Os últimos recolectores vivem no Nepal

Um homem da cultura kulung, do Nepal, recolhe clandestinamente mel guardado por espíritos caprichosos e pelas maiores abelhas melíferas do planeta. 

Texto Mark Synnott   Fotografia Renan Ozturk

 

Mauli Dhan trepa 30 metros por uma escada de corda de bambu até alcançar o prémio: uma colmeia carregada de mel neurotóxico. O fumo proveniente de um molho de ervas ardentes desorienta as abelhas, reduzindo possivelmente o número de ferroadas que Mauli irá sofrer. Antes de agarrar a corda de apoio a seu lado, qualquer passo em falso poderá ser fatal. 

Suspenso 90 metros acima do solo, Mauli Dhan baloiça numa escada feita de bambu. Inspecciona a vertente granítica que terá de escalar para atingir o seu alvo: uma massa pulsante de milhares de abelhas gigantes dos Himalaia. Elas cobrem por completo uma colmeia que se prolonga por dois metros, pendurada numa protuberância do granito. 

As abelhas guardam muitos litros de uma substância conhecida como mel louco, devido às suas propriedades alucinogénias.

As abelhas guardam muitos litros de uma substância conhecida como mel louco: devido às suas propriedades alucinogénias, vende-se nos mercados negros da Ásia por 26 a 35 euros por quilograma.
É o sêxtuplo do preço do mel nepalês normal. 
As abelhas melíferas dos Himalaia fabricam diferentes tipos de mel, consoante a estação do ano e a altitude das flores que produzem o néctar de que se alimentam. Os efeitos psicotrópicos do mel de Primavera resultam de toxinas presentes nas flores dos enormes rododendros que despontam nas encostas viradas a norte do vale de Hongu. Há séculos que os kulung, que habitam a região oriental do Nepal, consomem este mel como xarope para a tosse e anti-séptico e a cera de abelha é canalizada para fábricas nas vielas de Katmandu, onde é utilizada para moldar estátuas de deuses e deusas em bronze. 

Asdhan Kulung (à direita) amarrou uma colmeia com cordas e segura-a firmemente, enquanto Mauli a serra, separando-a da rocha. Depois de cortados, os pedaços da colmeia serão descidos até ao solo por cordas. Este processo pode prolongar-se por várias horas. 

Para Mauli, a colheita de mel é a única maneira de ganhar o dinheiro de que precisa para comprar os poucos produtos de primeira necessidade que não consegue produzir sozinho. No entanto, apesar da importância que o dinheiro tem para si e para os outros habitantes da sua aldeia, Mauli acha que chegou a altura de parar. Aos 57 anos, sente-se demasiado velho para continuar a fazer esta perigosa colheita sazonal de mel. As abelhas zumbem em redor, picando-o na cara, no pescoço, nas mãos e nos pés, bem como através da roupa. 
No entanto, põe de lado esses pensamentos e concentra-se na tarefa que tem em mãos. Baloiça a perna sobre a fachada rochosa e poisa o pé sobre o pequeno parapeito. Largando a escada de corda, ajeita a posição, pondo-se de lado para abrir espaço para o seu ajudante, Asdhan Kulung, que se junta a ele. Os dois homens partilham agora o exíguo parapeito. Mauli consegue avistar o rio, muito lá em baixo. 

Se as correntes atmosféricas colaborarem, o fumo poderá envolver as abelhas e confundi-las ligeiramente enquanto ele se aproxima.

Vai-se movendo com lentidão, mas confiante, até três metros apenas o separarem do seu alvo. No último troço da rocha solta e húmida, os apoios para pés e mãos não são maiores do que a ponta dos dedos das mãos de Mauli e, uma vez que não se encontra preso a qualquer corda de segurança, perder o apoio significaria morte certa. Para dificultar ainda mais as coisas, traz uma vara de bambu com quase oito metros de comprimento enganchada sobre um dos ombros e um molho de erva a fumegar entalado entre o polegar e o indicador da mão direita. Um rasto fino de fumo eleva-se da sua mão até às agitadas abelhas. Se as correntes atmosféricas colaborarem, o fumo poderá envolver as abelhas e confundi-las ligeiramente enquanto ele se aproxima. 
A colmeia pulsa como uma coluna sonora de graves: cada batida solta vagas de abelhas zangadas na atmosfera. Elas continuam a enxamear Mauli, mas ele não recua. Em vez disso, murmura um mantra kulung que se destina a apaziguar as abelhas e os espíritos que habitam esta falésia: “Vós sois Rangkemi. Vós sois o espírito das abelhas. Nós não somos ladrões. Nós não somos bandidos. Nós estamos com os nossos antepassados. Por favor, voai. Por favor, ide-vos embora.”
Rangkemi, o espírito guardião das abelhas e dos lugares difíceis e perigosos sempre velou por Mauli. Com esta convicção na alma, Mauli não mostra medo enquanto empreende a fase mais difícil da escalada. 

Descubra uma nova visão do mundo!

Assine a National Geographic.