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Na serra do Corno de Bico, uma equipa de vigilantes da natureza foi chamada para validar a queixa de um proprietário que denunciou o ataque de um vitelo por acção de lobos. Os processos de indemnização são morosos.

Há uma regra incontornável para quem estuda o lobo no Norte de Portugal: é preciso caminhar muito! Caminhar ao sol. Caminhar com um fardo pesado de equipamento. Caminhar por trilhos que o diabo amassou. Mas as duas investigadoras que acompanho não parecem queixar-se. A mais de mil metros de altitude, o calor, mesmo ao final do dia, continua a ser sufocante. Nesta região, porém, os humores do clima mudam abruptamente e “não é invulgar que um dia soalheiro termine sob um intenso temporal”, conta Mónia Nakamura.

Há uma regra incontornável para quem estuda o lobo no Norte de Portugal: é preciso caminhar muito!

As biólogas transportam binóculo e telescópio nas mochilas. O trabalho de campo é cada vez mais tecnológico. Recorre-se à genética não invasiva para estabelecimento de relações de parentesco. Fazem-se capturas para marcação e seguimento. Usa-se telemetria GPS, fazem-se esperas e estações de escuta para avaliar a ocorrência de reprodução e estimar efectivos. As caminhadas como a de hoje já têm pouco de aleatório. Estamos aqui porque, no dia anterior, a informação recebida por GPS confirmou que um lobo marcado com uma coleira estava neste vale, provavelmente entre a vegetação mais densa.
Sentamo-nos e esperamos. Após algumas  horas, Mónia avista o primeiro exemplar, “próximo de dois penedos, em deslocação no meio da vegetação”, sussurra ela. Passados alguns minutos, surge outro animal. Dirigem-se os dois para o sopé da encosta. A distância que nos separa destes predadores é considerável, mas subestimamos o seu olfacto. Mesmo em silêncio e quase imóveis, fomos detectados. Os dois animais param e olham para o local onde nos encontramos. Decidem depois prosseguir, numa rápida avaliação de risco. 

Cerca de oitenta lobos foram mortos entre 1999 e 2011, segundo o Sistema de Monitorização de Lobos Mortos. O atropelamento é a causa mais frequente, mas também há lobos abatidos a tiro, por laço ou envenenamento. Recentemente, três animais morreram por infecções do vírus da esgana.

Desde 1996, o núcleo populacional de lobo no Alto Minho tem vindo a ser alvo de uma monitorização focada na avaliação anual da ocorrência de reprodução nas seis alcateias que o constituem. Ao longo deste período, “temos assistido à extinção e ressurgimento pontual de alcateias que subsistem sob um enorme conflito com o homem, com pouco paralelismo com outras regiões nacionais e evidenciando as particularidades ecológicas deste núcleo populacional”, refere Francisco Álvares. 

Alicerçado em todas as metodologias e tecnologias disponíveis e ao alcance dos investigadores, foi possível chegar a um conhecimento sem precedentes sobre esta população.

Em 2006, iniciou-se um projecto mais ambicioso, desenvolvido pelo CIBIO e coordenado pela Associação para a Conservação do Habitat do Lobo-Ibérico, com o objectivo de aprofundar o conhecimento da ecologia e dinâmica populacional deste núcleo e obter bases para a sua eficaz conservação. Numa zona onde o homem molda a paisagem e a dinâmica do lobo, reduzindo-lhe o espaço disponível e movendo-lhe uma perseguição intensa e, por outro lado, proporcionando-lhe muito e fácil alimento, é importante saber como evolui esta dinâmica e até que ponto ele permite que o predador subsista. Alicerçado em todas as metodologias e tecnologias disponíveis e ao alcance dos investigadores, foi possível chegar a um conhecimento sem precedentes sobre esta população. Quinze lobos seguidos por telemetria GPS, 145 indivíduos identificados por genética não-invasiva, árvores genealógicas que revelam as relações de parentesco entre os indivíduos e monitorização da ocorrência de reprodução das alcateias dão um retrato completo e dinâmico deste peculiar núcleo populacional. 

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