Lontras: quando a timidez se alia à inteligência

A lontra, pode dizer-se , é uma espécie tímida, esquiva e que faz a sua vida nos bastidores.

As lontras são geralmente animais solitários e territoriais. Noutro doutoramento efectuado sobre a lontra no Alentejo, Lorenzo Quaglietalla obteve dados de tamanho de territórios e ritmos da espécie, confirmando a actividade predominantemente nocturna da espécie e as diferenças entre o tamanho dos territórios dos machos e das fêmeas. Comprovou igualmente que as áreas vitais da espécie sofrem alterações da época húmida para a seca, pois os indivíduos concentram-se onde há água e alargam as suas áreas territoriais quando os rios estão mais cheios.

Para marcarem o território, as lontras dejectam em locais proeminentes, como pedras, troncos de árvores caídas ou pequenos diques.

Para marcarem o território, as lontras dejectam em locais proeminentes, como pedras, troncos de árvores caídas ou pequenos diques. Estas marcas, como as pegadas que deixam nas areias ou lodos das margens, são as observações indirectas de lontra que permitem confirmar a existência da espécie em determinado local. Segundo Anabela Trindade, que coordenou o único levantamento nacional sobre a distribuição da lontra em Portugal, promovido pelo então Instituto da Conservação da Natureza em 1995, “a dificuldade de observar lontras directamente é tal em contraponto à detecção dos seus vestígios indirectos, que foi desde logo decidido que os trabalhos de campo teriam de se centrar na procura de dejectos e pegadas”.

O censo detectou a espécie em praticamente todo o território continental (não existem lontras na Madeira e nos Açores), com excepção de áreas com forte ocupação humana ou cursos de água poluídos.

Como resultado, o censo detectou a espécie em praticamente todo o território continental (não existem lontras na Madeira e nos Açores), com excepção de áreas com forte ocupação humana ou cursos de água poluídos. Segundo Anabela Trindade, é provável que vinte anos depois, a situação da espécie seja mais favorável, em consequência de intervenções que melhoraram a qualidade da água de cursos de água outrora poluídos e da crescente preocupação ambiental.
A lontra tem a particularidade de ser o único carnívoro português com hábitos marcadamente aquáticos, tendo desenvolvido um órgão que a apetrecha de um sentido peculiar. As vibrissas são um órgão sensitivo no focinho que permite detectar pequenas vibrações sob a água, provocadas pelos movimentos das suas potenciais presas, especialmente úteis em águas com visibilidade reduzida ou durante a noite. Percorrem rios e ribeiros, visitam charcas, pauis, açudes e albufeiras de barragens. Na costa sudoeste de Portugal, vivem mesmo na orla costeira, procurando as presas no mar. Ao longo do seu território, percorrem longas distâncias em busca de peixes, lagostins ou anfíbios. 

Em vários países europeus, o atropelamento de lontras é uma ameaça frequente. Em Portugal, são encontrados pontualmente indivíduos atropelados em várias regiões do país, especialmente em rodovias perto de diques ou que atravessem linhas de água.

“Raras vezes vi duas lontras juntas. Quase sempre aparecem sozinhas”, lembra o Zé da Ludovica, que quase todos os dias passa horas no rio. E a explicação é simples. As lontras são animais solitários e territoriais. Não toleram a presença de rivais no seu território, não hesitando em expulsar os intrusos com agressividade. Assim, macho e fêmea juntam-se apenas durante o curto período de acasalamento. Após as cópulas, separam-se. Quando as crias nascem, ficam a cargo da mãe até ao primeiro ano de idade.
Ao contrário do que acontece em quase toda a Europa, onde a lontra é mais vulnerável, em Portugal a espécie foi classifcada como “pouco preocupante”, embora as observações se mantenham restritas a um reduzido número de privilegiados que partilham o seu meio aquático, como o Zé da Ludovica. É comum até uma lontra vir às redes e acabar por levar partes de alguns peixes capturados, mas o Zé é compreensivo. “Acontece”, explica o pescador de Mértola. “Se o faz, é porque não conseguiu apanhar nada e anda com fome… e não é por isso que fico mais pobre.”

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