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A abundância de gado vacum afecta radicalmente o comportamento de caça do lobo-ibérico. Nas regiões onde o gado abunda, os ataques do lobo são invariavelmente mais frequentes. Desde 1988, existe legislação que prevê a compensação dos proprietários de cabeças de gado atacadas pelo predador.

Acompanho uma equipa de vigilantes da natureza na Área de Paisagem Protegida do Corno do Bico. Fomos chamados porque um vitelo terá sido abatido por lobos. Quando isto sucede, os vigilantes têm de perceber a causa da morte. 
Analisam a carcaça para distinguir o ataque de lobo do de cães assilvestrados. “Todos os anos tenho animais abatidos ou feridos”, comenta um jovem criador de gado, que lamenta o atraso das compensações pagas pelo Estado. 
Em 1988, a legislação portuguesa previu a necessidade de compensar os proprietários de rebanhos pelos prejuízos causados pelo lobo, assumindo que a animosidade diminuiria se as mortes provocadas por lobos não representassem prejuízos para os criadores. Foi colocado em marcha um sistema de verificação, que obriga o proprietário a comunicar em 48 horas qualquer ataque e força as autoridades a enviar uma equipa de averiguação nos cinco dias seguintes. O sistema impõe também requisitos mínimos de protecção: os animais têm de ser guardados por pastor e um cão por cada 50 cabeças de gado. 

902 ataques corresponderam ao abate de bovinos, de longe a espécie doméstica mais valiosa.

No âmbito da tese de doutoramento de Virgínia Pimenta no CIBIO, sabe-se que em 2013 foram comunicados ao ICNF 2.746 ataques de lobos, com maior preponderância no Gerês. Isso significa que existiram 2.746 feridas abertas na relação entre os criadores de gado e a área protegida. Sarada a tempo (ou seja, rapidamente compensada), a ferida cicatriza. Mas é frequente que o processo de compensação demore meses. Pior: 902 ataques corresponderam ao abate de bovinos, de longe a espécie doméstica mais valiosa. “É também a mais difícil de proteger”, lembra o biólogo Francisco Álvares. O Estado responsabilizou-se em 2013 pelo pagamento de quase 800 mil euros em indemnizações, mas a máquina burocrática é lenta. Os processos são morosos. A monitorização e a investigação científica são hoje incomparavelmente mais intensas, mas Francisco Álvares reconhece que o “conflito não tem diminuído”. 
Para minimizar o impacte no gado, o Grupo Lobo iniciou um projecto em 1996 para recuperar raças de cães de gado para a protecção dos rebanhos. “Em algumas regiões, foram cedidos serras-da-estrela, castros-laboreiro ou cães-de-gado-transmontano aos pastores para protecção dos rebanhos, assumindo o Grupo Lobo a responsabilidade pelo tratamento veterinário e alimentação destes animais”, explica Sílvia Ribeiro, do Grupo Lobo. Neste momento, há 360 vigilantes caninos distribuídos pelo Norte de Portugal.

 

Historicamente, no extremo setentrional da Península Ibérica, o lobo viveria de presas selvagens como este rebanho de cabras-montesas. No final do século XIX, a cabra-montesa desapareceu do Parque Nacional da Peneda-Gerês, levando à reorganização do ecossistema. Na última década, voltaram a ocorrer avistamentos de cabras no Gerês português.

Muitos lobos mortos são remetidos para o Laboratório Nacional de Investigação Veterinária. Segundo o Sistema de Monitorização de Lobos Mortos, organizado pelo ICNF, entre 1999 e 2011 foram analisados 80 animais mortos. A mortalidade no Noroeste e a sul do rio Douro é proporcionalmente mais elevada do que na restante área de presença do lobo em Portugal e isso explica-se pela proximidade com grandes densidades populacionais humanas.
O atropelamento acidental é a principal causa de morte de lobos, seguida de abate por armas de caça, de mortes por laço e envenenamentos. O veterinário Nuno Santos lembra que há lobos vítimas de perseguição ilegal, “que são mais difíceis de detectar, pelo que o abate a tiro, o veneno e os laços deverão estar sub-representados nesta amostra”. A elevada mortalidade ilegal leva a que algumas alcateias sejam mais instáveis e apresentem acentuada dinâmica de extinção e recolonização. A situação é provocada por assimilação de animais dispersantes, que procuram novos territórios, e não por reintroduções programadas, como muitas vezes é erradamente referido.

O atropelamento acidental é a principal causa de morte de lobos, seguida de abate por armas de caça, de mortes por laço e envenenamentos.

A chegada de um lobo para a necropsia é sempre um momento triste, que, ao contrário do preconceito que fomos construindo, não tem de ser necessariamente fruto de antagonismos antigos. Aprendo essa lição no sítio mais improvável. Na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, um projecto de investigação de Ana Isabel Queiroz, Margarida Lopes Fernandes e Filipa Soares debruçou-se sobre a representação do lobo na literatura portuguesa. Concluiu, como se esperaria, que o lobo faz parte da ficção portuguesa desde o século XIX.  E no entanto apesar do seu papel eminentemente negativo nas fábulas, existem ambivalências e outras facetas do lobo nas culturas ocidentais. As 68 obras literárias que o referem (em 262 excertos) são maioritariamente construídas com referências à abundância do animal, ao seu habitat, comportamentos e morfologia e à comparação zoomórfica entre as qualidades do lobo e do homem. Mesmo em “O Homem da Nave” de Aquilino Ribeiro, "o lobo é sempre o responsável pelo que faz e pelo que não faz" e "não me desgostava nada de ver convertidos os nossos bosques em paraíso terreal dos lobos".
Por outras palavras, a preocupação ética com o destino do lobo não é moderna, nem constitui uma prerrogativa da sociedade industrial. É uma marca de uma consciência profunda sobre o espaço rural e os seres que nele devem permanecer.

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