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Artistas inatos - Os bijagós têm grande aptidão para a escultura, cuja técnica, reservada aos homens, passa de pais para filhos. Com uma faca afiada, transformam troncos de madeira em estátuas, bancos ou máscaras utilizadas nos rituais.

As lendas condicionam a forma como os bijagós se relacionam com os animais. Reza a história que um homem, vendo um hipopótamo invadir os arrozais que lhe davam o sustento, tentou matá-lo. Os deuses não tardaram no castigo: o filho que lhe nasceu trazia um defeito no lábio, no mesmo sítio em que a lança atingiu o animal. O que seria da única colónia conhecida de hipopótamos marinhos, existente nos mangais da ilha de Orango, se a lenda que os considera sagrados se tivesse perdido no tempo? 

Em várias ilhas, é proibido ter relações sexuais.

O respeito pelas divindades também dita as regras da ocupação do território. Na ilha de Rubane, por exemplo, não se pode derramar sangue ou enterrar corpos, nem que seja de animais. Também não é permitido fazer construções definitivas. Em várias ilhas, é proibido ter relações sexuais. 
Muitos locais estão reservados à realização de cerimónias de entronização dos líderes (ou régulos) das tabancas ou a rituais de iniciação, nos quais os anciãos ensinam aos mais jovens tudo o que sabem sobre o funcionamento dos ecossistemas. 

Nos mangais da ilha de Orango, vive a única colónia conhecida de hipopótamos marinhos, sagrados para os bijagós. Na estação seca, passam o dia nas lagoas de agua doce e no crepúsculo dirigem-se ao mar para se libertarem de parasitas.

Para desembarcar em Poilão é preciso ter autorização dos espíritos e só os homens adultos da aldeia de Ambeno têm carta branca. A coberto desta protecção divina, todos os anos a ilha é palco de um espectáculo raro: no final do Verão, chegam às praias milhares de fêmeas de tartarugas-verdes, que põem 7.000 a 37.500 ovos. As crias minúsculas tentam vingar a viagem das progenitoras e fazem maratonas pela areia até à água, na luta pela sobrevivência. Resultado: a ilha é hoje o principal ponto de desova desta espécie em vias de extinção e um dos três principais à escala global.
A criação do Parque Nacional Marinho João Vieira-Poilão, em 2000, reforçou a protecção do ecossistema. Em 2001, a zona foi declarada Dom à Terra, no âmbito da campanha do Fundo Mundial para a Natureza. Hoje, 20% do arquipélago está inserido em zonas protegidas: ao Parque de João Vieira-Poilão juntam-se o Parque Nacional de Orango, criado para preservar os 140 hipopótamos marinhos que ali resistem, e a Área Marinha Protegida Comunitária das Ilhas de Urok, que visa manter a exploração sustentável dos recursos pesqueiros. 

A pesca ilegal é a principal ameaça à riqueza do arquipélago.

A pesca ilegal é a principal ameaça à riqueza do arquipélago. Nas últimas décadas, o destino tornou--se apetecível para pescadores estrangeiros, sobretudo senegaleses e da Guiné-Conacri, que ao contrário dos bijagós – pescadores artesanais com pequenas pirogas movidas a remos ou à vela – pescam grandes quantidades de peixes, tubarões e raias.
“Em 1999, existiam nas praias da ilha de Orango 12 ou 13 acampamentos de senegaleses, com centenas de barracas e barcos de 20 metros equipados com redes gigantescas e arcas congeladoras”, descreve Paulo Catry, investigador do Instituto Superior de Psicologia Aplicada, em Lisboa. 

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