Há vida nas ilhas desertas de Cabo Verde

As ilhas desertas de Cabo Verde foram abençoadas com uma flora e fauna únicas. Guardarão ainda sobreviventes da batalha da evolução?

Texto e Fotografia Alexandre Vaz e Madalena Boto

 

Face aos sete quilómetros quadrados de paisagem desoladora do ilhéu Raso, é inevitável pensar nas fotografias de Marte. No entanto, depois da chuva, bastam três dias para germinar o tapete verde que está na base do delicado equilíbrio de que dependem as calhandras.

 Nas ilhas Indiferentes à força da corrente que ameaça parar o nosso motor de 50 cavalos, vários peixes voadores irrompem graciosamente das ondas, pairando por instantes acima das águas do Atlântico. Do velho semi-rígido em que nos encontramos, a perspectiva da imensidão deste oceano é tão exemplar quanto intimidante. Com os músculos tensos, agarramos com firmeza nas pegas laterais do bote, tentando antecipar na linha do horizonte o contorno do nosso destino, para já invisível. 
Avançamos pelo canal que separa duas das ilhas desertas de Cabo Verde. À nossa esquerda, a ilha de Santa Luzia desenha na neblina matinal o seu relevo acidentado; à direita, a crista rochosa do ilhéu Branco rasga a superfície do mar. Dentro de 40 minutos chegaremos ao terceiro e pequeno ilhéu que completa a maior área protegida do arquipélago e cujo nome o faz adivinhar diferente dos anteriores: o Raso.

Dos arquipélagos que constituem a Macaronésia (do grego, ilhas afortunadas), Cabo Verde foi o último descoberto e colonizado.

Uma hora depois de partirmos de São Vicente, avistamos um panorama mais próximo daquele que os navegadores portugueses terão visto quando aqui chegaram na segunda metade do século XV. Dos arquipélagos que constituem a Macaronésia (do grego, ilhas afortunadas), Cabo Verde foi o último descoberto e colonizado. A primeira impressão do ilhéu Raso é fornecida pelas dezenas de aves marinhas que sobrevoam as falésias. Aproveitando as águas ricas que circundam o ilhéu, seis espécies diferentes elegem as suas encostas rochosas para nidificar. Sob esta imagem de prosperidade, porém, revela-se um passado marcado por eventos dramáticos. Diante dos nossos olhos está o motivo pelo qual a organização não-governamental (ong) Biosfera 1 luta há quase uma década pela protecção deste território.

Ao contrário do relevo predominantemente plano que justifica o topónimo de Raso, ao longe o Ilhéu Branco revela a sua quase inexpugnável configuração. Mais distante, avista-se a Ilha de Santa Luzia – a única das 10 ilhas principais que é desabitada.

O abate de cagarras para consumo humano é, em Cabo Verde, uma actividade tradicional que, com a generalização dos barcos a motor, ganhou uma dimensão preocupante. Em 2007, a Biosfera 1 mostrou ao mundo, através de um vídeo publicado na Internet, milhares de crias dizimadas e salgadas antes de serem vendidas não apenas em Cabo Verde, mas também 

exportadas para destinos da diáspora. Segundo José Melo, ex-técnico de pescas e um dos fundadores desta ong, não eram só as cagarras que sofriam com a crescente procura: “Rabos-de-junco, alcatrazes, almas-negras... Todas eram cagarras depois de tiradas as penas, abertas e salgadas.”

O abate de cagarras para consumo humano é, em Cabo Verde, uma actividade tradicional que, com a generalização dos barcos a motor, ganhou uma dimensão preocupante.

A espécie que existe no Raso (Calonectris edwardsii) é endémica de Cabo Verde e concentra aqui 75% da sua população. A urgência de repor a sua estabilidade e equilíbrio levou a
Biosfera 1 e a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves, com longa experiência na conservação de aves marinhas, a unirem esforços. Nesse âmbito, o ornitólogo Pedro Geraldes mudou-se para Cabo Verde para colaborar na campanha da Biosfera 1, que mobiliza avultados meios humanos e materiais para vigiar este ilhéu durante meses. “As cagarras são aves com grande longevidade, mas só põem anualmente um ovo.
O verdadeiro impacte destas campanhas de abate maciço é difícil de quantificar enquanto os indivíduos adultos não atingirem o limite da sua esperança de vida e as gerações abatidas não os possam substituir”, explica.

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