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Texto: Craig Welch    Fotografia: Jeffrey Kerby e Trevor Beck Frost

A savana protegida ajuda os geladas a prosperar. Mas isso pode mudar.

 

É alvorada e estamos a 3.300 metros de altitude. Lá em baixo, reina o rebuliço entre os macacos.

Admassu Getaneh caminha através do manto de vegetação rasteira e do capim grosso, num planalto das Terras Altas da Etiópia. O sol incide sobre a sua arma. A seus pés, as rochas descem até às profundezas do Grande Vale do Rifte, na África Oriental. Em breve, ouvir-se-á um guincho sobrenatural quando centenas de primatas despertarem do sono à beira do penhasco e irromperem pelo planalto.

Admassu não está aqui para assistir. Vira as costas à escarpa. Ergue o binóculo. “Consigo ver tudo o que se passa”, explica. Talvez o Theropithecus gelada, por vezes apelidado de “macaco-
-de-coração-sangrento”, não lhe atraia a atenção, mas a presença de Admassu aqui explica a presença dos geladas nestas paragens.

De forma intermitente ao longo de meio milénio, agentes de controlo rural fizeram aquilo que ele faz hoje: patrulharam a savana planáltica com quase cem quilómetros quadrados hoje conhecida como Zona de Conservação Comunitária de Menz-Guassa, ou simplesmente Guassa. Antigo militar, Admassu foi contratado para garantir que ninguém rouba nem estraga o capim.

A preservação do capim é um bom início para proteger o único macaco graminívoro do mundo. No entanto, os antepassados de Admassu não agiram em prol dos geladas: estavam, sim, a tentar salvar-se a si próprios. A vegetação endémica está limitada às Terras Altas. Caules esguios e resistentes são tecidos, formando colmo para os telhados. Os homens entrançam erva e fazem cordas. As mulheres e as crianças atam folhas, bainhas e caules para fabricar vassouras e tochas. O capim serve de enchimento para colchões.

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Os geladas alimentam-se na Zona de Conservação Comunitária de Menz-Guassa porque a vegetação é diversificada. Admassu Getaneh, um antigo soldado que gere a zona conhecida como Guassa, patrulha-a para desencorajar infractores que aqui pastoreiem o gado ou colham capim.

Contudo, um pouco por todo este território coberto por bruma e onde vivem cerca de 80% dos etíopes, prados, pradarias, bosques, moitas, charnecas e pântanos estão a degradar-se, transformando-se em rocha e terra estéril. A população está a aumentar exponencialmente: com cerca de cem milhões de habitantes, a Etiópia é o segundo país mais povoado de África. As explorações agrícolas estendem-se sobre terras húmidas e férteis, desalojando as plantas autóctones que ajudam o solo a reter a água. A erosão elimina anualmente 1.500 milhões de terra da camada superior do solo, empurrando os agricultores para terrenos ainda mais marginais. Os animais de criação esmagam o solo. A Etiópia possui mais cabeças de gado do que qualquer outro país africano. Isto perturba um equilíbrio delicado entre a flora nativa e os roedores, reduzindo as fontes de alimento de todo o tipo de criaturas, desde a lebre ao íbis.

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