Como o degelo no Alasca está a revolucionar a arqueologia

O aumento das temperaturas no Alasca está a expor artefactos nativos anteriormente congelados no tempo. 

Texto A.R. Williams   Fotografia Erika Larsen

Emma Frances Echuck e a filha Valerie secam salmão na aldeia de Quinhagak. 

O sítio arqueológico de Nunalleq, no Alasca, conserva um momento fatal congelado no tempo. O quadrado lamacento está juncado de objectos do quotidiano que os yupik costumavam utilizar para sobreviver. Foram aqui encontrados tal como estavam no dia em que sofreram um ataque mortífero há cerca de quatro séculos.
Em redor do perímetro do que outrora foi uma vasta estrutura de turfa encontram-se vestígios do fogo ateado para expulsar os moradores pelo fumo – cerca de cinquenta pessoas que aqui residiam até  partirem em expedições de caça, pesca ou recolha de plantas. Segundo tudo indica, ninguém foi poupado. Esqueletos de mulheres, crianças e anciãos foram descobertos juntos, de rosto voltado para baixo, contra a lama, dando a entender que foram capturados e assassinados. 

Como frequentemente acontece em arqueologia, as tragédias de há muito transformam-se em tesouros para a ciência moderna.

Os arqueólogos encontraram mais de 2.500 objectos intactos em Nunalleq, desde utensílios para alimentação a artefactos extraordinários como máscaras rituais de madeira, agulhas de tatuagem de marfim e um cinto construído com dentes de rena.
Como frequentemente acontece em arqueologia, as tragédias de há muito transformam-se em tesouros para a ciência moderna. Os arqueólogos encontraram mais de 2.500 objectos intactos em Nunalleq, desde utensílios para alimentação a artefactos extraordinários como máscaras rituais de madeira, agulhas de tatuagem de marfim e um cinto construído com dentes de rena.

Num sítio arqueológico das redondezas, artefactos como esta máscara estão a emergir do solo permanentemente gelado (permafrost), à medida que este descongela. Todos os artefactos provenientes do Projecto Arqueológico de Nunallwq (Departamento de Arqueologia da Universidade de Aberdeen, em parceria com a Village Corporation Qanirtuuq, INC., e com a aldeia Yupik de Quinhagak).

Os objectos apresentam-se assombrosamente bem preservados, pois permaneceram congelados no solo desde cerca de 1660. Rick trabalha na Universidade de Aberdeen, mas identificou aqui uma ligação entre a destruição deste sítio e as velhas lendas ainda hoje lembradas pelos yupik. A tradição oral preserva memórias de uma época designada pelos historiadores por Guerras de Arco e Flecha. Durante o conflito, as comunidades yupik travaram entre si batalhas sangrentas algum tempo antes de os exploradores russos chegarem ao Alasca no século XVIII. Nunalleq proporciona as primeiras provas arqueológicas – e a primeira datação segura – deste período de terror, com repercussões sobre várias gerações de yupik.

Na actualidade, a violência das condições climáticas deixou Nunalleq à beira do esquecimento.

De acordo com Rick Knecht, os ataques poderão ter sido uma consequência de alterações climáticas: um período de arrefecimento da Terra, com 550 anos de duração, conhecido como Pequena Era Glaciária, que coincidiu com a ocupação de Nunalleq. Os anos mais frios da vida no Alasca durante o século XVII devem ter sido tempos de desespero, com incursões bélicas provavelmente desencadeadas para roubar alimentos. 
“Sempre que acontecem alterações rápidas, registam-se profundas perturbações dos ciclos de subsistência sazonais”, diz o arqueólogo. “Numa situação extrema, como uma Pequena Era Glaciária ou como a actualidade, as alterações podem ocorrer mais depressa do que a capacidade de adaptação humana.”
Na actualidade, a violência das condições climáticas deixou Nunalleq à beira do esquecimento. No Verão, tudo parece perfeito. Com a chegada do Inverno, o mar de Bering desencadeia tempestades brutais e a paisagem muda. As vagas rebentam contra a estreita orla marítima e arrastam o que resta do sítio arqueológico. 

Este ulu, ou ferramenta de corte, foi retirado do solo durante o degelo. Corporizando a crença dos yupik de que tudo se encontra constantemente em transição, o cabo pode ser visto ora como foca, ora como baleia. 

O Árctico nem sempre foi assim, mas as alterações climáticas globais estão neste momento a afectar as regiões polares da Terra. O resultado é uma perda catastrófica de artefactos oriundos de culturas pré-históricas mal conhecidas ao longo de toda a orla costeira do Alasca e mais além. Ötzi, o homem do Paleolítico cujo corpo foi encontrado em 1991, com o retrocesso de um glaciar italiano, é o mais famoso exemplo de antigos restos mortais trazidos à luz do dia pelo aquecimento climático, mas o degelo generalizado está a pôr a descoberto vestígios de povos e civilizações do passado nas regiões setentrionais do globo – desde arcos e flechas do Neolítico na Suíça a bâtons de ski da época viking na Noruega e túmulos sumptuosamente recheados de nómadas citas na Sibéria. São tão numerosos os sítios arqueológicos em perigo que os arqueólogos começam a especializar-se no resgate de artefactos outrora congelados.

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