Os gorilas salvos por Dian Fossey

Os gorilas de Karisoke - Em 1967, Dian Fossey montou o acampamento Karisoke e começou a estudar dezenas de gorilas. Cinquenta anos mais tarde, o Fundo Internacional Dian Fossey para o Estudo de Gorilas prossegue o trabalho. Até à data, foram observados mais de 350 símios e esta população é uma das mais bem investigadas do mundo. No gráfico, à esquerda, GUFASHA, a fêmea perdida - À semelhança de muitas fêmeas, Gufasha abandonou o seu grupo de nascença quando atingiu a maturidade sexual em 2005, com 7 anos. Nunca mais foi vista; à direita, POPPY Regressou a casa - Com 41 anos, Poppy é a gorila mais velha acompanhada pelo Fundo Fossey. Contemporânea de Dian, abandonou a população de Karisoke em 1984, mas regressou 30 anos mais tarde. Gráfico Daniela Santamarina e Lauren C. Tierney; Meg Roosevelt. Arte: Charity Oetgenfonte: Tara Stoinski, Fundo Internacional Dian Fossey para o Estudo de Gorilas.

Alta e directa, a investigadora não era universalmente adorada. Muitos autóctones consideram-na uma intrusa ou uma bruxa, que desrespeitava normas culturais e representava uma ameaça existencial para aqueles cujo sustento dependia da floresta. Dian tornou claras as suas prioridades desde o início. Expulsou pastores e o seu gado do parque: os animais esmagavam as plantas preferidas dos gorilas, obrigando-os a subir a encosta, onde as temperaturas eram insuportáveis para eles. Todos os anos destruía milhares de armadilhas montadas para capturar antílopes e búfalos. As armadilhas não matavam os gorilas imediatamente, mas era frequente ferirem patas que gangrenavam ou desenvolviam infecções mortais.

Cinco décadas de crescimento - Aqui estão as trajectórias dos grupos principais e alguns gorilas essenciais estudados por Dian Fossey. Os grupos costumam dividir-se após a morte dos machos alfa ou de disputas pelo domínio, em que um novo macho atrai fêmeas para formar outro grupo. No gráfico: DIGIT,  O preferido de Fossey - Digit foi morto por caçadores furtivos em 1977 ao defender o Grupo Quatro. A morte do famoso gorila foi anunciada pela CBS News. (no topo, è esquerda); GASORE  Sobreviveu à infância - Gasore é um dos três filhos de Maggie que sobreviveu aos primeiros anos. 25% dos gorilas de montanha morrem antes dos 3 anos, frequentemente de morte traumática, e MAGGIE  Progenitora prolífera - Maggie teve dez crias e passou décadas no grupo Pablo, tornando-se depois solitária. Tinha 25 anos quando lhe perderam o rasto em 2015 (no topo, à direita). CANTSBEE,  O chefe mais duradouro - Com 28 descendentes, é o gorila com maior sucesso reprodutivo alguma vez acompanhado. Cantsbee foi líder do grupo Pablo durante 21 anos: um recorde (abaixo, à esquerda); INSHUTI, Macho solitário - Nascido no Grupo Cinco, Inshuti viveu quase sempre sozinho, passando curtos períodos com grupos, como é típico em muitos machos. Foi avistado pela última vez em Maio de 2017 (abaixo, à direita).

 Dian capturou e agrediu caçadores furtivos com urtigas, queimou cabanas, confiscou armas e, certa vez, até tomou o filho de um caçador furtivo como refém. No entanto, a sua táctica mais eficaz (e parte duradoura do seu legado) foi pagar aos autóctones para patrulhar o parque e pressionar as autoridades ruandesas a aplicar leis contra a caça furtiva. Dian era uma figura polarizadora, mas tal como Jane Goodall, a especialista em chimpanzés, comentou em tempos: “Se a Dian não tivesse estado lá, talvez hoje já não existissem gorilas de montanha no Ruanda.”
Contemplando a placa simples na lápide de Dian Fossey, fico impressionada por tudo o que havia de extraordinário nesta pioneira: os 18 anos passados na floresta, as épicas batalhas travadas para conseguir financiamento e o esforço pela sua legitimidade académica, saúde física e ligações emocionais. É mais do que irónico que Dian Fossey tenha mostrado ao mundo um reino maioritariamente pacífico de famílias amorosas de gorilas quando a sua própria vida era caracterizada por amargura e desconfiança. “Ela estava sozinha e era odiada por muita gente”, afirma Veronia Vecellio.
A sepultura de Dian situa-se a poucos passos da de Digit, o “dorso prateado” que, com relutância, foi transformado num catalisador de fundos (graças ao Fundo do Digit) depois de o animal ter sido esfaqueado e decapitado por caçadores furtivos. Dian precisava urgentemente de dinheiro para pagar aos seus batedores e equipas de combate à caça furtiva, mas detestava a ideia de gerar receitas com o ecoturismo e achava que os turistas, que começaram a chegar a Karisoke, contra a sua vontade, em 1979, atraídos pelos gorilas, eram um factor adicional de ameaça para os animais. E, contudo, foi o talento de Dian Fossey para a divulgação dos seus estudos através de palestras e artigos que transformaram os gorilas em causes célèbres. Foi igualmente Dian quem descobriu como habituar os gorilas à presença humana e sem isso não existiria um negócio turístico.

Dian capturou e agrediu caçadores furtivos com urtigas, queimou cabanas, confiscou armas e, certa vez, até tomou o filho de um caçador furtivo como refém.

O Ruanda tolerava Dian com dificuldade enquanto viveu. As autoridades recusaram repetidamente os seus pedidos de visto e dificultaram  os seus esforços para pôr fim à caça furtiva. Contudo, o país não tardou a perceber que a sua morte e sepultamento num parque nacional teria, nas palavras de Veronica Vecellio, “um enorme valor simbólico. Criou uma noção de urgência e conseguiu apoio internacional para a conservação dos gorilas”. 
No ano passado, mais de trinta mil pessoas afluíram a pé ao parque, pagando ao Gabinete para o Desenvolvimento do Ruanda, que supervisiona o turismo nacional, 640 euros por um encontro com um grupo de gorilas limitado a uma hora. Os valores, que galoparam recentemente para 1.280 euros, pagam a segurança e vigilância e asseguram o compromisso do governo para a protecção da espécie.
Um número maior de turistas significa mais financiamento para as comunidades locais, através de um plano de partilha de receitas, e gera oportunidades de negócio em cadeia. 
As oportunidades turísticas podem expandir-se ainda mais. O governo do Ruanda, em colaboração com o Instituto de Tecnologia de Massachusetts, está a ponderar a construção de um posto de investigação climática no cume do monte Karisimbi, a 4.507 metros de altitude. Um teleférico poderia transportar os cientistas até lá e os turistas chegariam igualmente com facilidade. Temendo que o projecto destrua o habitat dos gorilas, os grupos de conservação reclamam um estudo mais abrangente dos impactes ambientais.

A sepultura de Dian situa-se a poucos passos da de Digit, o “dorso prateado” que, com relutância, foi transformado num catalisador de fundos (graças ao Fundo do Digit) depois de o animal ter sido esfaqueado e decapitado por caçadores furtivos.

A manhã está a chegar ao fim quando os meus guias localizam o grupo Sabyinyo, a uma curta distância da fronteira do parque, do outro lado de uma floresta de bambu sombreada. Quando a chuva que nos bombardeia acalma, ouvimos os animais a arrancarem e a mastigarem o cenário, muito antes de os vermos. 
Como uma montanha de músculo, o “dorso prateado” Gihishamwotsi está sentado numa clareira de fenos esmagados e lobélias gigantes, supervisionando calmamente um harém de fêmeas e as suas crias. De vez em quando grunhe, suscitando respostas guturais de animais fora do nosso alcance visual. Quando se levanta subitamente para bater no peito, desperta uma reacção maior (o susto) em mim do que nos outros.
Estava convencida de que o facto de ter passado uma vida inteira a ver documentários sobre natureza e de saber que gorilas e seres humanos partilham 98% do seu DNA diminuiria o entusiasmo quando visse estes animais em carne e osso. A dois metros de distância, porém, estou pasmada: os pés das crias são macios e carnudos como inhames; os dedos das progenitoras são do tamanho de salsichas; os antebraços dos “dorsos prateados” parecem agasalhos para mãos de gigantes. Sinto-me fascinada com a familiaridade dos seus gestos: eles arranham, como nós! Brincam com os dedos dos pés! Abraçam e acariciam as crias. Logo após esta epifania, porém, sinto culpa por invadir a sua privacidade.
Quando a minha hora chega ao fim, corro pela montanha abaixo para me encontrar com Winnie Eckardt numa sala do Centro de Investigação de Karisoke. Encostada a um congelador, a directora de investigação aponta para o conjunto de amostras congeladas. “Bem-vinda ao laboratório do cocó”, diz, rindo-se. Winnie está sempre pronta para subir à cratera dos vulcões vizinhos. Estuda gorilas de montanha desde 2004 e supervisiona actualmente a recolha e processamento mensal de amostras fecais (que contêm hormonas, enzimas e DNA, além de vírus e parasitas) de 130 animais.
“A endocrinologia da vida selvagem é um campo cada vez mais importante e é uma ferramenta muito poderosa”, comenta. Os investigadores de Karisoke estão a extrair cortisol, a hormona do stress, de fezes de gorila e a correlacioná-la com interacções já observadas.
Em 2014, os investigadores compararam observações sobre demografia e comportamento em grupos de gorilas com análises genéticas de DNA extraído de amostras fecais. Os resultados esclareceram diferenças fundamentais quanto à distância a que machos e fêmeas se afastam do seu grupo natal, um dos principais factores determinantes da estrutura genética de uma população.

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