Jane Goodall, uma vida entre chimpanzés

"A minha vida entre chimpanzés", reportagem publicada na edição de Agosto de 1963 da National Geographic, relata as observações pioneiras de Jane Goodall  sobre os chimpanzés. O conhecido paleontólogo L. S. B. Leakey promoveu a sua investigação, e as bolsas da National Geographic Society financiaram-na. Jane Goodall é uma das oradoras do National Geographic Summit no dia 25 de Maio, em Lisboa.

Texto  baronesa Jane van Lawick-Goodall   Fotografias  barão Hugo van Lawick

Goodall abertura

Jane Goodall segura a bandeira da National Geographic Society para que David Greybeard a inspeccione. David acabou por decidir não a mastigar: estava demasiado limpa! Kodachrome © NGS.

Com as articulações entumecidas, mas felizes por estarmos de volta, saltámos para a margem, abandonando o barco que nos transportara nos últimos quilómetros pelo lago Tanganica. Uma tempestade de Abril formava-se no horizonte, pelo que nos apressámos a guardar as malas e o equipamento debaixo de lonas, no velho acampamento junto ao lago.
A chuvada tropical desabou de repente. Estávamos a transferir as coisas para as preservar do dilúvio que escorria por um rasgão na tenda, quando o meu marido, Hugo, agarrou no meu braço e apontou. “É a família de Flo!”, exclamei, sem acreditar no que os meus olhos viam. Três chimpanzés encharcados acocoravam-se sob uma pequena figueira em frente à tenda. Lá estava a rija e velha Flo com Figan, de sete anos, e a pequena Fifi, com apenas quatro anos e meio. De súbito, Flo levantou uma das mãos e vimos um quarto chimpanzé! Apesar da rapidez da observação, distinguimos nitidamente uma minúscula criatura de pêlo negro, agarrada ao ventre quente e seco da sua mãe.

Goodall 1

Por favor, pára de me fazer cócegas! Fifi, uma chimpanzé com cinco anos da Reserva de Caça do Rio Gombe, na Tanzânia, afasta a mão da sua companheira humana de brincadeiras, a baronesa Jane van Lawick-Goodall. Flint, o irmão de Fifi, com apenas um ano de idade, assiste à cena. A jovem cientista britânica  tornou-se a principal autoridade sobre a vida destes primatas em liberdade. Ektachrome © NGS.

Uma breve mensagem em suaíli acelerara a nossa partida de Londres, de regresso à Reserva de Caça do Rio Gombe, junto ao lago Tanganica. Ali, entre montes cobertos de erva e vales frondosos, passáramos quatro anos a estudar os comportamentos dos chimpanzés selvagens.
“Flo amekwisha kuzaa”, anunciava a carta do nosso cozinheiro Dominic, que cuidava do acampamento na nossa ausência: “Flo teve o bebé.” Não pudemos partir imediatamente, porque eu precisava de terminar primeiro o semestre na Universidade de Cambridge e, no dia 28 de Março de 1964, esperava-nos um compromisso bastante importante: o nosso casamento. Depois de apenas três dias de lua-de-mel, regressámos à África Oriental para vermos o novo bebé de Flo.

Pouco a pouco foram-me aceitando e eu comecei a perceber as regras pelas quais se pautava o seu comportamento.

Agora, enquanto ali estávamos (os chimpanzés, Hugo e eu), aguardando que a tempestade passasse, recordei os primeiros tempos difíceis, durante os quais usara a mesma velha tenda como refúgio, quando os símios se dispersavam, assustados, ao avistarem o estranho primata sem pêlo que invadira o seu território.
Porém, pouco a pouco foram-me aceitando e eu comecei a perceber as regras pelas quais se pautava o seu comportamento. Descobri que, quando andam pelas montanhas em busca de alimento, deslocam-se em grupos temporários formados essencialmente com base em amizades pessoais e dormem como verdadeiros nómadas – no local onde o anoitecer os surpreende.
Mais importante, contudo, foi descobrir que estes chimpanzés utilizam – e chegam mesmo a fabricar – utensílios toscos para capturar e comer formigas e térmitas. Em último lugar, presenciámos e gravámos em filme a estilizada e admirável exibição de um chimpanzé a que chamámos a “dança da chuva”.

goodall 3

O terreno montanhoso da Reserva de Caça do Rio Gombe funciona como laboratório. Jane mudou o seu acampamento de lugar duas vezes, afastando-o mais para o interior relativamente ao lago Tanganica, onde a actividade humana inibe os chimpanzés e altera o seu comportamento (mapa). O Acampamento Antigo, na margem do lago, atrai pessoas e símios: um pescador vem pedir medicamentos a Jane (em cima).  Kodachrome © NGS.

No entanto, só passados vários meses de observação principiei a compreender a subtileza das relações entre os chimpanzés e a complexidade da comunicação entre eles. Isso começou a ser possível graças a David Greybeard [David Barba-Cinzenta] que, em 1962, veio ao acampamento e aceitou uma banana da minha mão. Na esperança de partilhar a mesma sorte, seguiram-se os seus amigos, primeiro Goliath e William e, depois, outros – entre os quais Flo e os seus filhos.
Chegou então o dia, depois de quatro anos a cuidar da sua filha Fifi, em que Flo voltou a ser sexualmente atraente. Foi seguida até ao acampamento por uma comitiva de 15 machos, que reuniram coragem suficiente para tentar roubar algumas bananas. A partir de então, nunca mais deixaram de voltar.
Nesse instante, apercebemo-nos da magnífica solução que tínhamos encontrado: podíamos fazer observações regulares, num único local, dos diversos membros desta comunidade nómada. Foi assim que o Banana Club, nascido de maneira tão casual, se transformou num sistema de alimentação organizado que daria resultados de significado científico transcendente: um dos mais importantes foi o registo contínuo por nós feito do desenvolvimento da nova cria, que víamos agora tão incrivelmente perto, aninhada no colo da mãe.

De imediato, a cria, a que mais tarde chamaríamos Flint, largou o pêlo de Flo.

Por fim, a chuva abrandou. Hugo pegou em algumas bananas e Flo desceu da árvore. Aconchegando a sua cria entre o ventre e a coxa, caminhou sobre três patas na nossa direcção, seguida da pequena Fifi e do jovial Figan. Enquanto apertava a cria contra o peito com a mão, Flo pegou calmamente numa banana.
De imediato, a cria, a que mais tarde chamaríamos Flint, largou o pêlo de Flo com a mão, estendeu os dedos cor-de-rosa e voltou a agarrar-se a ela. Depois, rodou a cabeça e foi então que vimos o rosto pálido, os olhos escuros e brilhantes e um dos lados da minúscula e engraçada boca, antes de ela enfiar de novo a cabeça na pelagem de Flo. Começou a mamar ritmada e ruidosamente, enquanto Flo mastigava as suas bananas.

Descubra uma nova visão do mundo!

Assine a National Geographic.