Na primeira parte desta reportagem, descubra como os cientistas que trabalham sobre a superfície gelada da Antárctida estão a acompanhar o degelo do continente, que poderá provocar uma subida dramática do nível dos mares. Na segunda parte, visite o exótico e raramente visto mundo marinho existente sob o gelo.

Texto Douglas Fox   Fotografia Camille Seaman

O pôr do Sol tinge de vermelho o canal de Lemaire, ao largo da costa ocidental da península Antárctica. O gelo costeiro do continente está a desfazer-se devido ao aquecimento do mar e da atmosfera em seu redor.

Vista de cima, a plataforma de gelo da ilha Pine parece um desastre ferroviário em câmara lenta: a sua superfície enrugada está sulcada por milhares de fendas e as margens são rasgadas por fendas com quase 500 metros de largura. Em 2015 e 2016, um pedaço de gelo com 580 quilómetros quadrados soltou-se da plataforma e afastou--se, flutuando à deriva pelo mar de Amundsen. Neste mar, a água aqueceu mais de 0,5ºC nas últimas décadas e a velocidade de fusão e libertação do gelo quadruplicou. 

A plataforma de gelo é a frente flutuante do glaciar da ilha Pine, um dos glaciares de grandes dimensões que terminam no mar de Amundsen.

A plataforma de gelo é a frente flutuante do glaciar da ilha Pine, um dos glaciares de grandes dimensões que terminam no mar de Amundsen. Juntos, drenam uma cúpula de gelo de dimensões muito maiores, a calota de gelo da Antárctida Ocidental. Tem mais de três quilómetros de espessura e cobre uma área com o dobro da superfície de França. A calota de gelo envolve muitas ilhas, mas a maior parte assenta sobre o leito de uma bacia que mergulha mais de 1.500 metros abaixo do nível do mar. Isso torna-a mais vulnerável ao aquecimento do oceano. Se todo esse gelo vulnerável se desancorar, quebrando-se em pedaços e partindo à deriva, o nível do mar poderá subir 3,3 metros, submergindo orlas costeiras em todo o mundo.
A calota de gelo é retida pelas plataformas e essas represas flutuantes, pressionadas contra montanhas e cordilheiras nas margens da bacia, começam a falhar. 
Em todo o mar de Amundsen, na costa da Antárctida Ocidental virada para o oceano Pacífico, as plataformas de gelo estão a enfraquecer e os glaciares que se encontram atrás delas estão a recuar. A plataforma de gelo da ilha Pine, com cerca de quatrocentos metros de espessura na maior parte da sua extensão, representa um caso dramático: perdeu uma média anual de 45 metros de espessura entre 1994 e 2012. 

Âncora enfraquecida 
No slideshow: Rife 1 - A plataforma de gelo flutuante da ilha Pine, que sustenta um enorme glaciar, está a ceder. A água quente do mar está a enfraquecê-la por baixo. Imagens recolhidas por satélite captaram o crescimento de uma fenda – o Rifte 1, a 17 quilómetros do mar. A fenda cortou a plataforma, libertando mais de 580 quilómetros quadrados de gelo.

“São os glaciares que estão a recuar mais depressa na Terra”, afirma Eric Rignot, especialista do Laboratório de Propulsão a Jacto da NASA. Eric acredita que o colapso da calota de gelo da Antárctida Ocidental acontecerá mais cedo ou mais tarde: a questão é se demorará cinco séculos ou menos de um… e se a humanidade terá tempo para se preparar. “Temos de fazer bem as contas”, afirma. “Mas precisamos igualmente de ter cuidado para não desperdiçarmos demasiado tempo a fazê-las.” 

Em todo o mar de Amundsen, na costa da Antárctida Ocidental virada para o oceano Pacífico, as plataformas de gelo estão a enfraquecer e os glaciares que se encontram atrás delas estão a recuar.

Em Dezembro de 2012, um avião sobrevoou a plataforma de gelo da ilha Pine a baixa altitude. Quando o avião aterrou, só desembarcou uma pessoa e sondou a neve com uma vara de 2,5 metros. Por fim, o batedor fixou satisfeito: não havia fissuras ocultas. Os outros cientistas desembarcaram. A equipa, liderada pelo especialista Martin Truffer, começou a montar o acampamento. A equipa de Martin Truffer queria abrir buracos ao longo da plataforma de gelo, de modo a poder medir o calor que a devora, subindo a partir da água do mar.
De noite, deitados nas suas tendas num ponto de uma costa com 6.500 quilómetros sem um único posto avançado permanente, ouviram estalidos e baques sonoros provenientes do gelo. Todas as manhãs viam novas fissuras, com três centímetros de largura e aparentemente sem fundo, rasgando a superfície do gelo. Ao longo do seu estudo de cinco semanas, a espessura do gelo sob os seus pés estreitou mais dois metros.
A comunidade científica demorou muito tempo a tomar consciência da enorme velocidade a que o gelo da Antárctida Ocidental poderia derreter. Em parte, isso deve-se ao facto de os glaciares mais vulneráveis estarem muito bem defendidos. Em frente da plataforma de gelo da ilha Pine (a extremidade flutuante do glaciar), a própria superfície do mar congela todos os invernos. No Verão, este mar fracturado junta-se a icebergues soltos das plataformas de gelo para formar uma paliçada móvel que, historicamente, mantém os navios afastados da plataforma de gelo.

O sector ocidental da Antárctida está a aquecer várias vezes mais depressa do que o resto do planeta. Noventa por cento dos seus 674 glaciares encontram-se actualmente em recuo e estão a soltar mais icebergues no mar, como este na baía Andvord.

Em Março de 1994, o quebra-gelos norte-americano Nathaniel B. Palmer tornou-se, possivelmente, o segundo navio a alcançá-la. Durante alguns dias, ventos fortes afastaram os blocos de gelo, criando uma passagem estreita e efémera por onde o Palmer avançou. Sem mapas exactos para se orientar, a equipa reunida na ponte de comando do navio olhava nervosamente para o monitor do sonar, observando um leito marinho caótico, com desfiladeiros e cordilheiras afiadas, incluindo uma a seis metros da quilha do navio.
O Palmer passou apenas 12 horas diante da plataforma de gelo antes de o cerco de gelo marinho o obrigar a retirar-se para norte. No entanto, foi tempo suficiente para a equipa introduzir instrumentos científicos na coluna de água e protagonizar uma descoberta inquietante. Junto da superfície, sob a plataforma de gelo, corria uma corrente ligeiramente menos salgada do que o mar em redor, pois a água tornara-se mais doce pelo gelo derretido. O gelo é doce porque teve origem em neve caída na Antárctida Ocidental. A profundidades entre 600 e 900 metros, junto de um desfiladeiro submarino que se estendia sob o gelo, a água mais quente estava a infiltrar-se. 

Sem mapas exactos para se orientar, a equipa reunida na ponte de comando do navio olhava nervosamente para o monitor do sonar, observando um leito marinho caótico, com desfiladeiros e cordilheiras afiadas, incluindo uma a seis metros da quilha do navio.

O oceanógrafo Stan Jacobs, do Laboratório da Terra Lamont-Doherty, em Nova Iorque, rapidamente se apercebeu do que se passava. A água quente vinha do Pacífico Sul, a mais de trezentos quilómetros para norte. Possuía um teor de sal tão elevado que corria junto do leito de um desfiladeiro submarino que descia em direcção ao glaciar. Fora o próprio glaciar a esculpir o desfiladeiro milhares de anos antes, na última glaciação do planeta.
Agora, esse mesmo desfiladeiro canalizava água quente para baixo da plataforma de gelo da ilha Pine. Algures, a dezenas de quilómetros para o interior, a água quente alcançava a “linha de ligação”: o ponto onde o glaciar se ergue a partir do leito marinho e se transforma numa plataforma de gelo flutuante. Ao embater contra essa parede de gelo, a água quente desgastava-a, produzindo um fluxo constante de água do mar com elevada quantidade de gelo derretido. Mais fria e mais doce, era igualmente menos densa e, por conseguinte, corria sobre a água mais quente que afluía ao glaciar, regressando ao mar imediatamente sob a plataforma.
Através da medição do volume desta água doce, os investigadores conseguiram estimar a quantidade de gelo que se perdera. Os ritmos de degelo “eram uma loucura”, diz Adrian Jenkins, do Levantamento Britânico para a Antárctida. Segundo os seus cálculos, a plataforma estava a perder 53 quilómetros cúbicos de gelo por ano: junto da linha de ligação, a perda de espessura do gelo elevar-se-ia provavelmente a 90 metros por ano. “Não fazíamos ideia de que um glaciar pudesse derreter tão depressa”, resume Adrian.

Superfície erodida - Uma imagem recolhida pelo Landsat 8 mostra a plataforma de gelo da ilha Pine antes da libertação dos primeiros icebergues junto do Rifte 1 (linha vermelha). A próxima fenda já começou a crescer. As fendas formam-se em zonas onde correntes oceânicas quentes diminuíram a espessura do gelo, levando a superfície a descair (linhas escuras) e o gelo a quebrar-se. A descoberta de que as plataformas de gelo podem quebrar-se em locais tão a montante aumenta a probabilidade de “assistirmos a um colapso significativo da Antárctida Ocidental no nosso tempo de vida”, diz o cientista Ian Howat.

Nos 13 anos seguintes, ele e Stan Jacobs tentaram regressar à ilha Pine três vezes. Havia sempre gelo marinho a bloquear o seu caminho. Quando finalmente conseguiram regressar em Janeiro de 2009, a bordo do Palmer, descobriram que o ritmo do degelo aumentara cerca de 50%. Dessa vez, vinham equipados com uma nova ferramenta: um submarino robótico amarelo, o Autosub3. Com o formato de um torpedo e o comprimento de um camião de transporte de mercadorias, conseguia navegar autonomamente sob a plataforma de gelo, sem manter contacto com o navio, até 30 horas consecutivas.

Nos três primeiros mergulhos, o Autosub3 descobriu que a plataforma de gelo perdera espessura suficiente para se descolar de uma cordilheira submarina que, estendendo-se ao longo da sua largura, em tempos serviu de suporte à plataforma de gelo e a manteve estável.

Nos três primeiros mergulhos, o Autosub3 descobriu que a plataforma de gelo perdera espessura suficiente para se descolar de uma cordilheira submarina que, estendendo-se ao longo da sua largura, em tempos serviu de suporte à plataforma de gelo e a manteve estável. Isso abrira uma fenda que permitira a entrada de água quente, derretendo a parte inferior do gelo ainda mais depressa. No quarto mergulho, o robot amarelo quase morreu. Quando a equipa o içou da água, descobriu que o seu nariz cónico se partira, danificando alguns equipamentos internos delicados.
Os técnicos reconstituíram o sucedido a partir dos dados de navegação do submarino. Cinquenta quilómetros antes, sob a plataforma de gelo, o Autosub3 desviara-se para o interior de um abismo no sector inferior do gelo. Em busca de um caminho de fuga, embatera e raspara nas paredes do abismo, acabando por subir 150 metros pelas entranhas labirínticas da plataforma de gelo. Por fim, conseguiu descer e recuar, refugiando-se em mar aberto.

Rifte 2 - A fenda a montante (imagem recolhida pelo Landsat) ainda estava a crescer quando esta fotografia foi captada por um avião da NASA em Novembro de 2016. O Rifte 2 tem cerca de cem metros de largura e os seus penhascos de gelo recentemente fracturados erguem-se 25 metros acima do nível do mar.

Os dados recolhidos pelo sonar do submarino revelaram pormenores sobre a maravilhosa paisagem através da qual este navegara. O fundo da plataforma de gelo apresentava-se sulcado não por um, mas por vários canais, que avançavam até 185 metros pelo seu interior. As paredes destes desfiladeiros de gelo invertidos estavam esculpidas em socalcos, parapeitos e esquinas afiadas. Junto da aresta superior de cada uma corria uma fissura que penetrava ainda mais no gelo. Adrian Jenkins não queria acreditar quando viu pela primeira vez os mapas elaborados pelo sonar.
Stan Jacobs apercebeu-se de que desfiladeiros invertidos tinham sido esculpidos pela água corrente, à semelhança do que sucede em terra com os desfiladeiros rochosos. Aparentemente, a água do degelo que subia da linha de ligação ainda era suficientemente quente para derreter mais gelo. E à medida que fluía ao longo de dezenas de quilómetros junto do sector inferior da plataforma de gelo, regressando ao mar aberto, derretia grande parte da própria plataforma.

As temperaturas médias anuais na vertente ocidental aumentaram quase 2,5ºC desde 1950 e os invernos tornaram-se 5ºC mais quentes.

Enormes extensões da Antárctida Ocidental estão a perder gelo actualmente. O aquecimento tem sido mais dramático na península Antárctica, fustigada por ar e água quentes provenientes das regiões setentrionais. As temperaturas médias anuais na vertente ocidental aumentaram quase 2,5ºC desde 1950 e os invernos tornaram-se 5ºC mais quentes. A formação de gelo marinho está agora limitada a quatro meses por ano em vez de sete.
Do lado oriental da península, quatro plataformas de gelo desintegraram-se em icebergues desde 1988. Uma fenda de grandes dimensões e em rápido crescimento existente noutra plataforma, chamada Larsen C, ameaçava fazer o mesmo à data em que esta revista começou a ser impressa. O aquecimento da atmosfera contribuiu para desencadear estes colapsos, formando lagos de água de degelo na superfície das plataformas de gelo. Os lagos foram absorvidos através de fendas, aprofundando-as no gelo. À medida que as plataformas desapareciam, os glaciares por elas estabilizados correram para o oceano, a velocidades duas, cinco ou até nove vezes superiores à original. São glaciares relativamente pequenos e não provocarão uma grande subida dos níveis dos mares, mas a sua aceleração reforçou preocupações relativas a outros glaciares maiores existentes no mar de Amundsen.

As curvas graciosas de um icebergue testemunham o degelo rápido que sofreu desde a sua libertação por um glaciar no canal de Lemaire. Do lado ocidental da Antárctida, os invernos tornaram-se 5º mais quentes desde 1950.

O mar de Amundsen situa-se mais a sul do que a península, e a atmosfera não é tão quente lá. 
A maior ameaça aos seus glaciares é o mecanismo que Stan e Adrian ajudaram a descobrir: desfiladeiros submarinos profundos que canalizam a água quente vinda do Norte para baixo das plataformas de gelo e desfiladeiros invertidos que concentram o calor no sector inferior do gelo.
Um levantamento de várias plataformas de gelo da Antárctida realizado por satélite no ano passado e liderado por Ted Scambos, do Centro Norte-Americano de Dados sobre Neve e Gelo, e Helen Fricker, do Instituto Oceanográfico Scripps, revelou que estes desfiladeiros criados pelo degelo são comuns. Tendem a disseminar-se em leque e a conduzir água quente em direcção às margens das plataformas. O gelo ali existente é fundamental: roça contra as margens e abranda o fluxo da plataforma e do glaciar por detrás dela. Mas esse gelo de fronteira é mais fino do que o restante. Isto “é algo a que temos de prestar atenção”, resumiu Ted Scambos no início de 2016.

Enormes extensões da Antárctida Ocidental estão a perder gelo actualmente.

Ian Howat é outro especialista que observa atentamente a ilha Pine. Em Novembro passado, anunciou a presença de duas novas e alarmantes fendas estendendo-se ao longo da plataforma de gelo que ameaçam reduzi-la ao seu comprimento mais curto historicamente registado. Ian apercebeu-se de que as fendas tinham sido desencadeadas por um único evento que acontecera três anos antes, sem ninguém reparar nele. A faixa de gelo fracturada que ancorava a plataforma de gelo à sua margem setentrional desmoronara-se subitamente, indiciando ter sido minada a partir de baixo. Soltou-se “em meia dúzia de dias como se um fecho de correr tivesse aberto o flanco do glaciar”, diz Ian.
Não se sabe ao certo quando a plataforma de gelo poderá desintegrar-se na totalidade. A água “quente” vinda do mar alto e que corre sob ela tem uma temperatura 2 a 3ºC superior ao ponto de congelação. No entanto, são quase 13 mil quilómetros cúbicos desta água que ali chegam todos os anos, o que significa que a plataforma de gelo recebe uma quantidade de calor que excede as emissões calóricas de cem centrais de energia nuclear em funcionamento pleno.

Quando Martin Truffer e a sua equipa acamparam na plataforma em Dezembro de 2012, conseguiram aperceber-se do seu enfraquecimento.
À medida que a água do degelo penetra mais fundo na parte inferior do gelo, o gelo perde suporte e descai, levando toda a plataforma a dobrar-se e torcer-se. Ao longo das linhas de fractura, tanto no sector superior como inferior do gelo, as fendas abrem. Os estalidos e baques sonoros ouvidos pelos investigadores e a abertura diária de novas fendas testemunham o declínio progressivo do gelo, à medida que este perdia espessura e se quebrava sob os seus pés.

A superfície do mar congela anualmente. A extensão de gelo estabeleceu um máximo histórico em 2014 e um mínimo histórico este ano.

Com o enfraquecimento da plataforma de gelo da ilha Pine e a aceleração do glaciar atrás dela, o gelo foi perdendo espessura numa extensão de quase 250 quilómetros para o interior. Os efeitos desestabilizadores constatam-se todos os anos na Antárctida Ocidental. “Um pequeno empurrão pode causar décadas de comportamento de recuo difícil de reverter”, afirma Martin Truffer. 
Com efeito, segundo as investigações de Eric Rignot e seus colegas nos últimos anos, o colapso de vários grandes glaciares que fluem para o mar de Amundsen é agora imparável. Entre 2002 e 2009, a plataforma de gelo diante do glaciar Smith perdeu 450 metros de espessura em alguns locais. As linhas de ligação dos glaciares de Amundsen recuaram tanto que assentam actualmente numa zona do leito marinho que se inclina em direcção ao centro da calota de gelo. Cada aumento do recuo expõe mais gelo à água quente do oceano. É um processo rápido e descontrolado e os cientistas estão a tentar descobrir, com urgência, quão rápido será.

O AQUECIMENTO ACELERA OS GLACIARES - As plataformas de gelo flutuantes servem de âncora aos glaciares costeiros e ao gelo continental. Quando se quebram, o gelo corre mais depressa para o mar. Da esquerda para a direita:  Estável  - A força exercida pelo oceano e a fricção com o leito rochoso mantêm a estabilidade do glaciar.; Quebrando-se - A plataforma quebra-se por acção do ar quente e da água do mar. O glaciar pode ser lubrificado pelo degelo na base; Perda acelerada - À medida que o glaciar perde massa, a encosta torna-se mais inclinada, acelerando o seu fluxo para o oceano.

As plataformas de gelo “são como o canário na mina de carvão”, resume Helen Fricker. Como já estão a flutuar, não provocarão uma subida do nível do mar quando derreterem, mas assinalam uma subida iminente, à medida que os glaciares existentes atrás delas acelerarem. Helen e a sua equipa descobriram que, entre 1994 e 2012, a quantidade de gelo desaparecida de todas as plataformas de gelo da Antárctida aumentou 12 vezes: de 25 quilómetros cúbicos para 310 quilómetros cúbicos por ano. “Acho que chegou a altura de nós, cientistas, pararmos de ser tão cautelosos” na divulgação dos riscos, diz.

EROSÃO DE BAIXO PARA CIMA - Correntes quentes que fluem sob as plataformas de gelo estão a devorar os glaciares de Amundsen e Totten, a oriente. À medida que os glaciares recuam em bacias inclinadas, a situação poderá tornar-se irreversível. À esquerda: Glaciares ancorados - Os glaciares assentam em bacias marinhas, fixadas a uma cordilheira submarina na linha de fissura; à direita: Glaciares em recuo - Correntes quentes fazem recuar a linha de ligação, soltando gelo e acelerando o fluxo e velocidade do recuo. 

O recuo e degelo destes glaciares “acelerarão ao longo do tempo”, concorda Eric Rignot. “Talvez não nos preocupemos com isso nos próximos 30 a 40 anos, mas entre 2050 e 2100 as coisas podem ficar mesmo más e, nessa altura, já será irrelevante ouvir os cientistas.” Ou talvez não: quando as coisas ficarem mesmo más, ainda podem piorar.
A maior parte do calor retido pelas emissões de combustíveis fósseis desde o início da revolução industrial encontra-se no oceano. A maior parte do calor que atinge actualmente as plataformas de gelo da Antárctida, contudo, provém de outro efeito das alterações climáticas: ventos e correntes circumpolares intensificados conduziram a água mais quente do mar para a plataforma continental e para baixo do gelo flutuante. O oceano continuará a aquecer, mesmo que reduzíssemos as emissões.

Se tudo derretesse - É provável que demore milénios, mas o nível do mar subiria 57,6 metros. Nas condições actuais, a Antárctida poderá acrescentar mais de um metro aos níveis dos mares até 2100. O degelo de outros glaciares poderá elevar o valor até dois metros – suficiente para inundar cidades costeiras.

A comunidade científica mostra-se particularmente preocupada com o glaciar Thwaites que, sozinho, poderá aumentar o nível global dos mares em mais de um metro. No Outono passado, as fundações para a ciência do Reino Unido e dos EUA anunciaram uma missão de cooperação de 18 a 22 milhões de euros, a iniciar em 2018, que avaliará o estado dos glaciares. Por ora, as melhores estimativas indicam que o degelo da Antárctida será suficiente para aumentar o nível global dos mares em mais de um metro até 2100, dependendo da velocidade a que os seres humanos continuarem a emitir gases com efeito de estufa. Se juntarmos a isto a Gronelândia e outros glaciares em degelo acelerado existentes em todo o mundo, o nível dos mares poderá, plausivelmente, aumentar um a dois metros até 2100. 

Na Antárctida Oriental, investigadores australianos procuram fissuras no glaciar Totten  antes de utilizarem instrumentos para medir a velocidade a que está a deslocar-se e a perder espessura.

No entanto, esse não é o pior cenário: o nível do mar não vai parar de subir em 2100. O passado da Terra dá-nos algumas pistas sobre o que o futuro mais distante poderá trazer-nos. Geólogos que estudam linhas costeiras ancestrais concluíram que há 125 mil anos, quando a Terra era pouco mais quente do que actualmente, os níveis dos mares eram 6,5 a 8 metros mais altos. Há cerca de três milhões de anos, na última vez em que o dióxido de carbono atmosférico esteve tão alto como actualmente e a temperatura aproximava-se do nível que se espera para 2050, o nível do mar em muitos locais era 21 metros mais alto do que hoje. Contudo, um colapso das calotas de gelo da Gronelândia e da Antárctida Ocidental provocaria uma subida de cerca de dez metros. 
Por conseguinte, para avaliar o pior cenário, a comunidade científica precisa de voltar a sua atenção para a Antárctida Oriental, onde se encontram mais de três quartos do gelo do planeta.

Até há pouco tempo, a calota de gelo da Antárctida Oriental era considerada segura: ao contrário da Antárctida Ocidental, que situa-se num terreno alto.

No passado mês de Janeiro, um avião DC-3 partiu de Casey Station, na Austrália, e empreendeu vários voos sobre a costa da Antárctida Oriental. Ao voar sobre o glaciar Totten, um radar registou a espessura do gelo. Outro instrumento registou minúsculas alterações no campo gravitacional da Terra, indícios da topografia do leito marinho sob a plataforma de gelo flutuante do glaciar. De vez em quando, um membro da equipa abria a porta traseira do avião e atirava um objecto em forma de torpedo para o exterior. Ao cair na água, o objecto dividia-se em duas partes: uma flutuava, transmitindo sinais de rádio ao avião, e a outra fazia descer um cabo com 800 metros, medindo a temperatura da água.
Até há pouco tempo, a calota de gelo da Antárctida Oriental era considerada segura: ao contrário da Antárctida Ocidental, que situa-se num terreno alto. No entanto, o seu mapeamento recorrendo a sonares que penetram no gelo revelou uma região de baixa altitude sulcada por canais esculpidos pelos glaciares que podem descer até 2.600 metros abaixo do nível do mar – são perfeitos por isso para conduzir água do mar quente para as entranhas profundas da calota de gelo. O glaciar Totten é a maior desembocadura costeira desta região. Se colapsar, os níveis globais dos mares poderão subir quatro metros. “Apenas com um glaciar”, lembra Eric Rignot.

O icebergue A56, fotografado através das nuvens a partir da Estação Espacial Internacional, vagueou mais de 1.500 quilómetros desde que se soltou das plataformas de gelo de Filchner-Ronne, por volta de 2000. 

Em Janeiro de 2015, o quebra-gelo Aurora Australis tornou-se o primeiro navio a alcançar a frente do Totten. À semelhança do Palmer na ilha Pine em 1994, descobriu água quente correndo a grande profundidade sob a plataforma de gelo, a uma velocidade de 19 quilómetros cúbicos por dia. 
O glaciar já está a perder cerca de oito quilómetros cúbicos de gelo por ano. Donald Blankenship, perito da Universidade do Texas, teme o pior.

Totten perderá o seu gelo mais devagar do que a Antárctida Ocidental.

Em 2016, a sua equipa encontrou no leito rochoso provas de que Totten tem repetidamente recuado 160 a 320 quilómetros para o interior desde a sua posição actual, o que pode ajudar a explicar por que motivo os níveis dos mares eram mais altos há três milhões de anos. Os levantamentos de Donald Blankenship também identificaram dois sulcos no leito que deixam a água quente entrar por baixo da plataforma de gelo do Totten.
Totten perderá o seu gelo mais devagar do que a Antárctida Ocidental. O pior cenário ainda parece estar a séculos de distância. No entanto, poderá implicar o abandono de muitas das maiores cidades do mundo, incluindo Nova Iorque, Los Angeles, Copenhaga, Xangai e dezenas de outras. “O pavio já foi aceso”, resume Donald. “Estamos só a tentar identificar rapidamente a localização de todas as bombas.” 

O NASCIMENTO DE UM ICEBERGUE

glaciar

O fragmento de gelo que se desprendeu da plataforma Larsen C a 12 de Julho tem um tamanho superior ao território do Luxemburgo  e pesa aproximadamente um bilião de toneladas, o que o torna um dos maiores icebergues alguma vez registados. O desprendimento pode acelerar o colapso de toda a plataforma. Mapa: Lauren C. Tierney (NG). Fontes: Projecto Midas; Jeremie Mouginot, Bernd Scheuchl e Eric Rignot, UC Irvine e Programa de Ciências Criosféricas da NASA; Levantamento Britânico da Antárctida; NASA Lima.

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