Lontras: quando a timidez se alia à inteligência

O picão, peixe endémico do Sul da Península Ibérica e uma das presas que a lontra procura nos rios e ribeiras do Sul de Portugal. 

Não fora o acaso de ali estar, sentado numa pedra, admirando o rio e, provavelmente, nunca teria dado pela presença daquela lontra, tal foi a discrição com que o animal ali passou. Foi a minha primeira observação de uma lontra em ambiente selvagem e a descrição corresponde certamente à de muitos outros observadores de vida selvagem em Portugal, espectadores distantes de uma espécie tímida, que faz a sua vida nos bastidores.  
A lontra é referida em fontes documentais e foi representada em produções artísticas antigas. Apesar dessa visibilidade, porém, só na década de 1980 ocorreram as primeiras recolhas regulares de informação científica sobre a espécie em Portugal. Três décadas depois, “este é um dos carnívoros mais bem estudados no país e foi investigado em várias teses de mestrado e doutoramento”, notam os biólogos Nuno Pedroso e Teresa Sales-Luís, do Centro de Biologia Ambiental da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

A lontra é referida em fontes documentais e foi representada em produções artísticas antigas.

Na Universidade de Aberdeen, Pedro Beja conduziu o primeiro doutoramento sobre a espécie em Portugal, concentrando-se na população do Sudoeste Alentejano. Cruzando várias metodologias, como inquéritos, busca de indícios directos de presença, capturas e seguimento por rádio, o biólogo determinou que a disponibilidade de água doce (ou seja, a proximidade à foz de rios, ribeiras ou até mesmo pequenos ribeiros nessa região do Alentejo) é o factor mais condicionante da ocupação da lontra no ambiente costeiro. A dependência da água doce explica-se pela necessidade de retirar o sal acumulado no pêlo depois dos mergulhos marinhos em busca de alimento, dado que afecta a capacidade de retenção do calor corporal.
A lontra, porém, não se restringe aos ambientes próximos do mar e ocupa também nichos em ambientes mais humanizados como nas pisciculturas ou nas barragens, temas de outros dois doutoramentos dedicados à espécie em Portugal. 

O lagostim-vermelho do Louisiana foi introduzido na Andaluzia na década de 1970 e expandiu-se rapidamente por quase toda a Península Ibérica; actualmente é uma presa importante da lontra.

Teresa Sales-Luís investigou a distribuição da lontra na bacia do Sado, verificando que, durante a época seca, existe uma retracção na área de ocupação, o que revela a dependência da lontra das linhas de água com mais resistência à seca. 
A bióloga estudou também a predação por parte da lontra nas pisciculturas do estuário do Sado. Sendo a lontra um predador piscícola amplamente distribuído, mas protegido, e as pisciculturas propensas a predação, o potencial de conflito entre a produção e os interesses de conservação é real. Este tema levou à participação de Portugal num projecto europeu, durante o qual a equipa de ecologia coordenada por Margarida Santos-Reis (da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa) determinou que o impacte da predação por lontra não é importante a nível da área de estudo, mas varia significativamente entre pisciculturas e pode ser importante para estabelecimentos específicos.

A lontra ocupa habitats como as barragens, especialmente porque são fontes de presas durante o estio no Sul de Portugal.

À partida, uma barragem seria um ambiente inóspito para a espécie, pois constitui um corpo de água largo, profundo e com pouca vetegação ribeirinha nas margens, dificultando a captura de presas e reduzindo as possibilidades de refúgio. No entanto, em zonas mediterrânicas, Margarida Santos-Reis e Nuno Pedroso têm vindo a desenvolver uma linha de investigação que demonstra que, em condições populacionais favoráveis, como aquelas que parecem existir em Portugal, a lontra ocupa habitats como as barragens, especialmente porque são fontes de presas durante o estio no Sul de Portugal. 
No entanto, no seu doutoramento, Nuno Pedroso afirma que a maioria dos requisitos ecológicos da lontra, como as condições para reprodução, decrescem quando uma barragem é construída. Adicionalmente a comunidade de presas e a dieta da lontra alteram-se dramaticamente, passando a espécie a alimentar-se de espécies não-nativas.

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