O esplendor das flores de gelo

Não parecem deste planeta, mas os cristais de gelo são prodígios efémeros totalmente terrestres, que fascinam artistas e investigadores há centenas de anos.

Texto Eva van den Berg   Fotografia Kenneth Libbrecht

 

No Inverno, quando as temperaturas gélidas se abatem sobre a região dos Grandes Lagos, a neve chega às margens do lago Ontário. O físico Kenneth Libbrecht fotografou neste local alguns dos cristais de gelo que ilustram a reportagem. As plantas que crescem expostas aos elementos junto de lagos e rios que não congelam oferecem boas oportunidades para fotografar a geada”, diz o autor. Fotografia Ron Erwin/All Canada Photos/Age Fotostock.

Conhecido pelas suas leis sobre o movimento dos planetas, o astrónomo e matemático alemão Johannes Kepler publicou pela primeira vez em 1611 um livro sobre a fascinante arquitectura geométrica dos flocos de neve. Cerca de três séculos depois, o fotógrafo norte-americano Wilson A. Bentley foi também pioneiro ao retratar o seu magnífico esplendor. “Através do microscópio, descobri que os flocos de neve eram portentos de beleza e pareceu-me uma pena que essa beleza não pudesse ser apreciada pelas outras pessoas”, comentou em 1925. “Cada cristal de gelo é uma obra-prima que nunca se repete. Quando um cristal derrete, esse desenho perde-se para sempre. Quanta beleza perdida sem deixar qualquer rasto!”

Cada cristal de gelo é uma obra-prima que nunca se repete. Quando um cristal derrete, esse desenho perde-se para sempre. Quanta beleza perdida sem deixar qualquer rasto!

Com essa motivação, o artista, também conhecido por Snowflake, esforçou-se por captar a magnificência única destes cristais, reunindo cerca de cinco mil fotografias diferentes. Algumas ainda podem ser vistas no museu com o seu nome, em Jerico, no Vermont (EUA). Graças ao trabalho de Wilson Bentley, tornou-se possível elaborar as primeiras classificações das formas dos cristais de gelo, como as que foram estabelecidas em 1951 pela Associação Internacional das Ciências Criosféricas (IACS na sigla inglesa): curiosamente, os dez padrões-base então definidos ainda estão em vigor. Depois, surgiram imagens muito mais complexas e numerosas, como as dos geofísicos Choji Mogono e Chung Woo, da Universidade de Hokkaido, no Japão, que em 1966 descreveram 80 padrões diferentes. No entanto, esses modelos mostram apenas as generalidades que os inúmeros cristais de gelo partilham. E continua a ser extremamente difícil, senão impossível, encontrar dois iguais.

Dendrite estrelada
Dendrite gelada em forma de feto
Dendrite gelada em forma de feto
Prisma simples
Placa estrelada
Dendrite estrelada
Cristal triangular
Floco de neve de 12 pontas
 

“Estas jóias diminutas têm origem em microscópicas gotas de água no limiar da congelação que se encontram nas nuvens e que cristalizam sobre as partículas suspensas na atmosfera”, explica Kenneth Libbrecht, físico do Instituto de Tecnologia da Califórnia e autor das imagens desta reportagem. “Ao precipitarem-se, os cristais aglutinam-se, adoptando formas em função das circunstâncias ambientais, sempre a temperaturas abaixo do zero.” O tamanho dos cristais pode variar de algumas centenas de mícrones de diâmetro até cinco milímetros.

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