Índice do artigo

 

Dobramos um cruzamento. Empoleirado numa rocha junto de uma moita, um francolim estende o olhar sobre o vale. Andei junto deste local com Jeffrey alguns dias antes. De repente, a ave imobilizou-se, assustada. Um grande felino malhado correra para o mato. Não era um cerval, suspeitava, mas um leopardo. Penso nisso agora, bem como neste lugar. Resta apenas uma fracção de vegetação autóctone das Terras Altas na Etiópia, mas Guassa continua a ter diversidade ecológica. Este ecossistema sobreviveu a revoluções, ocupações, fome e corrupção. Perdurou sobre governos nacionais. Reunidas as condições certas, a conservação local funciona. Mas os ecossistemas são frágeis. O governo do Derg e as mudanças subtis ocorridas desde então sugerem a facilidade com que tudo pode ser desfeito.

Os agricultores de guassa não gostam dos macacos. Os aldeãos toleram-nos. Os geladas inteligentes trepam para cima de pilhas de cevada acabadas de ceifar para se banquetearem. Os aldeãos perseguem macacos esfomeados que assaltam as culturas. Quando o capim é bem gerido, há quantidade suficiente para humanos e macacos. Segundo alguns aldeãos, o capim não era minimamente gerido quando o Derg estava no poder.

Certa manhã, eu e Jeffrey caminhámos sob chuva miudinha, descendo um trilho íngreme para visitar Tasso Wudimagegn, agricultor e batedor do Projecto de Investigação Gelada de Guassa. Ele assistira a uma transformação em Guassa.
E também passara por uma.

No interior da sua casa, a mulher preparava café em lume aberto. Sentámo-nos sob paredes revestidas com páginas rasgadas de revistas, mostrando imagens de jogos de basebol, de crianças sorridentes e de praias serenas. Em miúdo, ele desprezava os geladas. Culpava o Derg, que nacionalizara terrenos e desmantelara a supervisão de Guassa, por incitar o ódio.

O pastoreio e o corte aumentaram. Muitos agricultores defendiam que os prados tinham diminuído. Devido ao aumento da pressão humana no seu território de alimentação, os geladas atacavam explorações agrícolas com maior frequência.

Com 5 ou 6 anos, Tasso tentava afugentar os macacos. As crianças gritavam e atiravam-lhes pedras, mas os geladas mostravam-lhes os dentes e as crianças fugiam. Quando cresceu, começou a construir armadilhas. Batia nos geladas com um bastão etíope chamado dula.

Actualmente, Tasso envergonha-se desses maus-tratos. “Era errado pensar assim”, afirmou. A supervisão de Guassa corre melhor do que nunca, mas a comunidade está a mudar. O sistema de propriedade mudou. Em tempos governada pela Igreja e limitada aos descendentes dos fundadores, a guarda de Guassa é agora mais laica, mais aberta a recém-chegados que não partilham a sua história. A dinâmica que faz a conservação funcionar é a percepção de que todos estão no mesmo barco.
Actualmente, porém, o ressentimento está a crescer e o sentimento de pertença a desaparecer.

Tasso admitiu que por vezes olha para as paredes com desejo de mudança. As revistas mostram “sítios melhores”, diz ele. Quer mudar-se para a cidade, ganhar dinheiro, dar uma educação melhor aos filhos. É uma história universal: os seres humanos pessoas querem a vida que os outros têm.

Depois de uma caminhada esgotante de nove horas, eu, Admassu e Jeffrey chegamos ao fim de Guassa. Apanhamos boleia até Mehal Meda. Pelo caminho, vemos uma paisagem diferente: hectares de campos agrícolas e terra desagregada a perder de vista, com lotes arados e encostados uns aos outros, num mar de culturas. É este o aspecto da maior parte das Terras Altas, resume Jeffrey Kerby.

Em Guassa evitou-se esse destino em parte porque as populações mantiveram o controlo e estabeleceram regras claras, criando uma supervisão rigorosa e firmando compromissos com os utilizadores. Elinor Ostrom, vencedora de um Prémio Nobel, descobriu que estratégias semelhantes também encontram sucesso em aldeias agrícolas suíças, florestas japonesas ou bancos de pesca de lagosta de Nova Inglaterra. Esforços comparáveis estão a ser empreendidos na Namíbia para proteger a vida selvagem. Guassa contou durante séculos com a ajuda da altitude e do isolamento para manter os estranhos à distância. Agora, porém, existem novas pressões. O Derg desapareceu, mas outras regiões do país voltaram a registar instabilidade política. As alterações climáticas tornam as terras altas ainda mais propícias à agricultura. Em 2050, a população da Etiópia poderá ser dez vezes superior à de 1950, ascendendo a 188 milhões.
O rendimento aumenta, mas um terço dos etíopes ainda vive em condições de pobreza extrema.

Ao regressar a Guassa, vejo uma pradaria repleta de geladas. Na última década, foram instalados cabos eléctricos, postes telefónicos e uma estalagem rudimentar. A vida aqui é dura e as oportunidades são escassas. O desenvolvimento, o ecoturismo e o acesso a mais mercados poderiam retirar as pessoas da pobreza e modernizar a economia. Mas isso constituirá um teste para a região.

gelada9

Quando a noite cai em Guassa, os geladas irrompem numa corrida em direcção aos penhascos onde dormem. Passarão a noite empoleirados em saliências rochosas, tentando manter-se a salvo de leopardos, hienas e cães selvagens.

De regresso ao acampamento numa das minhas últimas noites, eu e Jeffrey seguimos os macacos enquanto eles se deslocam em formação cerrada sob o sol poente. Um a um, entre guinchos e grunhidos, os geladas regressam aos penhascos íngremes, onde ficarão agrupados até de madrugada sobre saliências rochosas estreitas. Aperfeiçoada ao longo de milénios, esta prática protege-os de hienas esfomeadas ou outros predadores nocturnos quando dormem. Enquanto vejo os retardatários avançarem num trote lânguido, é difícil evitar uma sensação de desconforto. A evolução preparou os nossos companheiros primatas para várias ameaças, mas não haverá esconderijo possível para aquilo que estamos prestes a fazer-lhes.

Descubra uma nova visão do mundo!

Assine a National Geographic.

Pesquisar