O aquecimento do planeta ameaça as espécies das Galápagos que inspiraram a teoria da selecção natural de Darwin.

Texto Christopher Solomon   Fotografia Thomas P. Peschak

 

Duas iguanas marinhas não parecem importar-se com uma parente sua mumificada, provavelmente morta de fome, na ilha Fernandina. Endémicos das Galápagos, estes lagartos alimentam-se de algas junto da costa. Os machos de maior porte mergulham no oceano. As algas que as iguanas consomem morrem em águas quentes, tornando os “demónios da escuridão” de Darwin susceptíveis às alterações climáticas.

Jon Witman verifica o manómetro, ajusta as barbatanas e deixa-se cair para trás, mergulhando no oceano Pacífico. Ali perto, o mar projecta-se contra a ilha Beagle, um entre centenas de rochedos, pináculos e ilhéus que compõem o arquipélago das Galápagos, uma província do Equador que atravessa a linha com o mesmo nome. Travado nos seus avanços, o mar recua, desfraldando uma bandeira branca de espuma.
Numa plataforma acima da rebentação, patolas-de-pés-azuis dançam desajeitadamente, como miúdos numa festa de final de ano lectivo. Abaixo deles, nas rochas, uma discussão irrompe entre dois leões-marinhos. Charles Darwin poderá ter assistido a uma cena idêntica quando navegou nestas ilhas há quase dois séculos. Estas criaturas, cuidadosamente adaptadas à vida nestas ilhas difíceis, parecem resistir a tudo e até à passagem do próprio tempo.

Estas criaturas, cuidadosamente adaptadas à vida nestas ilhas difíceis, parecem resistir a tudo e até à passagem do próprio tempo.

De repente, Jon vem à superfície. “Está a começar”, diz, com uma careta.
Pega na câmara de vídeo e desaparece novamente debaixo de água. Mergulho atrás dele. Cinco metros abaixo da superfície, Jon aponta na direcção de um coral. Deveria parecer um pagode verde-mostarda, mas é branco e brilha contra os tons de cor-de-rosa e verde garrido do leito marinho. Este coral sofre de branqueamento, uma reacção a águas excessivamente quentes. Em breve estará morto. 
Jon Witman e a sua equipa prestam especial atenção a locais como a ilha Beagle. Não têm tido dificuldade em descobri-los. Estão a medir a temperatura desta comunidade do fundo marinho – no sentido literal e figurativo. Durante o El Niño de 2016, o evento climático mais intenso na região nas duas últimas décadas, as temperaturas no local de mergulho atingiram um máximo de 31°C. Por norma, as temperaturas da água na região das Galápagos foram superiores à sua média a longo prazo em mais de 2°C. Jon Witman, que investiga há 40 anos ecossistemas costeiros da ilha da Páscoa ao golfo do Maine, teme que este coral possa prenunciar uma explosão de branqueamento, bem como outras alterações dramáticas no ambiente local nos próximos anos.

Um tubarão-martelo-recortado nada junto de um cardume de plombetas, espécie endémica das ilhas do Pacífico Oriental tropical. Flutuações na temperatura da água promovem o crescimento de cracas nas rochas e facilitam o aparecimento de infecções na pele, visíveis nas manchas brancas neste tubarão.

As Galápagos são uma extensão de 13 grandes ilhas que existem tanto nos mitos como nos mapas, um paraíso repleto de tentilhões onde Darwin chegou em 1835 e fez observações que acabariam por revelar-lhe (e a nós) a maneira como a vida evolui na Terra. A sua Origem das Espécies viria a figurar em “quase todas as componentes do sistema de crenças do homem contemporâneo”, escreveu o especialista em biologia evolutiva Ernst Mayr.
Por mais isoladas que pareçam, as Galápagos não estão imunes às repercussões da vida contemporânea: as alterações climáticas estão a chegar ao berço da teoria da evolução. Espécies icónicas como as tartarugas-gigantes, os tentilhões, os patolas e as iguanas marinhas poderão ser afectadas. Os famosos ecossistemas que ensinaram a selecção natural ao mundo talvez voltem a dar--nos uma lição, oferecendo-nos conhecimento sobre o futuro noutros locais. As Galápagos, diz Jon, “são um laboratório fabuloso para estudar a reacção das espécies às alterações climáticas”.

Depois de caçar, um patola regressa ao ninho, junto de uma figueira-da-índia na ilha Wolf. Os cientistas estudam as aves noutros pontos das ilhas de modo a avaliar como as alterações a longo prazo na sua dieta podem prejudicar a reprodução e reduzir as populações.

Antes de serem Galápagos, chamavam-se Las Encantadas, ilhas semelhantes a protuberâncias cobertas por espuma, correntes de lava e animais estranhos. “Nunca pertenceram a homens nem a lobos”, escreveu Herman Melville. “O som da vida que aqui mais se ouve é o assobio.”
Os baleeiros atiravam essas tartarugas assobiadoras para os seus navios, comendo-as mais tarde. Enchiam barris com água e seguiam caminho. O arquipélago era-lhes particularmente estranho: afastada da América do Sul continental por aproximadamente mil quilómetros de água, a natureza tornou-se selvagem nestas ilhas. 
Dos animais que empreenderam a viagem vindos do continente, poucos sobreviveram. Os sobreviventes evoluíram, assumindo formas diferentes, adaptando-se às condições de cada ilha. 

Antes de serem Galápagos, chamavam-se Las Encantadas, ilhas semelhantes a protuberâncias cobertas por espuma, correntes de lava e animais estranhos.

Há outras mudanças em curso neste instante e não apenas do tipo evolutivo. Poucos locais à face da Terra proporcionam aos cientistas lugares privilegiados para observação de ecossistemas abalados de maneira tão drástica, por vezes repetidamente, num período de tempo tão curto.
À medida que o planeta aquece, Jon Witman e outros cientistas estão a tentar perceber como será o futuro. É possível que em nenhum outro local da Terra o ciclo da vida e da morte seja tão dramaticamente condicionado pelos eventos climáticos conhecidos como El Niños e La Niñas – alterações de temperatura, pluviosidade e força nas correntes oceânicas que provocam flutuações no clima e na disponibilidade de alimentos, em terra e no mar. E prevê-se que a influência das alterações climáticas aumente a incidência de El Niños acompanhados por chuvas intensas, passando de 1 em cada 20 anos para 1 por década.

Os tubarões-luzidios, as duas formas pálidas visíveis na imagem, são maiores do que os seres humanos, mas parecem anões comparados com um tubarão-baleia enquanto se esfregam nele para remover parasitas da sua pele. A ilha Darwin é um dos poucos locais onde os tubarões-baleia adultos, frequentemente fêmeas prenhes, aparecem sazonalmente com regularidade.

Os modelos projectam igualmente que o oceano junto do Equador aquecerá ligeiramente mais depressa do que o resto do Pacífico tropical, segundo Andrew Wittenberg, especialista em ciência física da Agência Nacional dos Oceanos e da Atmosfera dos EUA. Prevê-se uma subida dos níveis do mar de 55 a 76 centímetros até 2100, segundo algumas previsões. Os cientistas entendem também que o aquecimento das águas durante a estação fria poderá reduzir o garúa, o denso nevoeiro que cobre as terras altas cobertas por floresta das Galápagos há cerca de 48 mil anos. Isso seria catastrófico para as formas de vida que dependem da humidade do nevoeiro. Além disso, à medida que os oceanos continuam a absorver o dióxido de carbono produzido pelos seres humanos, as Galápagos serão um local particularmente afectado pela acidificação dos oceanos, que pode dissolver os esqueletos de carbonato de corais e moluscos, afectando possivelmente a cadeia alimentar do oceano.

A mensagem das Galápagos - As ilhas que ajudaram a desvendar os segredos da evolução podem vir a enfrentar episódios de El Niño intensos com maior frequência à medida que o clima mudar. O aumento das temperaturas e da pluviosidade, acompanhado pela subida do nível do mar, criaria novas pressões. Conseguirão as espécies adaptar-se? Gráfico Matthew W. Chwastyk, Ryan T. Williams. Manyun Zou. Arte: Matthew Twombly. Fontes: Fundação Charles Darwin; Mandy Trueman, Universidade Charles Darwin, Austrália.

Em relação ao mapa, identifiquem-se, no slideshow, os ecossistemas em condições normais:

 

Entretanto, Jon Witman e a sua equipa esperam que o branqueamento dos corais a que têm assistido em redor das ilhas se intensifique devido à elevada temperatura da água provocada pelos El Niños. Com o desaparecimento de alguns habitats, os peixes e outros organismos marinhos que dependem dos corais ficam com menos abrigo e fontes de alimentação. Um ecossistema rico empobrece e não resiste tão bem aos choques climáticos, incluindo choques adicionais provocados pelas alterações de clima. Para agravar a situação, as ilhas estão sob pressão de uma demografia crescente – cerca de 25 mil residentes e uma multidão de cerca de 220 mil turistas por ano.

Neste slideshow, os exemplos de alterações em anos de El Niños intensos:

Até agora, os animais e as plantas das Galápagos têm sobrevivido a este equilíbrio precário, mas as agressões talvez estejam a acontecer com demasiada rapidez e a partir de demasiadas frentes para que lhes seja possível adaptarem-se.
Ancorado na reentrância de uma enseada digna de um folheto turístico, Jon veste o fato de mergulho gasto. O investigador conduz a sua equipa de três mergulhadores de regresso ao leito marinho. Um dos mergulhadores pega numa prancheta à prova de água e espreita para o interior das fendas, contando ouriços-do-mar como um recenseador excessivamente zeloso. Robert Lamb, doutorando de Witman, recupera câmaras de vídeo que ali foram deixadas para registar o comportamento dos peixes residentes, como o peixe-sargento e o bodião. Jon desloca-se junto ao fundo, filmando metodicamente. Leões-marinhos brincalhões aligeiram o momento, mordendo a fita de demarcação dos mergulhadores como se fosse fio dental.

Os tubarões-luzidios, as duas formas pálidas visíveis na imagem, são maiores do que os seres humanos, mas parecem anões comparados com um tubarão-baleia enquanto se esfregam nele para remover parasitas da sua pele. A ilha Darwin é um dos poucos locais onde os tubarões-baleia adultos, frequentemente fêmeas prenhes, aparecem sazonalmente com regularidade.

Nos últimos 18 anos, Jon visitou consistentemente uma dúzia de locais, uma vez a cada dois anos, para estudar as interacções entre comunidades que habitam o leito marinho e as redondezas – esponjas, corais, cracas, peixes. As Galápagos possuem dos sistemas marinhos tropicais mais saudáveis do mundo. “É como uma mata em terra firme”, diz. Em vez de aves, os corais acolhem caranguejos e búzios simbióticos, bem como peixes. 

As ilhas são banhadas por quatro das principais correntes oceânicas, com temperaturas variáveis.

As Galápagos são particularmente singulares e diversificadas. O motivo é simples: as ilhas são banhadas por quatro das principais correntes oceânicas, com temperaturas variáveis. A fria e profunda contracorrente equatorial, que percorre cerca de 13 mil quilómetros no Pacífico, atinge as ilhas, sobe e gira em seu redor, trazendo à superfície nutrientes que fertilizam o fitoplâncton. Por sua vez, este alimenta a restante cadeia alimentar marinha. Tudo se baseia nesta correia transportadora.

Caranguejos-fidalgo agarram-se a um rochedo banhado pela maré na produtiva zona intertidal da ilha Fernandina. Conhecidos em inglês como sally lightfoot devido à sua agilidade (deslocam-se velozmente para a frente, para trás e de lado), estes caranguejos têm uma dieta diversificada, mantendo a costa limpa de detritos orgânicos. Não se sabe como a subida do nível dos mares afectará estes omnívoros.

Nos El Niños, os ventos alísios abrandam, o que enfraquece a subida da água fria e dos nutrientes provenientes das profundezas. A massa de água quente do Pacífico Ocidental expande--se na direcção das Galápagos. A correia transportadora pára praticamente de funcionar. A mesa cheia de iguarias deixa de estar disponível. A vida marinha sofre dramaticamente. Algumas criaturas podem deixar de se reproduzir. Algumas até morrem de fome.
Há populações que ainda não recuperaram de um El Niño extremo ocorrido em 1982-83. Crê-se que a castanheta das Galápagos, um peixe endémico, se tenha extinguido devido a esse evento. Entretanto, a sorte muda com frequência em terra firme: o El Niño costuma trazer chuvas abundantes e geradoras de vida nas ilhas desertas.

La Niña vira tudo ao contrário. A vida marinha prospera enquanto a vida terrestre apodrece.

La Niña vira tudo ao contrário. A vida marinha prospera enquanto a vida terrestre apodrece. Jon Witman compara o ciclo natural e consecutivo com uma montanha-russa: privação; recuperação; abundância; repetição. No decorrer das suas observações, as Galápagos sofreram três grandes episódios de El Niño. Em 2016, as águas quentes provocaram uma redução na quantidade das algas que as iguanas marinhas de maior porte consomem no mar.
Se as águas estiverem mais quentes e se os El Niños intensos se tornarem mais frequentes, irão os maus momentos perturbar as comunidades do leito marinho de tal forma que elas não consigam recuperar nas fases de explosão de vida? 
Depois do mergulho, Jon mostra-me uma fotografia do coral. “Normalmente, isto seria cor-de-rosa”, diz. Agora parece uma camada de betão mal aplicada. As algas coralinas, que formam uma crosta sobre a qual o resto da comunidade cresce, desapareceram. Jon suspeita que o aquecimento das águas provocado pelo El Niño mais recente acelerou o metabolismo dos ouriços-do-mar que se alimentam das algas e que, consequentemente, devoraram a crosta do leito em vários locais.

As algas coralinas, que formam uma crosta sobre a qual o resto da comunidade cresce, desapareceram.

Entretanto, salemas e peixes-boquinhas,  em tempos consumidores abundantes de plâncton, “tornaram-se invulgarmente escassos durante este intenso El Niño”, diz Robert Lamb. A cadeia alimentar das Galápagos já está a ser transformada por um conjunto de factores, a ponto de alguns animais terem dificuldade em adaptar-se. A população de patolas-de-pés-azuis do arquipélago diminuiu para cerca de metade desde 1997. Os cientistas acreditam que as sardinhas das Galápagos começaram a rarear nas dietas de vários predadores na mesma altura. Os patolas passaram a comer principalmente peixes voadores, mais difíceis de capturar e menos nutritivos. É como passar de uma dieta à base de bife abundante para rações de combate, diz o docente universitário Dave Anderson. Os patolas-de-pés-azuis não costumam criar juvenis quando não se alimentam correctamente.

Pequenos grupos de leões-marinhos endémicos das Galápagos na costa oriental da ilha Isabela caçam atum-albacora, abundante no local, conduzindo os peixes até baías e atirando-os contra as rochas ou matando-os com uma dentada na cabeça. Prevê-se que o número de leões-marinhos diminua com as alterações climáticas.

Poderá a perda da diversidade das espécies conduzir a uma espiral ecológica negativa? “Com menos espécies, teremos menos capacidade de adaptação às ameaças”, resume Jon Witman.
Certo dia, em Março de 2016, eu e o ecologista Fredy Cabrera passeamos por uma floresta escura  nas terras altas de Santa Cruz, a mais povoada das ilhas e lar de cerca de 15 mil pessoas. Passamos por um pedregulho que emite um assobio resignado e retrai a cabeça. Passamos por outro pedregulho de seguida e depois por mais um. As tartarugas-gigantes parecem estar por todo o lado.

Escava meticulosamente o ninho. Uma barricada de protecção de arame contra predadores não foi suficiente para salvar estes ovos.

Mais abaixo, junto das terras áridas, Fredy desvia-se do trilho, levanta uma grelha de arame rijo do solo e começa a escavar. Vinte e cinco centímetros abaixo, toca numa bola de bilhar enterrada. “Há aqui um ovo estragado”, diz em espanhol. Escava meticulosamente o ninho. Uma barricada de protecção de arame contra predadores não foi suficiente para salvar estes ovos. “Seis dos oito estão partidos”, diz Fredy, que colabora como investigador no Programa Ecológico Movimento das Tartarugas das Galápagos. “Não é invulgar, tendo em conta as chuvas.” Em Janeiro de 2016, pouco depois de começar o El Niño, chuvas fortes atingiram o arquipélago e alagaram esta área da floresta, apodrecendo e partindo muitos ovos.
Depois, há a questão da temperatura: para muitos répteis, “se a incubação ocorrer a temperaturas relativamente frescas, há maiores probabilidades de nascer um macho e se ocorrer a temperaturas relativamente quentes, é mais provável que nasça uma fêmea”, comenta Stephen Blake, coordenador do programa. “Se as alterações climáticas conduzirem a um aquecimento geral da areia, poderemos subitamente descobrir que o rácio dos sexos pendeu dramaticamente para o lado das fêmeas.” Cientistas de vários pontos do mundo, incluindo da Grande Barreira de Recife de Coral e do arquipélago de Cabo Verde, começam a verificar a ocorrência deste fenómeno nas tartarugas marinhas.

Alguns tentilhões de Darwin foram dispostos em redor de um sortido de sementes locais no Posto de Investigação Charles Darwin. Os extremos climáticos são habituais nas Galápagos. O tamanho, largura e formato dos bicos das aves que aqui prosperam adaptaram-se de modo a aproveitar as sementes disponíveis para consumo.

 Se não conseguirmos aliviar a pressão exercida sobre a fauna e a flora das Galápagos, o patola-de-pés-azuis que pôs aquele ovo poderá morrer: prevê-se que os sete animais que os turistas consideram mais importantes observar na sua visita – tartarugas-gigantes, tartarugas marinhas, iguanas marinhas e terrestres, pinguins, patolas-de-pés-azuis e leões-marinhos – entrem em declínio devido às alterações climáticas, segundo uma avaliação sobre a vulnerabilidade efectuada pelas organizações Conservation International e WWF. 

Desde a descoberta das ilhas, em 1535, várias espécies exóticas foram para aqui trazidas.

Noutra manhã quente nas terras altas, cerca de seiscentos metros acima do nível do mar, Heinke Jäger acompanha um grupo de turistas que se dirige a um bosque. Ao olhar dos turistas nada parece faltar. Heinke, porém, repara em inúmeras feridas. Trata-se de uma ecologista da Fundação Charles Darwin, especializada em restauro, e que supervisiona as espécies invasoras de fauna e flora terrestres. Desde a descoberta das ilhas, em 1535, várias espécies exóticas foram para aqui trazidas – algumas intencionalmente, como cabras, porcos, gatos e plantas alimentares e ornamentais, para mencionar apenas algumas. Outras, como roedores, insectos e ervas daninhas, foram introduzidas acidentalmente. Algumas, como as silvas, tornaram-se invasoras.
Hoje, segundo Heinke Jäger, as Galápagos são o lar de mais de 1.430 espécies introduzidas, incluindo cerca de oitocentas plantas. Muitas não causam problemas, mas outras sim. As espécies invasoras são consideradas a maior ameaça às Galápagos e são uma das razões pelas quais a UNESCO classificou o local como “Património Mundial em Risco” em 2007.

As florestas locais albergam comunidades completas de orquídeas, musgos e aves. Resta apenas 1% destas florestas, arrasadas há quatro décadas para fins de exploração agrícola em Santa Cruz.

Guia turística amigável, embora abordando um tema sério, Heinke aponta para as Cinchona pubescens, ou as árvores da quina, uma das cem espécies mais invasivas do mundo. Na zona mais alta de Santa Cruz, a Cinchona ensombra e reduz a presença de plantas nativas, alterando a estrutura da comunidade e causando danos a aves endémicas como o painho das Galápagos, uma ave marinha com o hábito invulgar de escavar tocas com quase dois metros de profundidade para nidificar.
Prosseguindo o passeio, Heinke observa arbustos invasores na floresta. As florestas locais albergam comunidades completas de orquídeas, musgos e aves. Resta apenas 1% destas florestas, arrasadas há quatro décadas para fins de exploração agrícola em Santa Cruz. Hoje, encontram-se protegidas, mas, nos locais onde as silvas invadiram a floresta remanescente, abafam o solo, impedindo os rebentos de crescer e os tentilhões de nidificar.

Se o futuro for efectivamente mais húmido, toda a vegetação poderá ser beneficiada.

Se o futuro for efectivamente mais húmido, toda a vegetação poderá ser beneficiada, “mas é provável que as espécies invasoras se disseminem”, resume Heinke, lembrando que estas são mais flexíveis do que as espécies altamente especializadas que sobrevivem nas Galápagos.
Do outro lado do arquipélago, um bote aproxima-se da costa de uma praia isolada de areia negra em Isabela, a maior ilha das Galápagos. Francesca Cunninghame sobe para bordo. Segura nas mãos uma gaiola coberta com tecido negro. A sua carga: membros de uma das espécies de aves mais raras do mundo. Francesca vai levá-los para casa.

Na ilha Wolf, os tentilhões têm mais dificuldade em conseguir uma refeição do que outras aves terrestres. Para sobreviverem quando as rações já de si escassas de sementes e insectos desaparecem completamente, alguns tentilhões tornam-se… vampiros: bicam as penas das patolas junto à base e bebem-lhes o sangue.

Os famosos tentilhões das Galápagos, conhecidos como tentilhões de Darwin – existem 18 espécies reconhecidas (há estudos genéticos em curso e é provável que se identifiquem novas espécies) – ocupam um lugar valioso, embora erróneo, na imaginação popular como peça decisiva dos conhecimentos de Darwin sobre a evolução. Na verdade, Darwin não tomou nota das ilhas onde recolheu tentilhões e só se apercebeu da sua falha ao regressar a casa, em Shrewsbury (Inglaterra). 
Um dos tentilhões de Darwin é o tentilhão-dos-mangues, que hoje vive apenas em duas secções isoladas (totalizando cerca de 30 hectares) de floresta. Os invasores já os encontraram – ratazanas e um insecto, parente da mosca doméstica, invadem ninhos e contribuem provavelmente para a extinção local de um tentilhão-cantor na ilha Floreana. 

Na verdade, Darwin não tomou nota das ilhas onde recolheu tentilhões e só se apercebeu da sua falha ao regressar a casa, em Shrewsbury (Inglaterra).

A presença de larvas deste insecto nos ninhos aumenta nos anos de chuvas intensas segundo um estudo, o que pode sugerir mais problemas no futuro. Outro estudo recente concluiu que as chuvas intensas resultavam num decréscimo na sobrevivência dos pintos. Actualmente, restam menos de vinte casais reprodutores de tentilhão--dos-mangues
Transportando a sua preciosa carga, Francesca caminha descalça sobre a areia escaldante e entra numa floresta de mangues altos. A luz desvanece-se. O ar esfria. Avançamos para o interior. Avistamos um pequeno aviário de madeira. Está construído acima do solo da floresta e contém três câmaras adjacentes para manter os predadores à distância. Lá dentro, Francesca e os seus três assistentes começam a distribuir o pequeno-almoço às aves. Fecham as portas do aviário. A bióloga abre as gaiolas e remove, gentilmente¸ 15 pintos, um a um. Com apenas quatro a oito semanas de idade e cor fuliginosa, parecem baforadas de fumo de charuto.

Em poucos minutos, há três pintos à borda do prato da comida, conversando de boca cheia.

Em poucos minutos, há três pintos à borda do prato da comida, conversando de boca cheia. Nas seis semanas seguintes, a equipa de Francesca continuará a libertá-los gradualmente e a realizar outras investigações. Se não tivessem recolhido e alimentado os primeiros pintos e ovos da estação, as aves teriam provavelmente morrido e o projecto estagnaria. 
Nos últimos quatro anos, investigadores da Fundação Charles Darwin – em parceria com a direcção do Parque Nacional das Galápagos e em colaboração com o Zoológico Global de San Diego e a organização Durrell Wildlife Conservation Trust – têm trabalhado para aumentar esta população ameaçada. 

Numa cena que poderia decorrer há dez mil anos, tartarugas-gigantes descansam numa poça de lama na cratera do vulcão Alcedo, na ilha Isabela. A temperatura da areia durante a incubação dos ovos determina o género destes répteis. A previsão de temperaturas mais quentes pode significar areia mais quente e um número mais elevado de fêmeas.

Francesca continua preocupada. “Qualquer alteração ou aumento no nível do mar poderá potencialmente destruir esta floresta”, afirma. O tentilhão-dos-mangues prefere nidificar em mangues pretos e brancos ligeiramente protegidos do mar aberto. Não sabemos ao certo como se adaptaria se estas florestas desaparecessem.
Francesca está grávida de mais de três meses e sente-se um pouco indisposta, por isso deita-se no chão do aviário e observa os pintos. Ri-se enquanto as aves discutem e depois sorri. Parece ter-lhe saído um peso de cima. “Estão de volta ao sítio onde deveriam estar”, diz.
Há muito mais trabalho a fazer. Durante alguns minutos, porém, Francesca fica deitada sob a luz sarapintada a ouvir as aves. Por um instante, ouve-se o som da vitória. 

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