Elas inspiram-nos, confortam-nos e recordam-nos que a vida continua.

Texto Cathy Newman   Fotografia Diane Cook e Len Jenshel

PINHEIRO DO NOVO MUNDO, Floresta Nacional de Inyo, Califórnia, EUA - Convencido de que os anéis de crescimento das árvores poderiam revelar a história climática, o cientista Edmund Schulman palmilhou o Oeste dos EUA em busca dos espécimes mais antigos. Encontrou os Pinus longaeva e, em 1957, descobriu Matusalém, um pinheiro com 4.789 anéis. A árvore ainda vive, num local secreto protegido pelos serviços florestais. Em 1964, outro investigador extraiu amostras de novo espécime para avaliar a sua idade, mas a broca partiu-se. Quando a árvore foi cortada, descobriu-se que tinha 4.862 anéis e os cientistas perceberam que, inadvertidamente, tinham abatido a árvore mais antiga conhecida pelo homem.

Cada árvore conta uma história, mas algumas são mais eloquentes, guardando memórias, personificando crenças ou assinalando mágoas. As árvores fazem parte do nosso imaginário, com as suas estranhas configurações, em florestas habitadas pela fantasia e pelos nossos medos. Nas fábulas, a floresta é o lar de espíritos, bruxas, bestas e maldições. 
Incorporamos no quotidiano as metáforas proporcionadas pelas árvores: semeamos o que colhemos, assentamos raízes, as árvores morrem de pé; as ideias florescem e dão frutos; e, por vezes, encontramos uma clareira no meio da floresta.

No slideshow: “PEREIRA DOS SOBREVIVENTES” MEMORIAL DO 11 DE SETEMBRO, Nova Iorque, EUA - Depois de o atentado de 11 de Setembro de 2001 ter reduzido as torres do World Trade Center a carcaçasde metal, provocando a morte de 2.753 pessoas, o último ser vivo resgatado dos destroços foi uma pereira de Callery. Tornou-se um exemplar da botânica do sofrimento, mas também da resiliência. A árvore tem cicatrizes de um dos lados: o lado intencionalmente virado para o passeio principal por onde os visitantes circulam. “É para que possam ver o instante em que o mundo mudou”, comenta Ronaldo Vega, o antigo director de projecto do memorial.

 

As árvores inspiram-nos não só através da linguagem, como das ideias. As coordenadas mais famosas do atlas da inspiração convergem junto de uma árvore – uma macieira, cercada por uma vedação num pomar de Lincolnshire, Inglaterra. Diz-se ter sido ali, em 1666, que uma maçã caiu e levou um jovem chamado Isaac Newton a interrogar-se: o que faz aquela maçã cair sempre na perpendicular em relação ao solo?

 

CHOUPO, Floresta Nacional de Fishlake, Utah, EUA - Composto por 47 mil troncos de árvore cobrindo 43 hectares e pesando cerca de 5,9 milhões de quilogramas, o clone Pando é real. É um único organismo, um choupo que começou a sua vida como uma única semente – possivelmente há milhares de anos – e disseminou-se através de rebentos produzidos por um sistema de raízes em expansão. Os troncos são geneticamente idênticos e não têm mais de 150 anos, mas o sistema de raízes poderá ser o organismo vivo mais velho do planeta.

Um manuscrito redigido com a caligrafia fina do século XVIII existente nos arquivos da Royal Society assegura que Newton se ausentara de Cambridge e fora para casa quando entrou no seu jardim e descansou. O seu amigo e biógrafo William Stukeley comentou: “A ideia da gravidade surgiu na sua mente… ocasionada pela queda de uma maçã, enquanto ele estava sentado, contemplando a vida.” Outros autores, porém, consideraram que a metáfora da maçã foi mais tarde fabricada por Newton para abrilhantar a sua narrativa.

O GINKGO QUE DÁ BEBÉS, Tóquio, Japão - Segundo a tradição, esta árvore, que cresce no pátio do Templo Zoshigaya Kishimojin, em Tóquio, proporciona fertilidade a quem lhe presta culto. Embora a deusa Kishimojin seja uma divindade guardiã das crianças, o seu passado esconde uma história mais sinistra. Ela alimentava os seus filhos devorando os filhos dos outros. Para lhe ensinar uma lição, Buda escondeu um prato de esmolas num dos seus filhos. Aflita, Kishimojin dirigiu-lhe uma súplica e ele repreendeu-a pelo sofrimento causado. Adequadamente castigada, ela jurou, dali em diante, proteger todas as crianças. 

Não foi o primeiro momento eureka na história associado a uma árvore. Buda, por exemplo, terá alcançado a iluminação ao meditar sob uma figueira sagrada? As árvores convidam a sonhar. Uma história contada em muitas culturas relata como um monge, ao ouvir uma ave piar na floresta, descobriu que, num piscar de olhos, centenas de anos tinham decorrido. 
As árvores gravam a memória, mesmo a nível molecular. “Cada camada de crescimento que acrescentam a cada ano contém um pouco da atmosfera desse ano, transformada em carbono e, desse modo, a árvore regista fisicamente os anos de vida de uma cidade”, disse Benjamin Swett, autor de “New York City of Trees”, numa entrevista a uma estação de rádio.

MACIEIRA DE NEWTON, Lincolnshire, Inglaterra - A maçã que caiu da árvore diante da casa de Sir Isaac Newton, Woolsthorpe Manor, não atingiu o sábio na cabeça. Caiu, como as maçãs caem, em terra firme. Um relato publicado em 1752 assegura que o episódio deu origem a uma divagação que, com o tempo, cristalizou-se sob a forma da lei da gravidade. Uma tempestade derrubou a “árvore da gravidade” por volta de 1820, mas ela permaneceu enraizada e voltou a crescer. Fotografia com autorização do British National Trust.

Algumas memórias fazem doer a alma, como as evocadas pelo castanheiro que estava à porta do número 263 de Prinsengracht, em Amsterdão, onde a jovem Anne Frank e a família se esconderam dos nazis. A partir de uma janela no sótão, a única não tapada, Anne conseguia ver uma árvore que lhe mostrava as estações do ano antes de a Gestapo a levar, e à sua família, em 4 de Agosto de 1944. “Como poderia eu saber quanto significava para a Anne ver um pouco de céu azul… e quão importante era aquele castanheiro para ela”, escreveu anos mais tarde o seu pai, depois de ler o diário. Anne Frank morreu de tifo no campo de concentração de Bergen-Belsen, em Fevereiro de 1945. Tinha 15 anos. A árvore – enfraquecida pela doença – tombou durante uma violenta tempestade em 2010.

 

CIPRESTE DE MONTEZUMA, Santa María del Tule, Oaxaca, México - Alunos do sexto ano do Colégio Motolinía de Antequera alinham-se lado a lado em frente de um cipreste de Montezuma conhecido como a Árvore de Tule. O tronco, com 36 metros de circunferência e cerca de 11,5 metros de diâmetro, suporta uma copa quase do tamanho de dois campos de ténis. Na década de 1990, o governo mexicano redesenhou o traçado da Auto-Estrada Pan-Americana e aprovou a licença de construção de um poço para a árvore, de modo a mitigar os danos causados pelos fumos de escape e escassez de água.

Algumas memórias são colectivas, como as da inocência e perda incorporadas por outra árvore – a árvore do conhecimento do bem e do mal no Jardim do Éden. Nessa árvore, crescia a maçã da tentação e o preço a pagar por comê-la era o Inferno.
Se é possível que o lado sombrio da condição humana tenha começado sob uma árvore, então é adequado que a sua sombra nos console, como acontece com a de um olmo cercado por um muro baixo de granito na cidade de Oklahoma. No dia 19 de Abril de 1995, uma explosão planeada e concretizada por Timothy McVeigh, um veterano descontente, destruiu o Edifício Federal Alfred P. Murrah, com nove pisos, no centro da cidade, incinerando automóveis e ceifando 168 vidas.

 

EMBONDEIRO, Derby, Austrália - A árvore atarracada do embondeiro fornece água, alimento, remédio, abrigo e até túmulos aos aborígenes. Este embondeiro da região ocidental da Austrália é conhecido como árvore-prisão de Derby, mas isso é um erro, segundo a historiadora Kristyn Harman e a antropóloga arquitectural Elizabeth Grant. Embora a árvore tenha a reputação de ter servido de cela temporária ou local de paragem aos prisioneiros aborígenes que eram levados a caminho de Derby, Krystin e Elizabeth ridicularizam a história como “uma tentativa deliberada de apresentá-la como atracção de turismo macabro, mostrando os triunfos coloniais sobre o povo aborígene”.

Também queimou o tronco, arrancou as folhas e pulverizou de escombros o olmo com dez metros de altura num parque de estacionamento das proximidades. Actualmente, a “árvore sobrevivente” é um marco do Museu e Memorial Nacional da Cidade de Oklahoma, e consola pessoas como Doris Jones, cuja filha de 26 anos, Carrie Ann Lenz, grávida na altura, morreu na explosão. “Conforta-me olhar para ela”, disse Doris. “Uma coisa boa sobreviveu a um acto tão mau.”

 

NIM, Varanasi, Índia - No Norte da Índia, a árvore do nim é conhecida como cura para todos os males e uma manifestação da deusa hindu Xitala, uma figura maternal. Para os moradores do bairro que prestam culto à árvore no Templo de Nanghan Bir Baba, em Varanasi, ela representa muito mais. “O meu filho nasceu prematuramente… O médico disse-nos que ele iria, de certeza, morrer”, contou um homem a David Haberman, professor de religião da Universidade de Indiana, que registou a história. “Mas eu rezei a este nim e… ele sobreviveu.” A árvore está envolvida com panos e tem uma máscara com o rosto da deusa para reforçar a ligação entre ela e os fiéis.

O olmo tem agora mais de 12 metros de altura e uma copa com 18 metros de diâmetro. Em Novembro, metade das suas folhas douradas já caiu. Em Janeiro, parece um esqueleto estéril. Abril traz de volta o doce verde da renovação e, em Junho, está completamente vestido para o Verão. É assim que o relógio celestial ecoa no ciclo sazonal de uma árvore cujos ramos dão frutos de esperança. “É como se aquela árvore tivesse vontade de sobreviver”, diz Mark Bays, o especialista em silvicultura que ajudou na regeneração do exemplar. “Ela compreendeu, quando nenhum de nós o conseguia, que tinha de ficar por cá.”

MANGUEIRA, Naunde, Moçambique - Esta mangueira de Naunde, em Moçambique, oferece muito mais do que sombra face ao sol subsaariano. À semelhança de outras árvores comunitárias, é um ponto de encontro tradicional para contar histórias, oficiar cerimónias e regular a vida na aldeia. “É um local para reunir e conversar, resolver conflitos e acordar compromissos, colmatar divergências e promover a união”, escreveu nas suas memórias Kofi Annan, antigo secretário-geral das Nações Unidas, originário do Gana. “Se tivermos um problema e não conseguirmos descobrir uma solução, voltamos a encontrar-nos amanhã e continuamos a falar.”

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