A vida invisível dos pequenos felinos

Eclipsados pelos seus primos de maior porte, os pequenos felinos selvagens do planeta merecem o seu lugar ao sol.

Texto Christine Dell’ Amore   Fotografia Joel Sartore

CARACAL - Predadores consumados, alguns felinos selvagens de pequeno porte conseguem capturar presas maiores do que eles. O caracal, oriundo da Ásia e de África, tem cerca de meio metro de altura, mas já foi filmado a saltar vedações com mais de três metros de altura para atacar ovelhas. Caracal caracal, fotografado no Jardim Zoológico e Aquário de Columbus, EUA.

“Ela anda aqui muito perto”, sussurra Germán Garrote, apontando para um receptor portátil que capta o sinal de Helena. Algures neste olival, junto de uma auto-estrada movimentada no Sul de Espanha, a fêmea de lince-ibérico e as suas duas crias estão provavelmente a observar-nos. Se não fosse a coleira transmissora, nunca saberíamos que um dos felinos mais raros do mundo está escondido entre fileiras alinhadas de árvores. Aos 5 anos, Helena aprendeu a fundir-se na paisagem humana, tornando-se invisível. Chega ao ponto de esconder as crias recém-nascidas numa casa vazia durante uma festa ruidosa da Semana Santa.

Pequenos felinos na ribalta
Avanços nas sequências de genótipos revelam que as 31 espécies de felinos de pequeno porte do planeta derivam de sete linhagens diferentes, cada uma designada em função da primeira espécie descoberta no ramo. Embora as chitas e pumas modernos sejam grandes em tamanho, geneticamente são parentes mais próximos dos felinos de pequeno porte.

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Rosnar vs. ronronar
Grandes e pequenos felinos separaram-se há 11,5 milhões de anos. Uma forma de distingui-los é pelo som. A maioria dos felinos de grande porte tem um osso flexível no pescoço chamado hióide, que lhes permite esticar a laringe para rosnar. Nos pequenos felinos, o hióide apresenta-se endurecido, o que os impede de rosnar, mas ainda lhes permite ronronar.
Gráfico
Daisy Chung. Fontes: UICN (2016); William Murphy, Universidade Texas A&M; Luke Hunter, Panthera; Andrew Kitchener, Museu Nacional da Escócia.

“Há dez anos, não conseguiríamos imaginar linces a reproduzir-se num habitat como este”, conta Germán, biólogo do projecto Life+Iberlince, grupo liderado pela administração pública e composto por mais de vinte organizações que desenvolvem colaboração para restaurar a distribuição deste predador malhado na Península Ibérica, incluindo naturalmente Portugal. Sob uma canícula abrasadora, com o trânsito correndo atrás de nós, Germán conta que o futuro do felino é a sobrevivência em zonas fragmentadas. “O lince pode ter mais plasticidade ecológica do que pensávamos”, observa.
Com efeito, o felino de olhos cor de âmbar e barbicha desalinhada começa agora a recuperar, após décadas de declínio. Em 2002, ano em que a Iberlince iniciou esforços para salvar o lince, existiam menos de cem felinos disseminados pelo mato mediterrâneo: o número fora reduzido pela caça e por um vírus que quase eliminou os coelhos, o alimento principal do lince. A população de linces era tão pequena que a diversidade genética era perigosamente baixa, tornando-se vulnerável a doenças e anomalias congénitas.

Felizmente para os cientistas, os linces reproduzem-se bem em cativeiro e, a partir de 2010, 176 animais foram cuidadosamente reintroduzidos em habitats seleccionados.

Felizmente para os cientistas, os linces reproduzem-se bem em cativeiro e, a partir de 2010, 176 animais foram cuidadosamente reintroduzidos em habitats seleccionados. Quatro centros de reprodução e um jardim zoológico criaram a maioria dos felinos. Todos os animais libertados foram equipados com coleiras de monitorização. Sessenta por cento dos linces reintroduzidos sobreviveram e alguns ultrapassaram as expectativas.
Dois linces fizeram uma “espectacular travessia da Península Ibérica”, percorrendo mais de 2.400km até um novo território, conta o biólogo Miguel Simón, director do programa de reintrodução. A equipa trabalha de perto com proprietários privados para ganhar a sua confiança e convencê-los a acolher o lince nas suas terras. Em 2012, quando a população atingiu 313 exemplares (cerca de metade dos quais com idade suficiente para acasalar), a União Internacional para a Conservação da Natureza actualizou o estatuto do lince de “em perigo crítico” para “em perigo”.
Não muito longe do olival, escondo-me sob a sombra fresca de uma conduta de escoamento que corre por baixo da auto-estrada. Automóveis e camiões são os principais responsáveis pela morte do lince e, por isso, Miguel e a sua equipa colaboram com o Estado para alargar estas passagens para a vida selvagem. Miguel agacha-se, apontando para as pegadas de um animal na areia. Uma delas pertence a um texugo, diz, mas a outra é de uma pata de lince! Helena pode ter passado por aqui há poucos minutos.

No slideshow: tímidos e raramente vistos, os felinos de pequeno porte não se mostram. Das 38 espécies de felinos selvagens no mundo, 31 são considerados de pequeno porte.  Variam de tamanho, habitam cinco dos sete continentes do mundo e estão adaptados a uma variedade de ambientes naturais. A maioria permanece pouco estudada e recebe escassos apoios.

Gato-leopardo
Jaguarundi
Gato-bravo-dourado-da-ásia (melanístico)
Gato-bravo.
Gato-leopardo
Gato-de-geoffroy
Gato-bravo-africano
Margaí
Gato-do-deserto
Gato-vermelho-malhado
Serval

De volta ao sol, pergunto a Miguel o que pensam as populações sobre o seu felino nativo. Ele faz uma pausa, surpreendido com a pergunta. Todos conhecem o lince ibérico, diz. É uma figura nacional adorada.
No entanto, o mesmo não se aplica à maioria dos parentes do lince. Das 38 espécies de felinos selvagens do mundo, 31 são consideradas de pequeno porte. Variando de tamanho entre o gato-vermelho-malhado (com 1,5kg) e o lince-europeu (com 20kg), habitam cinco dos sete continentes do mundo (exceptuando portanto a Oceânia e a Antárctida) e estão magnificamente adaptados a uma variedade de ambientes naturais, desde desertos a florestas tropicais e parques urbanos. Infelizmente, estes membros menores da família Felidae também vivem sob as longas sombras projectadas pelos seus primos de maior porte, os grandes felinos: leões, tigres, leopardos, jaguares e outros do género. Estas espécies famosas atraem a quase totalidade da atenção e do dinheiro dedicados à conservação, embora 12 dos 18 felídeos selvagens mais ameaçados do mundo até sejam de pequeno porte.
Segundo uma estimativa de Jim Sanderson, especialista em felinos de pequeno porte e director de programas da organização Global Wildlife Conservation, mais de 99% dos fundos investidos em felídeos selvagens desde 2009 foram aplicados em jaguares, tigres e outros felinos de grande porte. Por consequência, vários felinos de pequeno porte são alvo de poucos estudos ou mesmo nenhuns. 

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