Darwin não esteve no Gabão... mas poderia ter estado

 Nas florestas do Gabão, cientistas portugueses financiados pela National Geographic procuram mais peças para o puzzle da evolução.

 Texto e Fotografia Alexandre Vaz

Darwin descreveu o mandril como o mais colorido de todos os mamíferos, pois as cores vibrantes da face variam com a sua excitação. Hoje sabemos que as fêmeas preferem os machos mais coloridos.

Pendentes das folhas de palmeira e coqueiro, dezenas de ninhos de tecelões fazem lembrar bolas numa árvore de Natal. Das pouco mais de cem espécies de aves pertencentes a esta família, quase noventa são nativas de África. A forma como tecem elaborados ninhos com enorme precisão valeu-lhes o nome. Numa azáfama, cada macho constrói vários ninhos. Penduradas no exterior, as fêmeas examinam-nos diligentemente por dentro e por fora. Como seria de esperar, elas vão acasalar com os machos que fabricarem melhores ninhos. Este processo, aparentemente simples, é no entanto o que leva formas primitivas de vida a evoluir a ponto de serem capazes de construir catedrais ou compor sinfonias.
Darwin foi o primeiro a percebê-lo. Curiosamente, mais de 150 anos após a publicação da sua obra fundadora, apesar de as suas ideias não serem ainda universalmente aceites, a proposta continua a surpreender pela sua perspicácia e clarividência. Os tentilhões das Galápagos que serviram de modelo à sua teoria colocavam a tónica nas adaptações tróficas enquanto força motriz do processo evolutivo. Um ano após a publicação de “A Origem das Espécies”, Darwin escrevia numa carta ao seu colega norte-americano Asa Gray que ficava doente só de ver a cauda do pavão. Esta não parecia constituir uma mais-valia adaptativa. A cauda do pavão não é mais do que um bom exemplo de algo comum a muitos animais: a ostentação de adornos que interferem com a mobilidade ou que os tornam conspícuos a predadores.

Um ano após a publicação de “A Origem das Espécies”, Darwin escrevia numa carta ao seu colega norte-americano Asa Gray que ficava doente só de ver a cauda do pavão.

Darwin não desmoralizou perante esta perplexidade e viria a perceber que a selecção, mais do que favorecer a capacidade de sobrevivência do indivíduo, favorece a sua capacidade de gerar descendência. Assim, um adorno incómodo que diminua as hipóteses de um macho escapar a um predador pode evoluir se permitir a esse macho gerar mais descendência do que seria possível mesmo que tivesse uma longevidade mais elevada. Como é isto possível? A resposta, revolucionária na altura, também veio de Darwin. A reprodução não é para todos: as fêmeas constituem um recurso limitado porque são elas que escolhem os machos. Quem não é escolhido está fora de jogo e não transmite os seus genes às gerações seguintes. Esta escolha dos machos pelas fêmeas constitui por isso uma pressão selectiva fortíssima a que Darwin chamou “selecção sexual”, termo que ainda utilizamos.
Apesar de toda a sua genialidade, Darwin não conseguiu compreender, até porque não conhecia as implicações da genética, os motivos pelos quais determinadas características são seleccionadas em detrimento de outras. A hipótese por ele avançada de que as escolhas se baseavam em critérios estéticos pode parecer pitoresca. No entanto, se pensarmos melhor, embora não seja rigorosa, talvez não seja absurda. A imensa subjectividade da estética radica provavelmente em características que podem acarretar consequências para a nossa sobrevivência ou bem-estar. A proposta revolucionária de Darwin ficou limitada por aquilo que a vista desarmada não conseguia alcançar e hoje, com tecnologias mais avançadas, investigadores de todo o mundo continuam a completar o mapa que ele começou.

Muitas árvores abatidas são transportadas pelos rios em jangadas improvisadas. Os troncos que se extraviam acabam perdidos na praia, onde os lagartos do género Agama os usam em exibições. Esta fêmea mantém-se atenta às movimentações dos machos coloridos.

É precisamente isso que traz ao interior do Gabão três investigadoras, com o apoio de uma bolsa de investigação da National Geographic. Rita Covas, do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos da Universidade do Porto (CIBIO), conheceu Claire Doutrelant ainda em licenciatura, quando esteve, ao abrigo do programa Erasmus, no Centre Nationale de Recherche Scientifique (CNRS) em Montpellier. Depois, durante o doutoramento na África do Sul, dedicado a outra espécie de tecelão, ambas começaram a colaborar e actualmente desenvolvem projectos em comum. Elisa Lobato, de nacionalidade espanhola e actualmente a fazer um pós-doutoramento no CIBIO, veio participar no projecto com a sua experiência no campo da imunoecologia.
O Gabão é um país da África Ocidental atravessado pelo equador e que tem uma área três vezes superior à de Portugal, mas apenas um sexto da população. Os primeiros europeus que aqui desembarcaram foram precisamente os navegadores portugueses quatrocentistas, que cunharam o nome Gabão devido à forma do estuário do rio Komo, similar a um capote ou casaco (gabão em português arcaico).

Mais de 80% da sua superfície é ocupada por florestas tropicais que fazem parte da imensa mancha verde congolesa, a segunda maior floresta tropical do mundo.

Mais de 80% da sua superfície é ocupada por florestas tropicais que fazem parte da imensa mancha verde congolesa, a segunda maior floresta tropical do mundo. Foi aqui que em 1999 o biólogo J. Michael Fay terminou um périplo de mais de três mil quilómetros a pé, em missão financiada pela National Geographic Society [ver edições de Junho, Julho e Agosto de 2001]. Rico em recursos e com uma pequena população, o país tem uma situação socialmente favorável quando comparada com a da maioria dos países vizinhos, condições que tornaram possível criar uma rede de áreas protegidas. Ainda assim, notícias recentes dão conta do abate ilegal e descontrolado de elefantes e nem as áreas protegidas parecem escapar às concessões das empresas madeireiras.
Aquilo que traz a equipa de investigadoras a este país não é curiosamente uma única espécie, mas sim a possibilidade de aqui encontrar espécies que também ocorrem nas ilhas do golfo da Guiné, que se situam à mesma latitude e onde o habitat é razoavelmente similar.
Um conjunto de características comuns a muitas populações insulares como variantes gigantes ou anãs ou uma tendência para a redução dos ornamentos constituem sintomas daquilo que os investigadores apelidam de “síndrome de insularidade”. A compreensão deste processo pode ajudar a encontrar respostas para as perguntas que Darwin deixou por responder.

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