Para alguns ruandeses, era uma intrusa ameaçadora, mas o seu trabalho impediu a extinção dos gorilas de montanha. Agora, os grandes símios enfrentam novos desafios.

Texto Elizabeth Royte   Fotografía Ronan Donovan

 

Dian Fossey dedicou quase vinte anos ao estudo dos gorilas, até ser assassinada em 1985. Criou relações próximas com alguns animais, incluindo estes órfãos resgatados – Coco e Pucker. Fotografia “Bob Campbell Papers”, Área de Estudos e Colecções Especiais, Biblioteca George A. Smathers, Universidade da Florida.

Pouco depois do nascer do Sol, dois gorilas de montanha balançam graciosamente sobre o muro que delimita o Parque Nacional dos Vulcões, no Noroeste do Ruanda. Aterrando suavemente sobre erva aparada, os animais de dorsos prateados passeiam pela encosta abaixo sobre campos cultivados, caminhando sobre os nós dos dedos a princípio e depois em posição bípede. Os machos adultos marcam a casca das árvores com os seus incisivos. Depois, acompanhados por fêmeas e juvenis do seu grupo, ao qual os investigadores chamaram Titus, aproximam-se de um caule de bambu.

Os machos adultos marcam a casca das árvores com os seus incisivos.

Mais tarde, Veronica Vecellio, directora do programa dos gorilas do Fundo Internacional Dian Fossey para o Estudo de Gorilas, apoia-se num tronco no alto de uma encosta nas montanhas de Virunga. Concentra a atenção num animal de dorso prateado conhecido como Urwibutso. O gorila salta frequentemente o muro, mas agora dobra com cuidado folhas de cardo antes de as pôr na boca. Quando se vira para Veronica, esta fotografa-o e depois amplia uma ferida que detecta no nariz.
“Andou a lutar com outro ‘dorso prateado’ do grupo Titus esta manhã”, sussurra. Os “dorsos prateados” são assim designados devido aos pêlos brancos que surgem nos machos quando atingem a maturidade.

Se Dian não tivesse protegido os gorilas e o seu habitat, é provável que estes símios (na imagem descansando nas encostas de grande altitude do monte Karisimbi), não existissem hoje. No entanto, os seus esforços granjearam-lhe a inimizade de muitos habitantes locais.

Há dez anos que o grupo Titus salta às escondidas o muro do parque e aventura-se um pouco mais longe. A situação não é perfeita. Os gorilas não comem as batatas nem os feijões plantados pelos aldeãos, mas podem vir a fazê-lo. Para já, matam árvores, um recurso valioso, e aproximam--se bastante dos dejectos dos seres humanos e do gado, que estão carregados de agentes patogénicos. O potencial de zoonose entre espécies é elevado e as probabilidades de os gorilas sobreviverem a um surto virulento são reduzidas. Por isso, quando o grupo Titus chega demasiado perto das casas de Bisate, os vigilantes da natureza, equipados com caules de bambu, enxotam-nos suavemente de volta para a encosta.
Dian Fossey, uma norte-americana sem experiência na investigação de animais selvagens, chegou a África para estudar os gorilas de montanha no fim da década de 1960, a pedido do antropólogo Louis Leakey e com financiamento da National Geographic Society. Em 1973, a população destes grandes símios nas montanhas de Virunga descera abaixo de 275, mas hoje, graças a medidas de conservação radicais, existem cerca de 480.

Durante mais de uma década, Dian viveu sozinha numa cabina húmida e isolada num posto avançado que construiu entre duas montanhas, fervendo água para o banho, comendo enlatados e lendo e escrevendo à luz de uma lanterna. Fotografia “Bob Camobell Papers”, Área de Estudos e Colecções Especiais, Biblioteca George A. Smathers, Universidade da Florida.

O crescimento do número de gorilas tem sido uma bênção para a diversidade genética: durante anos, os investigadores documentaram evidências de endogamia como fendas palatinas e membranas interdigitais. Todavia, o aumento da população teve uma desvantagem. “Os grupos são maiores”, diz Veronica. O grupo Pablo alcançou 65 membros em 2006. Agora tem cerca de 25, valor ainda quase três vezes superior ao tamanho médio dos grupos de gorilas nas montanhas de Virunga no Uganda e na República Democrática do Congo. “A densidade dos grupos em certas áreas também aumentou”, acrescenta.
Os confrontos entre grupos, que elevam as probabilidades de os gorilas sofrerem lesões ou cometerem infanticídio para eliminar os genes de um macho rival, ocorrem agora seis vezes mais do que há dez anos. “Também estamos a assistir a um aumento do nível de stress”, acrescenta Veronica. É possível que se registe um aumento da exposição a doenças relacionadas com o stress.

Usando uma máscara ritual nesta sessão fotográfica de 1969, Dian tirou partido das crenças locais em feitiçaria para afugentar os pastores e os seus animais da floresta. Também destruiu armadilhas, bateu em caçadores furtivos com urtigas e atacou os seus acampamentos. Fotografia “Bob Camobell Papers”, Área de Estudos e Colecções Especiais, Biblioteca George A. Smathers, Universidade da Florida.

Estes problemas não seriam tão agudos se os gorilas de montanha tivessem espaço ilimitado por onde circular, mas o Parque Nacional dos Vulcões tem apenas 160 metros quadrados e à sua volta cada vez há mais gente, sedenta de solo para pasto e cultivo, que transborda para o interior das suas fronteiras. É habitual as populações humanas violarem as regras do parque e saltarem o muro de pedra para abater árvores para lenha, caçar animais para comer, colher mel e, na estação seca, buscar água.
A julgar pela incursão desta manhã, é evidente que o grupo Titus se sente à vontade fora da floresta. Contudo, os gorilas têm poucas imunidades contra doenças humanas e a sua atitude descontraída em relação aos seres humanos torna-os vulneráveis.

 Antes e agora - Os investigadores identificam os gorilas pelas marcas do focinho. Digit (em cima), um intimidante “dorso prateado” e o preferido de Dian Fossey, foi objecto de uma campanha de angariação de fundos após a sua morte. Fotografia Dian Fossey, National Geographic Creative. 
Em Abril, batedores do Fundo Internacional Dian Fossey para o Estudo de Gorilas encontraram Fasha (em baixo), um juvenil, emaranhado numa armadilha de laço. Veterinários da organização Gorilla Doctors removeram a armadilha, salvando-lhe a vida.

 

Os visitantes do parque não se apercebem destas dinâmicas. Os investigadores que estudam os gorilas de montanha do Ruanda sabem que estão a documentar um momento único. Não se trata apenas do aumento da população de uma espécie em perigo crítico, mas também a possível revisão das regras que se presume governarem o seu comportamento social. 
Demorei quase duas horas a caminhar desde os arredores de Bisate, imersa em lama e urtigas, até ao posto de investigação criado por Dian Fossey em 1967, na depressão a grande altitude existente entre os montes Karisimbi e Visoke. O acampamento, a que Fossey deu o nome de Karisoke, começou com duas tendas e cresceu até agregar mais de uma dezena de cabanas e anexos num bosque coberto de musgo e copas de grande altura. Hoje, tal como no tempo de Dian, uma profusão de fetos, trepadeiras e vegetação rasteira parece tingir de verde a atmosfera húmida e um riacho corre pela clareira. Quando o cadáver de uma cria de gorila desapareceu, Dian passou horas sem fim debruçada sobre a margem deste riacho a examinar fezes de adulto em busca de provas irrefutáveis de canibalismo, mas nunca as encontrou.

Maoa: Daniela Santamarina e Lauren C. Tierney.

Em 1985, num crime que permanece sem solução, Dian foi assassinada por um intruso enquanto dormia na sua cama. Desde então, os biólogos continuaram a trabalhar em Karisoke. O acampamento foi encerrado em 1994 durante o genocídio ruandês e saqueado por rebeldes que atravessaram a floresta. Actualmente, o ampliado Centro de Investigação de Karisoke opera a partir de um edifício de escritórios na vizinha Musanze e os únicos vestígios humanos no posto criado por Dian são alicerces de pedra e um ocasional tubo de escoamento de fumo de lareira.
Apesar da altitude, das chuvas torrenciais e de temperaturas que podem descer abaixo de zero, cerca de quinhentos “peregrinos” sobem até Karisoke todos os anos para prestar homenagem a Dian Fossey. Muitos conhecem-na através do seu livro “Gorilas na Bruma”, que inspirou o filme homónimo de 1988. Quando o visitei, porém, tive o local quase só para mim. Enquanto explorava o terreno, tentando imaginar a vida de Dian aqui, os carregadores raspavam líquenes das tabuletas de madeira que assinalam as sepulturas de 25 gorilas. Imediatamente ao lado deste cemitério rústico, há uma placa de bronze dedicado a Dian.

Os gorilas de Karisoke - Em 1967, Dian Fossey montou o acampamento Karisoke e começou a estudar dezenas de gorilas. Cinquenta anos mais tarde, o Fundo Internacional Dian Fossey para o Estudo de Gorilas prossegue o trabalho. Até à data, foram observados mais de 350 símios e esta população é uma das mais bem investigadas do mundo. No gráfico, à esquerda, GUFASHA, a fêmea perdida - À semelhança de muitas fêmeas, Gufasha abandonou o seu grupo de nascença quando atingiu a maturidade sexual em 2005, com 7 anos. Nunca mais foi vista; à direita, POPPY Regressou a casa - Com 41 anos, Poppy é a gorila mais velha acompanhada pelo Fundo Fossey. Contemporânea de Dian, abandonou a população de Karisoke em 1984, mas regressou 30 anos mais tarde. Gráfico Daniela Santamarina e Lauren C. Tierney; Meg Roosevelt. Arte: Charity Oetgenfonte: Tara Stoinski, Fundo Internacional Dian Fossey para o Estudo de Gorilas.

Alta e directa, a investigadora não era universalmente adorada. Muitos autóctones consideram-na uma intrusa ou uma bruxa, que desrespeitava normas culturais e representava uma ameaça existencial para aqueles cujo sustento dependia da floresta. Dian tornou claras as suas prioridades desde o início. Expulsou pastores e o seu gado do parque: os animais esmagavam as plantas preferidas dos gorilas, obrigando-os a subir a encosta, onde as temperaturas eram insuportáveis para eles. Todos os anos destruía milhares de armadilhas montadas para capturar antílopes e búfalos. As armadilhas não matavam os gorilas imediatamente, mas era frequente ferirem patas que gangrenavam ou desenvolviam infecções mortais.

Cinco décadas de crescimento - Aqui estão as trajectórias dos grupos principais e alguns gorilas essenciais estudados por Dian Fossey. Os grupos costumam dividir-se após a morte dos machos alfa ou de disputas pelo domínio, em que um novo macho atrai fêmeas para formar outro grupo. No gráfico: DIGIT,  O preferido de Fossey - Digit foi morto por caçadores furtivos em 1977 ao defender o Grupo Quatro. A morte do famoso gorila foi anunciada pela CBS News. (no topo, è esquerda); GASORE  Sobreviveu à infância - Gasore é um dos três filhos de Maggie que sobreviveu aos primeiros anos. 25% dos gorilas de montanha morrem antes dos 3 anos, frequentemente de morte traumática, e MAGGIE  Progenitora prolífera - Maggie teve dez crias e passou décadas no grupo Pablo, tornando-se depois solitária. Tinha 25 anos quando lhe perderam o rasto em 2015 (no topo, à direita). CANTSBEE,  O chefe mais duradouro - Com 28 descendentes, é o gorila com maior sucesso reprodutivo alguma vez acompanhado. Cantsbee foi líder do grupo Pablo durante 21 anos: um recorde (abaixo, à esquerda); INSHUTI, Macho solitário - Nascido no Grupo Cinco, Inshuti viveu quase sempre sozinho, passando curtos períodos com grupos, como é típico em muitos machos. Foi avistado pela última vez em Maio de 2017 (abaixo, à direita).

 Dian capturou e agrediu caçadores furtivos com urtigas, queimou cabanas, confiscou armas e, certa vez, até tomou o filho de um caçador furtivo como refém. No entanto, a sua táctica mais eficaz (e parte duradoura do seu legado) foi pagar aos autóctones para patrulhar o parque e pressionar as autoridades ruandesas a aplicar leis contra a caça furtiva. Dian era uma figura polarizadora, mas tal como Jane Goodall, a especialista em chimpanzés, comentou em tempos: “Se a Dian não tivesse estado lá, talvez hoje já não existissem gorilas de montanha no Ruanda.”
Contemplando a placa simples na lápide de Dian Fossey, fico impressionada por tudo o que havia de extraordinário nesta pioneira: os 18 anos passados na floresta, as épicas batalhas travadas para conseguir financiamento e o esforço pela sua legitimidade académica, saúde física e ligações emocionais. É mais do que irónico que Dian Fossey tenha mostrado ao mundo um reino maioritariamente pacífico de famílias amorosas de gorilas quando a sua própria vida era caracterizada por amargura e desconfiança. “Ela estava sozinha e era odiada por muita gente”, afirma Veronia Vecellio.
A sepultura de Dian situa-se a poucos passos da de Digit, o “dorso prateado” que, com relutância, foi transformado num catalisador de fundos (graças ao Fundo do Digit) depois de o animal ter sido esfaqueado e decapitado por caçadores furtivos. Dian precisava urgentemente de dinheiro para pagar aos seus batedores e equipas de combate à caça furtiva, mas detestava a ideia de gerar receitas com o ecoturismo e achava que os turistas, que começaram a chegar a Karisoke, contra a sua vontade, em 1979, atraídos pelos gorilas, eram um factor adicional de ameaça para os animais. E, contudo, foi o talento de Dian Fossey para a divulgação dos seus estudos através de palestras e artigos que transformaram os gorilas em causes célèbres. Foi igualmente Dian quem descobriu como habituar os gorilas à presença humana e sem isso não existiria um negócio turístico.

Dian capturou e agrediu caçadores furtivos com urtigas, queimou cabanas, confiscou armas e, certa vez, até tomou o filho de um caçador furtivo como refém.

O Ruanda tolerava Dian com dificuldade enquanto viveu. As autoridades recusaram repetidamente os seus pedidos de visto e dificultaram  os seus esforços para pôr fim à caça furtiva. Contudo, o país não tardou a perceber que a sua morte e sepultamento num parque nacional teria, nas palavras de Veronica Vecellio, “um enorme valor simbólico. Criou uma noção de urgência e conseguiu apoio internacional para a conservação dos gorilas”. 
No ano passado, mais de trinta mil pessoas afluíram a pé ao parque, pagando ao Gabinete para o Desenvolvimento do Ruanda, que supervisiona o turismo nacional, 640 euros por um encontro com um grupo de gorilas limitado a uma hora. Os valores, que galoparam recentemente para 1.280 euros, pagam a segurança e vigilância e asseguram o compromisso do governo para a protecção da espécie.
Um número maior de turistas significa mais financiamento para as comunidades locais, através de um plano de partilha de receitas, e gera oportunidades de negócio em cadeia. 
As oportunidades turísticas podem expandir-se ainda mais. O governo do Ruanda, em colaboração com o Instituto de Tecnologia de Massachusetts, está a ponderar a construção de um posto de investigação climática no cume do monte Karisimbi, a 4.507 metros de altitude. Um teleférico poderia transportar os cientistas até lá e os turistas chegariam igualmente com facilidade. Temendo que o projecto destrua o habitat dos gorilas, os grupos de conservação reclamam um estudo mais abrangente dos impactes ambientais.

A sepultura de Dian situa-se a poucos passos da de Digit, o “dorso prateado” que, com relutância, foi transformado num catalisador de fundos (graças ao Fundo do Digit) depois de o animal ter sido esfaqueado e decapitado por caçadores furtivos.

A manhã está a chegar ao fim quando os meus guias localizam o grupo Sabyinyo, a uma curta distância da fronteira do parque, do outro lado de uma floresta de bambu sombreada. Quando a chuva que nos bombardeia acalma, ouvimos os animais a arrancarem e a mastigarem o cenário, muito antes de os vermos. 
Como uma montanha de músculo, o “dorso prateado” Gihishamwotsi está sentado numa clareira de fenos esmagados e lobélias gigantes, supervisionando calmamente um harém de fêmeas e as suas crias. De vez em quando grunhe, suscitando respostas guturais de animais fora do nosso alcance visual. Quando se levanta subitamente para bater no peito, desperta uma reacção maior (o susto) em mim do que nos outros.
Estava convencida de que o facto de ter passado uma vida inteira a ver documentários sobre natureza e de saber que gorilas e seres humanos partilham 98% do seu DNA diminuiria o entusiasmo quando visse estes animais em carne e osso. A dois metros de distância, porém, estou pasmada: os pés das crias são macios e carnudos como inhames; os dedos das progenitoras são do tamanho de salsichas; os antebraços dos “dorsos prateados” parecem agasalhos para mãos de gigantes. Sinto-me fascinada com a familiaridade dos seus gestos: eles arranham, como nós! Brincam com os dedos dos pés! Abraçam e acariciam as crias. Logo após esta epifania, porém, sinto culpa por invadir a sua privacidade.
Quando a minha hora chega ao fim, corro pela montanha abaixo para me encontrar com Winnie Eckardt numa sala do Centro de Investigação de Karisoke. Encostada a um congelador, a directora de investigação aponta para o conjunto de amostras congeladas. “Bem-vinda ao laboratório do cocó”, diz, rindo-se. Winnie está sempre pronta para subir à cratera dos vulcões vizinhos. Estuda gorilas de montanha desde 2004 e supervisiona actualmente a recolha e processamento mensal de amostras fecais (que contêm hormonas, enzimas e DNA, além de vírus e parasitas) de 130 animais.
“A endocrinologia da vida selvagem é um campo cada vez mais importante e é uma ferramenta muito poderosa”, comenta. Os investigadores de Karisoke estão a extrair cortisol, a hormona do stress, de fezes de gorila e a correlacioná-la com interacções já observadas.
Em 2014, os investigadores compararam observações sobre demografia e comportamento em grupos de gorilas com análises genéticas de DNA extraído de amostras fecais. Os resultados esclareceram diferenças fundamentais quanto à distância a que machos e fêmeas se afastam do seu grupo natal, um dos principais factores determinantes da estrutura genética de uma população.

Novos desafios - Os agricultores de Bisate, junto do Parque Nacional dos Vulcões, habituaram-se a que os gorilas de montanha saíssem da floresta para comer bambu, plantado como material de construção. Por vezes, os gorilas do grupo Titus até dormem fora do parque, aumentando o risco de serem contagiados pelos seres humanos ou pelo gado e contraírem uma doença mortal.

O sequenciamento de DNA também informa os investigadores sobre a paternidade dos gorilas. “Estes estudos ensinaram-nos que o ‘dorso prateado’ dominante é o pai da maioria das crias de um grupo, mas não de todas”, diz Winnie. 
O segundo e o terceiro “dorso prateado” também transmitem os seus genes. Isto levanta questões mais interessantes: o que leva os não dominantes a decidirem ficar num grupo ou a tentarem seduzir fêmeas para criar um novo grupo? Que factores estão associados ao seu sucesso reprodutivo? Como se mantém o domínio do macho?
Ao revelar provas de endogamia e o sucesso de várias linhagens, as análises de DNA também contribuem para a tomada de decisões de conservação. “Se só se puderem salvar alguns grupos de gorilas, devem ser escolhidos os grupos com laços familiares mais distantes”, diz Winnie. “Se forem consanguíneos, não terão comportamentos normais ou talvez venham a ter problemas de saúde.” A escassa diversidade genética também torna os gorilas mais vulneráveis à doença e a perturbações causadas pelas alterações climáticas.

O que leva os não dominantes a decidirem ficar num grupo ou a tentarem seduzir fêmeas para criar um novo grupo?

Os investigadores publicaram quase trezentos artigos com base nos dados recolhidos em Karisoke, mas ainda há muito por aprender. “Se tivesse conduzido um estudo entre 1997 e 2007, que é um estudo longo, diria que não há infanticídio aqui”, diz Tara Stoinski, presidente e directora científica do Fundo Fossey, “no entanto, com base num tempo anterior e posterior a esse período, nós sabemos que não é um comportamento invulgar.”
Ao longo da década de 1970, os gorilas viveram em densidades reduzidas e sujeitos a interferência humana, o que separou os grupos e levou os machos solitários a atraírem fêmeas dos seus grupos e, de seguida, a matarem-lhes as crias para induzir o cio. Quando a caça furtiva diminuiu, o mesmo aconteceu ao infanticídio. “Agora temos uma densidade de grupos elevada e pouca interferência humana”, diz Tara. “O infanticídio cresce devido ao aumento das interacções entre grupos. É fascinante ver como os gorilas reagem.”
Talvez uma das maiores surpresas para os funcionários do parque e para Tara Stoinski, que publicou quase cem artigos sobre o comportamento e a conservação de primatas, foi o reaparecimento de um “dorso prateado” que se presumia morto no passado mês de Janeiro. Cantsbee, um dos dois últimos gorilas apadrinhada por Dian Fossey, era o macho mais velho de que havia registo. Foi o chefe de Pablo, o maior grupo de Karisoke, e, segundo uma análise concluída em 2013, foi pai de pelo menos 28 crias, um recorde entre os gorilas estudados. Depois de desaparecer em Outubro de 2016, com 37 anos, muitos batedores passaram um mês em vão à procura do seu corpo na floresta. 
O regresso de Cantsbee contestou muitos preconceitos sobre o comportamento dos machos dominantes. “É inédito que um líder com esta idade e estatuto desapareça e depois regresse”, diz Tara Stoinski, com espanto na voz. “Além disso, estava em grande forma.”
Durante a ausência de Cantsbee, o seu filho Gicurasi tornara-se o líder de Pablo. Quando regressou, Cantsbee liderou ocasionalmente o grupo, mas não voltou a dominá-lo. Mais tarde, em Fevereiro, aparentando debilidade, afastou-se pela última vez. O seu cadáver foi encontrado em Maio.

Para os investigadores de Karisoke, tudo o que acontece hoje no parque demonstra a flexibilidade dos gorilas de montanha.

Para os investigadores de Karisoke, tudo o que acontece hoje no parque demonstra a flexibilidade dos gorilas de montanha. No tempo de Dian Fossey, os grupos observados acolhiam apenas dois ou três machos. Na década de 1990 e nos primeiros anos da década de 2000, quando a interferência humana diminuiu, os grupos cresceram consideravelmente e podiam incluir até oito “dorsos prateados”. Mais recentemente, os investigadores observaram muitas divisões nos grupos, frequentemente após a morte de um macho dominante, gerando novamente grupos mais parecidos com os do tempo de Dian Fossey. “Isto revela que o comportamento não existe num vácuo. Depende do contexto em que se enquadra”, afirma Tara. “Quando o ambiente e as circunstâncias mudam, factores como a organização social dos gorilas também mudam.” E como os gorilas demoram muito tempo a atingir a idade adulta, são necessários estudos de longo prazo para obter uma ideia do que é a “normalidade”.
Enquanto as actividades humanas empurram cerca de 60% das espécies de primatas selvagens para a extinção, uma população de grandes símios está a aumentar. Mesmo assim, os gorilas de montanha de Virunga ainda são vulneráveis. “A população é incrivelmente pequena e frágil”, avisa Tara Stoinski.

Dian caminha com Coco e Pucker. As crias foram capturadas em 1969 para um zoológico alemão. Dian cuidou delas até recuperarem a saúde, chegando a partilhar a sua cabana, mas acabou por perder a batalha legal para mantê-las longe do cativeiro. Fotografia Robert M. Campbell, National Geographic Creative.

Por isso, o Fundo Fossey continua a monitorizar os animais e a ajudar a remover armadilhas, investindo simultaneamente em programas sociais. A organização criou uma biblioteca escolar e um centro informático em Bisate, onde também construiu uma maternidade. Gere programas de formação em conservação que afectam cerca de 13 mil ruandeses por ano e planeia ajudar as comunidades locais a descobrir maneiras de ganhar a vida.

Os gorilas já estão a mudar-se para zonas da área protegida com menos grupos, mas os seres humanos também terão de dar espaço aos gorilas.

Os gorilas já estão a mudar-se para zonas da área protegida com menos grupos, mas os seres humanos também terão de dar espaço aos gorilas. O governo propôs uma zona-tampão que obrigaria as pessoas, o gado e as explorações agrícolas a descer a encosta. Isso seria polémico, pois no distrito de Musanze vivem 700 pessoas por quilómetro quadrado. “Precisamos de garantir que as comunidades entendam o valor do parque”, diz Tara Stoinski. Afinal, a localização de gorilas é a base da indústria turística do país, que gerou 315 milhões de euros em 2015, e o parque partilha 10% das suas receitas com as comunidades locais.
Quando vemos uma fêmea a brincar com a sua cria minúscula enquanto um par de adolescentes luta, é fácil esquecermo-nos da ginástica humana que permitiu esta maravilhosa cena. Os críticos perguntam se esforços de conservação radicais consomem dinheiro que poderia ser mais bem aplicado noutro investimento e alguns já sugeriram que as medidas podem perturbar a selecção natural, contribuindo para a sobrevivência de indivíduos menos aptos. Veronica Vecellio defende firmemente o seu trabalho. “Estamos a manter estes gorilas vivos e a inverter o impacte humano porque foram os seres humanos que os puseram em perigo”, afirma. 

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