Será possível salvar as mais importantes polinizadoras do planeta? Cientistas e apicultores tentam gerar uma abelha melífera mais resistente

Texto Charles C. Mann   Fotografia Anand Varma

 

Uma nova abelha melífera emerge de um alvéolo. Durante o seu ciclo de vida de seis semanas, esta operária procurará alimento, fabricará mel e criaráa geração seguinte. Imagem composta digitalmente por 23 fotografias. Fonte: Billy Synk, Harry H. Laidlaw Jr., Centro de Pesquisa de Abelhas Melíferas, UC Davis.

O frei Adam deve ter percebido que se tornara apicultor numa época infeliz. Corria o ano de 1915 e ele era um noviço de 16 anos na abadia de Buckfast, no Sudoeste de Inglaterra. Há séculos que existem registos de mortes maciças de abelhas, mas a catástrofe enfrentada pelo monge não tinha precedentes. Uma doença eliminara quase todos os apiários da ilha de Wight e prometia devastar o resto de Inglaterra.

O vigor aparentemente superior destes cruzamentos levou frei Adam a pensar na criação de uma abelha resistente à doença.

Um dia, frei Adam encontrou as colmeias vazias. As abelhas rastejavam no fundo, incapazes de voar. Nesse ano, perdeu 29 das 45 colmeias da abadia. 
Os cientistas acabariam por associar a doença a um vírus previamente desconhecido, mas a investigação chegou demasiado tarde para salvar a abelha melífera castanho-escura da Grã-Bretanha. Quase todos os enxames sobreviventes eram híbridos, descendentes de zângãos nativos e de abelhas-rainhas criadas no estrangeiro. 
O vigor aparentemente superior destes cruzamentos levou frei Adam a pensar na criação de uma abelha resistente à doença.
Em 1950, após muitos anos de preparativos, surgiu finalmente a oportunidade. Ao volante de um velho automóvel da abadia, viajou durante 37 anos através da Europa, do Médio Oriente e de África, recolhendo mais de 1.500 abelhas-rainhas: as laboriosas abelhas do Norte da Turquia; as abelhas de Creta, com uma enorme diversidade; as abelhas isoladas dos oásis do Saara, as abelhas de um negro profundo de Marrocos, as minúsculas abelhas cor de laranja do Nilo, as supostamente plácidas abelhas do monte Kilimanjaro. Levou consigo esta exótica colecção para uma estação distante no meio dos pântanos, a muitos quilómetros das outras abelhas com os seus genes indesejados.

Depois de realizar um número infindável de ensaios reprodutores em isolamento prístino, criou a abelha Buckfast, uma superabelha, como rapidamente lhe chamaram.

Depois de realizar um número infindável de ensaios reprodutores em isolamento prístino, criou a abelha Buckfast, uma superabelha, como rapidamente lhe chamaram. De cor castanho-clara e robusta, revelou-se relutante em usar o ferrão, zelosamente produtiva e resistente àquela que fora entretanto classificada como a “doença da ilha de Wight”. Na década de 1980, as abelhas Buckfast já se vendiam em todo o mundo.
Os criadores de abelhas são raros. Frei Adam transformara-se em algo ainda mais raro: uma celebridade da apicultura. 
No entanto, as abelhas melíferas viram-se de novo sob ataque. Um ácaro asiático da espécie Varroa destructor invadira a Europa e a América. “Só uma raça ou estirpe totalmente resistente e geneticamente capacitada” conseguirá dar “a derradeira resposta a esta ameaça”, proclamou frei Adam em 1991. Porém, antes que pudesse começar o seu trabalho, o abade de Buckfast, convencido de que a fama crescente de frei Adam não era compatível com a sua vocação, retirou-o do cargo. Adam morreu, profundamente desgostoso, em 1996. “Na verdade, ninguém ocupou o seu lugar na abadia”, explica Clare Densley que, há dois anos, retomou o projecto apícola, entretanto adiado, de Buckfast. 

Uma gotícula de fenotrina é depositada numa abelha anestesiada para testar os efeitos de um potente insecticida. A experiência é conduzida pela Universidade Estadual de Louisiana e pelo Ministério Norte-Americano da Agricultura. Como regressam às colmeias ao crepúsculo, as abelhas melíferas raramente entram em contacto com estas substâncias químicas, cuja pulverização se realiza normalmente de noite. Mas os investigadores descobriram que, mesmo em doses minúsculas, elas podem afectar os insectos. Fonte: Frank Rinkevich, Universidade Estadual de Louisiana, Baton Rouge.

Enquanto isso, as condições pioraram na terra das abelhas. Em 2007, surgiram relatos da ocorrência de “síndrome do colapso das colmeias”, a morte repentina e terrível de colmeias inteiras. As notícias classificaram-na como uma “ameaça à agricultura mundial” e uma “catástrofe sem precedentes para o planeta”. As notícias estavam correctas: a polinização pelos insectos, principalmente pelas abelhas melíferas, é decisiva para um terço da produção mundial de géneros alimentares.

Nada de químicos, nada de manipulação: apenas deixar as abelhas evoluírem por si!

Os especialistas, muitos dos quais inspirados pelo exemplo de frei Adam, apressaram-se a estudar o colapso das colmeias. Muitos concluíram que não se tratava de um problema isolado, ao contrário do que se pensara, mas de uma amálgama de pragas, agentes patogénicos, perda de habitat, substâncias químicas tóxicas e invasão de ácaros. A maior parte dos apicultores de grande dimensão recorre aos pesticidas para eliminar os ácaros, mas trata-se de uma solução temporária, na melhor das hipóteses. Para evitar o uso de produtos químicos, alguns especialistas em abelhas regressaram ao método de frei Adam: a versão 2.0 da supeabelha. Só que, desta vez, utilizam ferramentas da ciência, incluindo a modificação genética. Outros privilegiam o método oposto, ainda mais natural do que o utilizado por frei Adam. Nada de químicos, nada de manipulação: apenas deixar as abelhas evoluírem por si!
As abelhas melíferas são superorganismos. Agem em função do enxame. Constituem redes linguísticas. São um dos poucos animais não-humanos capazes de comunicação simbólica, pois dançam para explicar aos seus companheiros de estirpe a localização dos alimentos. Os amigos das abelhas utilizam metáforas parecidas, mas reconhecem que não conseguem entender estas criaturas complexas, bem como as suas comunidades organizadas. Com uma população que pode atingir os 80 mil indivíduos, cada colmeia é semelhante a uma pequena cidade humana. 

Em 2007, foi anunciada a “síndrome do colapso das colmeias”, um novo fenómeno que dizimou enxames em todo o mundo. Hoje, crê-se que se trata de facto de uma amálgama de ameaças, composta por pragas, patógenos, pesticidas e perda de habitat. Individualmente, o pior elemento é o Varroa destructor, um ácaro asiático do tamanho de uma cabeça de alfinete, que aqui vemos pousado sobre uma pupa de abelha. Imagem composta digitalmente por 200 fotografias. Fonte: Harry H. Laidlaw Jr., Centro de Pesquisa de Abelhas Melíferas. 

Zunindo e zumbindo, estes animais laboriosos da espécie Apis mellifera buscam nas flores gotículas minúsculas de uma secreção de açúcar, o néctar. As abelhas sugam o néctar para o interior dos seus “estômagos do mel”, onde decompõem os açúcares. Uma vez no interior da colmeia, regurgitam o líquido e sacodem-no com as asas a fim de evaporar a água. O produto final doce e pegajoso (o mel) é armazenado para o Inverno ou roubado pelos seres humanos. Meio quilo de mel de trevo, segundo o cálculo do ecologista Bernd Heinrich, “representa a recompensa alimentar de aproximadamente 8,7 milhões de flores”.
Quando observamos as abelhas trabalhando com afinco para produzir mel, dificilmente acreditamos que elas não têm noção do mais importante papel que desempenham na natureza: a distribuição de pólen. Em rigor, o pólen é a parte masculina de uma planta. A abelha transfere o DNA para a parte feminina da flor, uma etapa decisiva na reprodução. As plantas conseguem dispersar o pólen por meio do vento ou dos animais, normalmente insectos. Quando a Apis mellifera recolhe o néctar das flores, os grãos de pólen colam-se ao seu corpo. Ao visitar mais flores, parte do pólen solta-se, fertilizando a planta. 

Em rigor, o pólen é a parte masculina de uma planta. A abelha transfere o DNA para a parte feminina da flor, uma etapa decisiva na reprodução.

Só compreendi a maneira como isto tudo funciona depois de fazer uma visita a Adam Novitt, em Northampton, no estado de Massachusetts (EUA), que guarda as colmeias num pequeno quintal urbano. O seu negócio é artesanal e orientado para os consumidores de produtos naturais e locais. Cada frasco do seu mel de Northampton tem um rótulo com o código postal do sítio onde as suas abelhas recolheram o pólen. Adam foi obrigado a esperar dois anos para obter as tão procuradas abelhas-rainhas Buckfast. Para demonstrar a sua mansidão, ele retira as tampas das suas colmeias sem luvas nem véu. Um aroma inconfundível ergue-se no ar. Nos favos, as abelhas tropeçam umas sobre as outras, como crianças num jardim de infância.
Algumas abelhas de Adam Novitt apresentam-se pintalgadas com manchas avermelhadas do tamanho de cabeças de alfinete. São provas de Varroa destructor. Os ácaros agarram-se como carraças ou sanguessugas, sugando a hemolinfa, um líquido semelhante a sangue, dos seus anfitriões e enfraquecendo-lhes o sistema imunitário. O ambiente da colmeia (húmido e quente, com as abelhas em contacto permanente) é tão perfeito para os patógenos das abelhas como um jardim-escola para os patógenos humanos.

A técnica Sharon O’Brien segura com uma pinça o ferrão de uma abelha-rainha anestesiada, enquanto se prepara para injectar sémen no oviducto (conduta de acesso aos ovários) do insecto. Os investigadores tentam criar abelhas melíferas capazes de resistir naturalmente ao Nosema ceranae, um parasita fúngico da Ásia que afecta as colónias de abelhas na Europa e nos Estados Unidos. Fonte: Laboratório do Serviço de Estudos Agrícolas do Ministério Norte-Americano da Agricultura para a Criação, Genética e Investigação Fisiológica da Abelha Melífera, Baton Rouge.

“O ácaro abre caminho e a bactéria, fungo ou vírus trata do resto”, explica Adam. Dá um estalo com os dedos. “Pff! – colapso da colmeia.” Antes do ácaro, a apicultura implicava sobretudo tarefas de manutenção, pois “as abelhas precisavam de níveis mínimos de atenção, na maior parte do tempo”. Desde a chegada do ácaro, “é mesmo preciso tratar delas”. A apicultura deveria em rigor chamar-se “gestão de ácaros”, brinca.
A maioria dos agricultores confrontados com problemas de insectos recorre à indústria química e a cerca de uma dúzia de acaricidas eficazes. Os produtos químicos são de uso generalizado, mas não encontrei um único investigador especialista em abelhas, apicultor para fins comerciais ou apicultor de tempos livres que se mostrasse satisfeito por introduzir toxinas nas colmeias. Além disso, segundo relatórios científicos, muitos ácaros já se tornaram resistentes aos acaricidas comerciais.

A maioria dos agricultores confrontados com problemas de insectos recorre à indústria química e a cerca de uma dúzia de acaricidas eficazes.

Um tratamento diferente, potencialmente não-tóxico, é proposto pela Beeologics, empresa pertencente ao gigante da agro-indústria Monsanto, que recorre à ARNi (a última letra significa “interferência”). As moléculas de ARN das células transportam a informação dos genes, ou seja, de segmentos particulares das moléculas de ADN, para a maquinaria celular responsável pelo fabrico das proteínas, os elementos químicos constitutivos da vida.
Cada proteína possui uma configuração única, tal como o ARN e o gene que lhe está associado. Na interferência de ARN, as células são marcadas como alvo com uma substância concebida para atacar uma variante específica do ARN. A incapacitação desse ARN elimina o elo entre um gene e a respectiva proteína. Na versão da Beeologics, as abelhas seriam alimentadas com água açucarada contendo ARNi, a qual incapacitaria o ARN dos ácaros. Em teoria, esta água açucarada instruída não deveria afectar a abelha. Mas quando os ácaros ingerem a hemolinfa das abelhas, também ingerirão a ARNi, o que deveria afectá-los.

Rodeada de operárias que a alimentam, uma abelha-rainha integrada numa colónia experimental resistente aos ácaros estende a língua para receber o alimento. A rainha é “higiénica”: gera operárias capazes de detectar e eliminar as pupas infestadas por ácaros. A comunidade científica tenta desenvolver abelhas higiénicas igualmente dotadas de características valorizadas pelos apicultores: docilidade, resistência e produção prolífera de mel. Fonte: Laboratório do Serviço de Estudos Agrícolas do Ministério Norte-Americano da Agricultura.

Marla é a única investigadora especializada em abelhas que recebeu uma bolsa de “génio” da Fundação MacArthur. “Se definirmos uma área específica como alvo, o organismo contornará sempre a ferramenta”, argumenta. Segundo ela, para travar o “apicalipse” (ou apocalipse das abelhas) vai ser preciso uma abelha melífera “mais saudável e mais forte”, capaz de combater os ácaros e as doenças sozinha, sem ajuda humana.
Desenvolvendo esforços em paralelo, dois grupos de investigadores (de um lado, Marla e os seus colaboradores; do outro, John Harbo com os seus colegas do Centro de Investigação do Ministério Norte-Americano da Agricultura) procuraram criar abelhas resistentes aos ácaros. Embora utilizando métodos diferentes, apontaram para o mesmo alvo: criar abelhas “higiénicas”. 

Abelhas em movimento - Todos os anos, transportam-se insectos ao longo de milhares de quilómetros para polinizar culturas durante a floração. Segundo o Ministério Norte-Americano da Agricultura, um terço dos géneros alimentares da dieta típica do país depende das abelhas e de outros polinizadores. Gráfico Virginia W. Mason, Jason Treat e Matthew Twombly; Meg Roosevelt. Fontes: Nicholas Calderone, Universidade de Cornell; Serviço Nacional de Estatísticas Agrícolas (EUA); Serviço de Estudos Económicos, Ministério da Agricultura dos EUA.

Todas as larvas de Apis mellifera crescem em células especiais do favo, que as abelhas adultas enchem com alimento e tapam com cera. Os ácaros entram nas células mesmo antes de estas serem seladas e põem nelas os seus ovos. Enquanto chocam, os jovens ácaros alimentam-se das pupas de abelha, indefesas e imóveis. Quando a abelha plenamente desenvolvida emerge e entra na colmeia, traz ácaros agarrados às costas ou à barriga. Ao contrário da maioria das abelhas melíferas, as abelhas higiénicas conseguem detectar os ácaros dentro das células seladas, provavelmente pelo cheiro; então, abrem as tampas e retiram do interior as pupas de abelha infestadas, interrompendo o ciclo reprodutivo do ácaro. 

Ao passarem as patas intermédias sobre os corpos, as abelhas melíferas limpam-se a si mesmas e umas às outras.

Marla e John foram bem-sucedidos e conseguiram criar versões reprodutíveis de abelhas higiénicas no fim da década de 1990. Poucos anos depois, a comunidade científica apercebeu-se de que as abelhas higiénicas se tornam menos eficazes à medida que o número de ácaros aumenta. Não se conhece ainda ao certo qual a maneira de suprir esta lacuna, em parte porque a base genética do comportamento das abelhas higiénicas ainda não é compreendida. Problemas semelhantes são originados por outra característica desejável: abelhas que cuidem da limpeza. Ao passarem as patas intermédias sobre os corpos, as abelhas melíferas limpam-se a si mesmas e umas às outras. Se as abelhas se catarem antes que os ácaros se agarrem a elas, conseguem erradicar as pragas. Um objectivo evidente é uma abelha higiénica capaz de cuidar da limpeza, mas os criadores temem gerar abelhas que estejam constantemente a embelezar-se, como adolescentes vaidosas.
E há sempre a preocupação de que, ao privilegiar uma característica, outras venham a ser comprometidas e que as abelhas higiénicas, por exemplo, sejam agressivas ou produzam pouco mel. 
Em última análise, será preciso recorrer à biologia molecular para superar estas incertezas, na opinião do geneticista Martin Beye, da Universidade Heinrich Heine, em Düsseldorf (Alemanha). Para um geneticista, a criação aleatória de duas abelhas com uma determinada característica desejada é como agitar duas mãos cheias de berlindes e retirar uma combinação. É mais eficaz identificar os genes responsáveis pelas características desejadas e introduzi-los. Em 2006, o genoma da abelha melífera foi descodificado por um consórcio composto por mais de cem investigadores. Heinrich fazia parte do grupo. A próxima etapa consiste em identificar os genes que influenciam certos comportamentos e, se necessário, modificá-los. 

A introdução de agulhas nos ovos resultou frequentemente em embriões danificados. As operárias eliminaram-nos rapidamente.

Embora a comunidade científica tivesse produzido insectos transgénicos desde o início da década de 1980, todas as tentativas para inserir genes na Apis mellifera falharam. Heinrich Beye atribuiu à investigadora Christina Vleurinck a tarefa de descobrir um método. Christina teve de extrair ovos de uma colmeia, injectar o material genético e reinserir os ovos na colmeia. Durante algum tempo, os novos genes não pegaram.
A introdução de agulhas nos ovos resultou frequentemente em embriões danificados. As operárias eliminaram-nos rapidamente. Juntamente com Heinrich e mais dois colaboradores, Christina testa agora outra técnica, mas demorará vários anos até que o método possa ser aplicado ao desenvolvimento de uma abelha melhor. E pôr em liberdade abelhas geneticamente modificadas vai causar certamente polémica. “Estamos a pisar novos terrenos”, resume Heinrich Beye. “As pessoas vão querer agir com cuidado.”

Uma abelha alonga a probóscide para beber água açucarada de um aplicador, num laboratório universitário. Para medir os efeitos dos químicos agrícolas, os investigadores compararam o ritmo a que dois grupos de abelhas (um dos quais previamente exposto aos pulverizadores agrícolas) aprendem que pulverizações de ar perfumado são seguidas de recompensas. Muitos compostos, antes julgados seguros para as abelhas, podem afinal afectá-las subtilmente.  Fonte: Mullin Lab, Departamento de Entomologia, Universidade Estadual da Pensilvânia.

Tudo isto faz Phil Chandler revirar os olhos. Phil crê que um número excessivo de cientistas, embora bem-intencionados, torna-se efectivamente parte do problema. “Não podemos ultrapassar as nossas dificuldades se recorrermos ao mesmo tipo de raciocínio que as criou”, diz. 
Ele refere-se à “ilusão persistente” de que os seres humanos são capazes de controlar a natureza. 
É possível construir abelhas melhores, mas só as abelhas conseguirão fazê-lo. O maior inimigo das abelhas melíferas, contrapõe, não são os ácaros nem os vírus, mas a agricultura industrial. Muitos cientistas concordam, compungidos. O desacordo surge quanto à solução para o problema. 

É possível construir abelhas melhores, mas só as abelhas conseguirão fazê-lo.

Há um século, muitas culturas ainda eram polinizadas por abelhas silvestres. A certo ponto, as explorações agrícolas familiares transformaram-se em negócios agro-industriais. As abelhas precisam de procurar alimento durante a maior parte do ano, mas as flores só existem nos campos dedicados a monoculturas por escassas semanas, ao passo que as ervas daninhas que poderiam sustentar as abelhas no período remanescente são eliminadas pelos herbicidas. Há tão poucas abelhas disponíveis agora que os agricultores são obrigados a alugar colmeias a empresas comerciais que as transportam de cultura em cultura em camiões.
Travo conhecimento com Phil Chandler perto da abadia de Buckfast, numa reunião de apicultores. Muita gente à sua volta concorda com o diagnóstico. Ainda assim, mostram-se consternados quando ele afirma que a melhor coisa a fazer em relação ao ácaro é… nada. Deixe-se a evolução seguir o seu caminho. Se assim for, durante dez anos os apicultores poderão perder a maior parte das suas abelhas, mas a selecção natural acabaria por conduzir a alguma espécie de abelha resistente. “Temos de reflectir sobre estes assuntos em termos do que é melhor para as abelhas”, diz. “E não do que é melhor para nós.”

Num rancho isolado da Califórnia, Bret Adee abre uma das suas 72 mil colmeias. A empresa Adee Honey Farms é o maior apicultor comercial dos EUA e transporta as abelhas de camião para o Oeste de forma a polinizar as árvores de fruto. Essa prática é fundamental para a agricultura, mas induz stress nas abelhas. Desde 2011 que Brett colabora com as autoridades para pôr à prova no campo a resistência e a capacidade de produção de mel das suas abelhas resistentes aos ácaros.

Phil não se mostra optimista quanto ao futuro da Apis mellifera. Clare Densley, a apicultora da abadia de Buckfast, também está preocupada, mas tem mais fé. Para animá-los, falo-lhes do projecto RoboBee da Universidade de Harvard, um esforço para inventar minúsculos veículos aéreos não tripulados (drones) como polinizadores. Em princípio, trata-se de tecnologia exequível. 
Os robots autónomos identificam as flores pela cor, pairam sobre elas e inserem sondas flexíveis que recolhem o pólen. Talvez permita retirar a pressão actualmente exercida sobre as abelhas autênticas. 
Phil não parece convencido. Clare também não. “Não me sinto preparada para um mundo de abelhas mecânicas”, resume. “Acho que gosto das que temos.” À semelhança de outras pessoas, Clare aguarda que algo aconteça. 

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