Um dos últimos refúgios da natureza no Canadá

Antigamente, era um mero ponto de passagem numa região onde o comboio mal parava. Agora, Yoho é um lugar de ciência e beleza natural.

Texto McKenzie Funk   Fotografia Peter Essick

 

O lago O’Hara aninha-se no sector canadiano das montanhas Rochosas a mais de dois mil metros de altitude, “como uma esmeralda numa taça de montanhas”, escreveu o paleontólogo Charles Walcott em 1911. Gerações de artistas criaram neste miradouro. 

Há um século, nas encostas do monte Field, no Parque Nacional Yoho, Charles Doolittle Walcott, um dos mais famosos paleontólogos do seu tempo, foi autor de dois achados que mudaram a sua vida. O primeiro é hoje, na opinião de muitos especialistas, a principal jazida de fósseis do mundo.

Os visitantes contemporâneos deste sublime e menosprezado parque nas montanhas Rochosas canadianas interessam-se sobretudo pela primeira destas descobertas.

O segundo foi… a sua terceira mulher, Mary Vaux, cujo apelido viria a designar um género de esponjas fossilizadas: Vauxia.
Os visitantes contemporâneos deste sublime e menosprezado parque nas montanhas Rochosas canadianas interessam-se sobretudo pela primeira destas descobertas. A formação Burgess Shale, que abrange a pedreira Walcott, recebeu da UNESCO a designação de Património Mundial em 1980. Anos mais tarde, num livro muito bem sucedido, o biólogo Stephen Jay Gould referiu-se a Burgess Shale como “a mais preciosa e importante de todas as jazidas de fósseis”. É um baú do tesouro com criaturas marinhas do Câmbrico perfeitamente conservadas. Encontraram-se aqui mais de duzentos mil espécimes de aspecto invulgar e há inúmeros outros ainda por descobrir.
No entanto, a maioria das formas de vida dos Xistos de Burgess (desde o Wiwaxia, com a sua carapaça coberta de espinhos, ao Opabinia, um habitante do leito marinho com corpo mole, cinco olhos e uma garra na ponta de uma tromba elefantina) pareciam, na opinião de Stephen Gould, becos sem saída da evolução, espécies sem descendentes contemporâneos.

Em Yoho, mais de duas dezenas de picos erguem-se acima de 3.050 metros, incluindo os rochedos da cordilheira Ottertail. Erguidas por forças tectónicas, estas rochas foram em tempos um leito marinho. 

Na sequência da sua reflexão, Stephen Gould utilizou mesmo a explosão da vida no Câmbrico e o subsequente desaparecimento da maioria das linhagens evolutivas para argumentar que “a sobrevivência dos mais aptos” tem uma contrapartida importante: a sorte. Será a evolução, em parte, uma lotaria? Será a história natural governada pelo acaso? O debate científico aqueceu desde então, mas quase sempre bem longe das fronteiras deste parque natural. 

“Não imagino alegria maior do que acampar ali, longe dos turistas e do barulho do cavalo de ferro.”

Para compreendermos o encanto de Yoho propriamente dito, é melhor concentrarmo-nos na mulher notável que também esteve na encosta daquela montanha, Mary Vaux, cuja própria família tem uma história que mostra como o acaso pode fintar o destino.Num dia de Agosto soalheiro, mas frio, acordei em Field, na Colúmbia Britânica, uma aldeia com 150 habitantes que alberga a sede do parque de Yoho e um hotel, um café, um restaurante, uma estação de correios e uma escola primária. Dirigi-me, de carro, ao vale de Yoho, nos arredores. Aproximadamente na viragem do século XIX, Mary, a filha mais velha de uma destacada família quaker de Filadélfia, foi a primeira mulher branca a visitar o vale. “Para mim, é o sítio mais bonito que vi e sinto sempre o sangue correr mais depressa nas minhas veias quando falo ou ouço falar sobre ele”, escreveu mais tarde numa carta endereçada a Charles Walcott. “Não imagino alegria maior do que acampar ali, longe dos turistas e do barulho do cavalo de ferro.”

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