O futuro da paisagem mais emblemática da Escócia apresenta-se turvo. Existe um debate aceso sobre classes, cultura e natureza.

Texto Cathy Newman   Fotografia Jim Richardson

 

Uma charneca como a paisagem que se avista de Sgòrr Tuath, um pico no Noroeste da Escócia, é um terreno aberto, minimalista e melancólico, com vegetação rasteira. As disputas sobre propriedade, conservação e gestão do território crescem nestes locais mantidos pela acção humana. Imagem composta por várias fotografias.

Exactamente às 6 horas da tarde do dia 30 de Julho de 2015, em Kingussie, na Escócia, George Pirie, o representante do empresário holandês Eric Heerema, tomou posse da herdade Balavil Estate, recebendo-a da mão do anterior proprietário, Allan Macpherson-Fletcher. A venda custou aproximadamente 5,5 milhões de euros e os 2.800 hectares da propriedade (incluindo a mansão setecentista de rocha cinzenta, projectada por Robert Adam, as suas charnecas ondulantes, um troço de cinco quilómetros do rio Spey, e Sarah, o fantasma residente) deixaram para sempre de pertencer a uma herança familiar com 225 anos de idade. 

O Parlamento escocês preparava-se para aprovar uma lei de reforma fundiária que ameaçava tornar mais dispendiosa e difícil a propriedade deste tipo de grandes herdades, uma medida desencadeada pelas tensões de classes e pelos debates sobre o futuro das charnecas, a mais emblemática das paisagens da Escócia.

“Era um modo de vida fantástico, mas chegou a altura de vender”, disse Allan Macpherson-Fletcher, beberricando um uísque na marquise de uma antiga casa de caseiro remodelada, situada no canto da herdade, cuja propriedade reservou para si e para a mulher, Marjorie. Allan é um homem caloroso, com sentido de humor. Na ocasião, parecia aliviado.
Aos 65 anos, decidiu reformar-se. Os filhos, “com sensatez”, não mostraram qualquer interesse por este lugar. As despesas de manutenção consumiam-lhe o coração e a carteira. “A maneira mais rápida de perder dinheiro é ser-se dono de uma grande herdade nas Terras Altas”, gracejou. O Parlamento escocês preparava-se para aprovar uma lei de reforma fundiária que ameaçava tornar mais dispendiosa e difícil a propriedade deste tipo de grandes herdades, uma medida desencadeada pelas tensões de classes e pelos debates sobre o futuro das charnecas, a mais emblemática das paisagens da Escócia. 
Já preparada para receber os novos proprietários, todo o recheio fora retirado da casa, ficando apenas o soalho e as paredes apaineladas. Os retratos dos antepassados foram apeados e os armários esvaziados. Para o armazém marcharam as cabeças empalhadas, de olhos de vidro, outrora penduradas nas paredes, a mesa da sala de jantar, as travessas de prata com campânula para pratos de carne e os candelabros, o serviço de prata para 30 pessoas, gravado com as armas e a divisa dos Mac-pherson: “Touch not the cat bot a glove”, que poderia ser traduzido como “Não te metas comigo”.

Dougie Langlands (o segundo a contar da esquerda) supervisiona a caça do veado nos 18 mil hectares de Ardverikie Estate, propriedade pertencente à mesma família há 150 anos. A Escócia tem cerca de quatrocentos mil veados-vermelhos: a estimativa e os méritos da caça ao animal são alvo de discussões acesas. Imagem composta por várias fotografias.

Em vez de uma herdade dedicada à caça e pesca desportiva, uma instituição tipicamente britânica em que os clientes pagam fortunas para deambular pelas charnecas caçando veados e tetrazes ou pescando salmões, Balavil tornar-se-ia uma residência familiar. A mansão, disse a mulher do comprador, Hannah Heerema, seria um lugar “para os filhos passarem tempo”. Entretanto, em Maio de 2016, os proprietários submeteram um requerimento, pendente de apreciação à data da redacção desta reportagem, para transformar os edifícios da herdade num centro para visitantes com um café, instalações para eventos e um parque de estacionamento. Surpreendidas com esta reviravolta comercial e preocupadas com as repercussões negativas sobre as suas aldeias, as comunidades vizinhas opuseram-se. Depois de fechado o negócio, como que a sublinhar o fim de um capítulo, o agente George Pirie fechou a porta da garagem para garantir a segurança das instalações. Algumas andorinhas com ninho no interior ficaram ali retidas como consequência não intencional da venda. 
“Pobres passarinhos”, pensou Allan Macpherson-Fletcher, antigo senhor de Balavil.

Uma charneca (o moor) é uma paisagem de vegetação rasteira, composta por arbustos e ervas curvados pela garra do vento.

Balavil localiza-se nas Terras Altas da Escócia, entre o rio Spey e as montanhas Monadhliath. Dois mil e quatrocentos dos 2.800 hectares da herdade são compostos por charneca, uma paisagem única, varrida agora por ventos de mudança económica, social e política que ajudaram a empurrar a herdade para os braços de um comprador estrangeiro. Com a queda do valor da libra, é provável que se acelere a aquisição das grandes herdades escocesas por capital estrangeiro. Entre 2015 e 2016, os compradores internacionais já tinham adquirido metade das 16 grandes herdades transaccionadas.
Uma charneca (o moor) é uma paisagem de vegetação rasteira, composta por arbustos e ervas curvados pela garra do vento. O termo serve para definir quer os urzais mais secos das Terras Altas da Escócia quer as paisagens mais húmidas, caracterizadas por turfeiras, das regiões mais fracamente drenadas do país. Setenta e cinco por cento das charnecas de urze do planeta localizam-se no Reino Unido, a maioria das quais na Escócia.

A imagem de marca da charneca é a urze, uma planta que floresce em tons de rosa, branco e roxo. Este urzal estende-se até ao rio Dee em Mar Lodge Estate, no Aberdeenshire. Hoje pertencente ao National Trust for Scotland, Mar Lodge está a desenvolver um programa de restauro da floresta.

A charneca é igualmente o cenário lúgubre da literatura gótica e das epopeias hollywoodescas, como “O Monte dos Vendavais”, de Emily Brontë, “O Cão dos Baskerville”, de Arthur Conan Doyle e “Braveheart”, de Mel Gibson. Acima de tudo, é a imagem emblemática dos folhetos turísticos da Escócia. Num inquérito recente, os turistas identificaram uma charneca forrada a urze, um lago (loch) e um veado artisticamente enquadrado como os elementos da paisagem arquetípica do país. A paisagem de uma charneca, que parece ter estado ali desde sempre, mas não esteve, “é silvestre, mas não é selvagem”, como explica o biólogo Adam Smith, administrador do Game and Wildlife Conservation Trust, na Escócia. Para ser mantida, precisa de ser gerida por meio de fogos selectivos e periódicos a fim de impedir que a floresta se aproprie do terreno.
Devido ao seu uso excessivo como pastagem por veados e ovelhas, à invasão por fetos e à reserva de terrenos para plantação de floresta, a Escócia perdeu mais de 25% do seu urzal desde a Segunda Guerra Mundial. Pisar uma charneca significa cair num atoleiro de conflito, ressentimento e justiça. Embora nem todos se mostrem de acordo, alguns cientistas como Adam Smith defendem que as charnecas se contam entre os habitats com maior biodiversidade da Grã-Bretanha, povoados por uma miríade de aves: maçaricos-reais, tarambolas-douradas, abibes e esmerilhões. Proporcionam benefícios económicos e, acima de tudo, o turismo. E também têm vantagens ambientais: as charnecas húmidas, onde existem turfeiras, são sumidouros eficazes de carbono e, nessa medida, atenuam as alterações climáticas. 

Devido ao seu uso excessivo como pastagem por veados e ovelhas, à invasão por fetos e à reserva de terrenos para plantação de floresta, a Escócia perdeu mais de 25% do seu urzal desde a Segunda Guerra Mundial.

Uma percentagem importante das charnecas é gerida especificamente para a caça ao tetraz-vermelho, embora exista uma falange apaixonada de defensores da tese de que esse território poderia ter melhor utilização. David Read, professor jubilado da Universidade de Sheffield, por exemplo, entende que parte do terreno estaria mais bem aproveitado se fosse plantado com espruce para produzir madeira. Se houvesse mais espruce, “a Escócia não teria de depender das importações de madeira”, diz.
Outros indivíduos, como Mike Daniels, director de gestão no grupo conservacionista John Muir Trust, prefeririam que as charnecas pudessem ser reconduzidas ao seu estado natural. 
“O que gostava mais de ver: uma águia-real selvagem ou um bando de finórios a caçar tetrazes?”, pergunta, num tom irado, que causa arrepios.
O problema mais complexo da propriedade acrescenta uma camada suplementar à densidade do debate. Segundo o especialista em reforma fundiária Andy Wightman (que há 20 anos investiga a questão da propriedade da terra, passando a pente fino escrituras, registos e mapas) 432 pessoas são donas de metade da propriedade fundiária privada na Escócia rural. 

A caça ao tetraz é considerada o epítome da caça desportiva de aves selvagens. Os seus defensores louvam a modalidade como património cultural e os benefícios económicos que traz às comunidades. Os seus detractores chamam-lhe cruel e extractiva. Um caçador e o seu “carregador” (à esquerda) esperam que as aves sejam espantadas e apareçam no seu alcance em Urlar Estate, junto de Aberfeldy.

 “Os super-ricos sempre conseguiram comprar e gerir as terras escocesas, sem que ninguém levantasse problemas”, afirma Lesley Riddoch, um activista da reforma fundiária, convicto de que as grandes herdades rurais simbolizam as desigualdades e são uma afronta à democracia escocesa. “Durante muitos séculos, os senhores da terra geriram herdades de caça desportiva, por vezes do tamanho de pequenos países, sem qualquer benefício local, despejando os rendeiros num sítio, tolerando os caseiros noutro.” Lesley gostaria que o território fosse dividido em parcelas de valor comportável e disponibilizado a jovens famílias. 
A grande herdade escocesa para caça é um passatempo de elites. Em 1852, o príncipe Alberto comprou o Castelo de Balmoral nas Terras Altas de Aberdeenshire para oferecê-lo à rainha Vitória. A chancela real transformou as temporadas na Escócia numa moda. No Verão, os membros da família real e os homens abastados partiam para as mansões frias, dedicando-se à caça e a outras diversões. A riqueza proporcionada pela revolução industrial e as recém-inauguradas linhas ferroviárias entre Londres e a Escócia permitiram que se pudesse dar um salto à Escócia para algumas semanas de caçadas. A classe alta apaixonou-se pelo tartan.

A grande herdade escocesa para caça é um passatempo de elites. Em 1852, o príncipe Alberto comprou o Castelo de Balmoral nas Terras Altas de Aberdeenshire para oferecê-lo à rainha Vitória. A chancela real transformou as temporadas na Escócia numa moda.

O efeito de Balmoral ainda subsiste. No início da década de 1990, Mar Lodge, uma grande herdade com 29 mil hectares perto da propriedade da rainha e actualmente pertencente ao National Trust for Scotland, era propriedade do marido bilionário de uma antiga modelo, que acalentara esperanças de se tornar amiga dos seus vizinhos coroados. Tal nunca aconteceu.
No dia 22 de Junho de 2015, entrou em vigor uma lei que determinava, entre outros aspectos, a reintrodução de um imposto sobre grandes herdades de caça e facilitava a compra da terras de grandes herdades pelas comunidades, graças a financiamentos públicos.
“É uma estrutura antiga que precisa de ser mudada”, explicou Michael Russell, deputado e membro da comissão que apreciou a lei. Falou dos indivíduos ricos e indiferentes ao interesse público, como o dono de um fundo de cobertura de risco australiano que propôs a construção de um campo de golfe na ilha de Jura antes de a pressão da comunidade desencadear uma mudança de intenções. “Precisamos de tomar medidas radicais. Já o deveríamos ter feito há muito tempo”, disse.
Encurralados, os donos das grandes herdades agiram como veados ameaçados. “Um roubo de terras à Mugabe”, escreveu Lord Astor no “Spectator”, ridicularizando a lei. “Estalinistas vestidos à escocesa: venda forçada de herdades rurais… Desprezo pelos ricos”, uivou o “Daily Mail”.

Gerindo as charnecas - Metade do território escocês era floresta quando os seres humanos ali se instalaram há dez mil anos. Após séculos de agricultura, pasto e desflorestação, cerca de 40% são agora charnecas: as “húmidas”, com turfeiras que absorvem o carbono, e as “secas”, cobertas de urzais de flores roxas. * Inclui fundos, propriedades familiares e empresas com membros e accionistas. Gráfico Lauren E. James. Fontes: Scottish Natural Heritage; Governo Escocês; Contém dados do Ordenance Survey © direitos de autor e de base da Dados da Coroa Britânica (2017); Andy Wightman, Who Owns Scotland; Departamento de Negócios, Energia e Estratégia Industrial do Reino Unido; Sistema Europeu de Informação Natural.

O vendaval político afectou a venda de Balavil, que definhou no mercado durante dois anos, e o preço inicialmente pedido sofreu um corte de 2,2 milhões de euros. Os compradores mostravam-se apreensivos quanto ao desfecho da reforma fundiária, a independência da Escócia e o espectro do aumento dos impostos, afirmou Robert McCulloch, sócio da mediadora imobiliária Strutt and Parker. A lei foi aprovada em Março de 2016.

Batidas a vento - As charnecas ventosas são essenciais para um plano de energias renováveis que pretende fornecer 50% da energia do país até 2030.; Propriedade privada - A maior parte das charnecas não são paisagens protegidas. Metade do total de terra pertencente a privados está na posse de 432 proprietários (0,008% da população); Floresta e  charneca - Uma proposta para reflorestar um quinto da Escócia (que absorveria gases com efeito de estufa e contribuiria para a indústria madeireira) está a aquecer o debate sobre o futuro destes habitats. Gráfico Lauren E. James.

Nove “armas” (como são conhecidos os membros de um grupo de caçadores) reuniram-se em frente da mansão de Rottal Estates numa manhã límpida de Setembro. A herdade, outrora pertencente ao conde de Airlie, fora vendida em 2005 a Dee Ward, um empresário da região de Hertfordshire, que convidara os amigos para uma batida: o equivalente, em matéria de caça, ao teatro kabuki, um ritual com roupas e costumes especiais. Quem vai à caça ao tetraz, veste-se a rigor. Dee Ward vestia tweed com o padrão da herdade, camisa de xadrez e gravata de lã. Mostra respeito pela ave, explicou. 

Rottal, uma herdade clássica para caçadas, é gerida para a caça ao tetraz, uma actividade polémica frequentemente associada, com ou sem justiça, a palavras como “ricos”, “snobs” e “finórios.”

“Vamos caçar tetrazes-vermelhos”, lembrou aos convidados. “Podem caçar narcejas, mas por favor não disparem contra galos-lira nem contra lebres.”
Rottal, uma herdade clássica para caçadas, é gerida para a caça ao tetraz, uma actividade polémica frequentemente associada, com ou sem justiça, a palavras como “ricos”, “snobs” e “finórios.” Para convidados pagantes, um dia na charneca pode custar 822 euros ou mais por “arma.” 
O cliente pode levar consigo para casa duas aves, e o proprietário vende as restantes ao negociante de caça. Se acrescentarmos o alojamento, refeições, gorjetas, uma J. Purdey & Sons com coronha de nogueira circassiana e decorada com rosas e volutas (de valor igual ou superior a setenta mil euros), facilmente se compreende a razão pela qual este desporto se inclina, em matéria de sustentabilidade, na direcção dos administradores de fundos de cobertura de risco e outros senhores do universo. 
Numa batida, os batedores vão avançando pela charneca em fila para espantarem as aves na direcção dos atiradores. Ao contrário do faisão, que voa a direito e alto, apresentando-se como um alvo gordo e complacente, o tetraz-vermelho (Lagopus lagopus) voa depressa e baixo, mais parecendo um dardo com penas a descrever uma trajectória errática. De seguida, os cães abocanham as aves e trazem-nas aos caçadores. 

Em Ralia Estate, nos arredores de Kingussie, os guardas de caça Alastair Lyon (à esquerda) e Richard Williams fazem queimadas selectivas em zonas de urze velha, uma tarefa conhecida como muirburn, que decorre entre Outubro e Abril. A prática encoraja o crescimento de novas plantas, fonte de alimento para o tetraz-vermelho.

A discussão acerca das batidas na charneca assemelha-se mais a um combate de boxe sem luvas do que a um debate. “Prática feita por poucos em prejuízo de muitos”, escreve Mark Avery, cuja petição para proibir esta caça no Reino Unido alcançou 123 mil assinaturas no ano passado. “A maximização do número de tetrazes significa tratar as charnecas como se fossem aviários gigantes”, defendeu o colunista George Monbiot no “The Guardian”. 
O outro lado da barricada defende, com igual veemência, a sua própria noção de biodiversidade e dos benefícios económicos. “Gerimos uma herdade de caça ao tetraz com fortes raízes de conservação. As charnecas forradas a urze são um dos habitats mais raros do mundo”, afirma Robbie Douglas Miller, dono de Hopes, uma grande herdade na região meridional da Escócia. “Proteger e melhorar exige tempo e dinheiro. A gestão das charnecas para a caça ao tetraz é a única utilização das Terras Altas que cumpre essas premissas.”

O salão de baile dos veados, decorado com 2.435 hastes, foi construído em finais da década de 1890 pelo duque de Fife para as suas reuniões sociais. Actualmente é utilizado para casamentos e, até há pouco tempo, para o baile anual dos ghillies, organizado para os guardas de caça e os seus colaboradores no final da época de caça ao veado.

O argumento económico apoia-se num inquérito patrocinado pelo Game and Wildlife Conservation Trust, segundo o qual a caça ao tetraz sustenta 1.072 postos de trabalho, proporciona 16 milhões de euros em salários e acrescenta 26 milhões de euros ao produto interno bruto da Escócia.
Defensor da devolução ao estado selvagem, Mike Daniels contrapõe que estes números só são relevantes para aqueles que olham para a natureza como um bem transaccionável. “A verdade é que quando um indivíduo entende que a caça é uma actividade imoral, não há argumento que o faça mudar de opinião”, afirma Tim Baynes, administrador do Grupo Scottish Land and Estates Moorland, que representa os proprietários. Referindo-se à polémica da caça ao tetraz, Adam Smith, do Game and Wildlife Conservation Trust, contrapõe: “As charnecas são paisagens culturais onde o conflito e a conservação coexistem lado a lado.”

Roy Dennis, ornitólogo e consultor de vida selvagem, abomina as charnecas geridas para a caça ao tetraz.

Assim sendo, analisemos o problema em termos de gestão. Roy Dennis, ornitólogo e consultor de vida selvagem, abomina as charnecas geridas para a caça ao tetraz. “São tão artificiais como os olivais em Itália”, afirma. “A maior parte das zonas onde hoje existem charnecas eram antigas florestas.”
Roy é consultor de Coignafearn, uma grande herdade com 16 mil hectares nas montanhas Monadhliath. Foi contratado para recuperar o território e devolvê-lo ao estado natural. Levou-me numa volta de carro para vermos a requalificação em progresso: sebes que impediam os veados de devorarem as árvores e os arbustos, o ressurgimento das bétulas, do pinheiro escocês, da cerejeira silvestre, do salgueiro e da tramazeira com as suas bagas escarlates. Uma águia-real pairava no céu, voando em círculos. “O problema não é a caça aos tetrazes”, disse Roy. A intensificação da terra usada para criação de tetrazes em número elevado é que não é sustentável.”
Há outras herdades com intenção de requalificar o habitat selvagem, como Glenfeshie (do multimilionário dinamarquês Anders Povlsen), Mar Lodge (National Trust for Scotland) e Abernethy Forest (RSPB Scotland). A propriedade de terras aqui “não é apenas uma questão de privilégio. Também é uma questão de responsabilidade”, resumiu o meu interlocutor. 

Colin Murdoch, que gere as populações de veados em Reraig Forest, junto do Loch Carron, alimenta os animais para estimular o crescimento das suas hastes. Além da caça ao veado, a herdade organiza passeios com guias de fauna e flora. Várias herdades dispõem actualmente de unidades de alojamento turístico e outras atracções para aumentar os rendimentos.

Ronnie Kippen, chefe dos guardas de caça na grande herdade de Garrows Estate, discorda. “Acho que devolver a terra ao estado selvagem é negligência. Eles [os defensores dessa proposta] dão emprego a alguém?”, perguntou. Na sua opinião, a gestão do tetraz implica conservação e empregos relacionados com a caça e com o turismo. “A gestão das charnecas sustenta famílias”, insistiu Ronnie. Ele conduziu-me num passeio de automóvel pela herdade e apontou-me um invulgar galo-lira, um peneireiro e uma petinha-dos -prados, uma pequena ave canora. “Quem diz que não há diversidade numa charneca?”, quis saber.

Jamie pertence a uma nova espécie de proprietários que reconhecem o passado, mas obtêm lucro com o presente.

Passo agora a apresentar Jamie Williamson, um homem de sobrancelhas desalinhadas e uma mente que crepita como um gerador eléctrico, saltando com agilidade de ideia em ideia. É responsável pela gestão da Alvie & Dalraddy Estates, uma herdade conjunta com um total de 5.400 hectares, mas usa o título de Sir com descontracção. Conduz uma carrinha de caixa aberta, usa um relógio digital de plástico e gere a herdade a partir de uma secretária soterrada por uma avalancha de papel. Jamie pertence a uma nova espécie de proprietários que reconhecem o passado, mas obtêm lucro com o presente.
Se formos passear a pé pela charneca na companhia de Graeme Macdonald, o guarda de caça de Alvie, aprendemos algo sobre tradição cultural. Homem de barba densa da cor do Inverno, Graeme conhece cada sulco, riacho e elevação do terreno. Sabe onde estão os veados e como tratar cada cliente, se por “Dave”, se por “Sir”. Quando algum cliente falha um tiro, consola-o com um tacto refinado: “Era uma ave difícil, Sir.”
Entramos na biblioteca da mansão. Reparamos no volume com encadernação de couro com as palavras “Alvie Game Book” estampadas a dourado. Folheamos um diário da vida e da morte com as contagens de veados, narcejas e tetrazes com comentários escritos a caneta. “22 de Agosto de 1908 – 107 tetrazes abatidos com armas JB Barrington e JFM Lawrence… Bom tempo.”

Actualmente, porém, a caça ao tetraz representa apenas 4% das receitas da herdade.

Actualmente, porém, a caça ao tetraz representa apenas 4% das receitas da herdade. “Os finórios ainda vêm, mas agora cultivamos turistas”, dizem-me. O dinheiro a sério provém do arrendamento de cabanas de férias e espaços para campismo com ligações de TV e Internet. A silvicultura, uma pedreira de granito e um viveiro de aquicultura geram receitas adicionais. “Ser dono de uma grande herdade não faz de mim um vilão”, disse Jamie Williamson.
Para Allan Macpherson-Fletcher, antigo senhor de Balavil, tudo isto são insignificâncias. Agora que a herdade foi vendida não haverá mais reuniões desconfortáveis com o gestor bancário. “Num ano bom, a herdade atingia o limiar de rendibilidade, mas, num ano mau, perdíamos dinheiro, por isso tínhamos de pedir dinheiro emprestado.” Actualmente, ler-se-ia nas armas da família Macpherson a seguinte divisa: “Já não é um problema meu.” 

Os proprietários que arrendam as suas terras para instalação de turbinas, como estas do Parque Eólico de Braes of Doune, junto de Stirling, são bem remunerados. O conservacionista Mike Daniels defende que os parques eólicos são o equivalente visual da poluição industrial. “Ninguém instalaria uma fábrica de automóveis em cima de uma colina”, afirma. Imagem composta por quatro fotografias. 

“Quando deixei Balavil, dei uma última vista de olhos, à espera que me surgisse uma lágrima no olho”, conta. “E não, não havia nada, porque era só uma casa velha e gasta. Todo o ambiente, toda a história, tinham ido embora connosco. Tijolos e argamassa foram as únicas coisas que ficaram para trás.”
Em matéria de propriedade, os antigos valorizavam a responsabilidade. Na teoria proposta por Aristóteles, a maneira como o dono da terra a usava era um indicador da sua virtude. “Tornámo-nos gananciosos”, contrapõe Alison Hester, professora universitária e cientista especializada em biodiversidade do Instituto James Hutton, um grupo sediado na Escócia cuja investigação se centra na utilização sustentável da terra e dos recursos naturais. Entretanto, o ano fora avançando. As sombras alongaram-se. Em breve, as colinas suaves ficaram avermelhadas. O horizonte apresentar-se-ia manchado pelo fumo quando os guardas de caça das grandes herdades queimassem o urzal antigo para permitir o crescimento do novo, fonte de alimento para os tetrazes.

Em matéria de propriedade, os antigos valorizavam a responsabilidade.

Alison estudou a urze e fez levantamentos da planta no âmbito da sua dissertação. Contou o número de rebentos por hectare e depois o número de flores, seguido do número de sementes – cada uma do tamanho de um pontinho desenhado a lápis – por flor. “A urze é lindíssima”, afirmou, num tom contemplativo. “Vibra com o zumbir das abelhas. Cheira a ar limpo e o vento leva os nossos problemas para longe. Quando éramos miúdos, corríamos para a charneca, enchíamos a boca de amoras-silvestres e ouvíamos os maçaricos.” É diferente do bosque, prosseguiu. “No bosque, sentimo-nos abrigados pelas árvores e pelo aroma, doce como o mel, da bétula na Primavera.” Discutir qual dos dois é melhor, eis uma tarefa impossível.
“Acho que é importante reconhecer assumidamente que uma das razões do nosso amor pela charneca é o facto de ela ser uma paisagem cultural e não é preciso mascará-la de outra coisa qualquer. Protegemos outras coisas pela sua importância cultural e não devemos menorizar essa característica da charneca.”

A beleza serena dos antigos pinheiros escoceses é potenciada pelas águas de Loch Maree, nas Terras Altas do Noroeste. O isolamento exclui os veados, que se alimentam de árvores jovens. Para travar o acesso aos veados, as herdades erguem vedações, mas estas são caras, desagradáveis à vista e perigosas para as aves que voam a baixa altitude. Imagem composta por sete fotografias.

“Talvez seja necessário recuarmos um pouco para vermos a imagem completa.” Talvez em vez de maximizar a população de tetrazes, sacrifiquemos parte da charneca ao ambiente. “O que queremos de facto preservar? Seja qual for a decisão, ganha-se e perde-se sempre.”
Para servir a civilização, os bosques dão lugar aos olivais, as pradarias às searas de trigo, as charnecas substituem as florestas. A forma como o território é usado depende das necessidades, da economia e dos seus proprietários, mas também da política, do poder e, como poderia dizer Aristóteles, da virtude. 

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