de aves necrófagas licenciados (seis no distrito de Bragança e três no da Guarda) que fazem parte de uma rede de alimentadores que visa dar resposta à estratégia nacional para a conservação das aves necrófagas.  No passado, os animais mortos eram deixados no campo e consumidos pelos necrófagos. Agora, porém, devido a imposições comunitárias em matéria de saúde pública e controlo dos efectivos das explorações, existe obrigatoriedade de recolha e deposição em locais autorizados.

Acompanhado pelo biólogo José Pereira, ensaio uma experiência fotográfica. Ao longo de vários dias, em jornadas de 12 horas, controlo a grande distância do alimentador uma câmara com controlo remoto, previamente colocada junto da carcaça de um burro. O sistema está funcional e, do ponto de vista técnico, não cometi qualquer erro. As aves necrófagas, porém, parecem fazer alarde de passar ao largo, ignorando a armadilha fotográfica. Quase que juro que algumas piam no céu como pirraça.

Como em tudo na vida, há momentos em que a sorte muda e, por fim, vejo abutres a aterrar no alimentador. Segue-se o comportamento que já me habituei a registar: a carcaça do burro é atacada desenfreadamente e devorada em poucos minutos. À distância, acciono o equipamento – desta vez, há testemunhos documentais.

De regresso ao ambiente de gabinete, troco impressões com o biólogo António Monteiro, técnico do ICNF, discutindo os cenários possiveis de evolução desta emblemática espécie, face a dinâmicas tão importantes como o declínio da pecuária tradicional, o aumento dos incêndios florestais ou as alterações climáticas e ecológicas no Norte de África.

A equipa do Projecto LIFE Rupis capturou e marcou cinco britangos e todos os dias aprende algo novo sobre os movimentos destas aves e os seus refúgios de invernada, locais de nidificação e áreas vitais. A participação comunitária foi intensificada com uma votação online para baptizar os últimos animais marcados.

Poiares, uma fêmea debilitada capturada no final da Primavera deste ano, foi tratada e libertada, tendo voado para Marrocos onde agora se encontra, tal como Bruçó e Douro. Mais afoitos, Rupis e Faia já vão na Argélia, previsivelmente em trânsito para o refúgio do Mali. São meros pontos num ecrã, mas simbolizam um avanço de carne e osso no conhecimento de uma das mais emblemáticas espécies da nossa fauna.

Com a segurança de quem sabe que a seguir às estações frias vem sempre o calor, também estes animais voltarão ao Douro, sobrevoando os penhascos rochosos e procurando, em quilómetros de terreno, a próxima refeição. 

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