Os médicos do mármore português

Um capricho da natureza criou a silhueta de um cachalote numa rocha. O bloco explica o efeito de alteração cromática natural da pedra, problemática que o projecto ColourStone procura agora estudar.

Obra polémica à época, foi difícil encontrar localmente matéria-prima para alimentar um complexo daquela dimensão. Como o  governo de então pretendia a conclusão da obra num curto espaço de tempo (cerca de três anos), foi necessário encontrar matéria-prima em diferentes pedreiras – vicissitude que fica bem à vista do visitante que aproximar o olho das paredes do CCB e apreciar a paleta de tons brancos e rosas que ali figura desde então, como se o gigante de pedra sofresse de múltiplos eczemas.
Embora a extracção ocorra em cenários poeirentos, é no laboratório que a ciência cria soluções para os problemas do terreno. No HERCULES, em Évora, são criadas soluções para melhor conhecimento da pedra, procurando tornar mais eficiente a exploração do ponto de vista industrial e ambiental. 

Embora a extracção ocorra em cenários poeirentos, é no laboratório que a ciência cria soluções para os problemas do terreno.

Samuel Neves dá o seu contributo através do mapeamento 3D das pedreiras. Empoleirado num amontoado de rochas, mantém os olhos focados no comando remoto de um drone, que levanta uma nuvem de pó ao descolar. O objectivo é fotografar o terreno e construir um mapa tridimensional de cada pedreira. Assim terá indicações sobre o ângulo ideal de corte da pedra, onde começar, que zonas evitar, aumentando a produtividade e reduzindo o desperdício e impacte ecológico.
Em Vila Viçosa, encontramos por fim dois exemplos antagónicos de arquitectura, mas que partilham o uso da pedra. Um dos grandes ícones da construção com mármore em Portugal, o Paço Ducal de Vila Viçosa, pertenceu à família real. Não muito longe do Paço, o luxo abunda num dos mais recentes hotéis de 5 estrelas da região, cujo nome não engana: Marmoris. Poderia ser apenas mais uma unidade hoteleira, mas tem uma história curiosa. 

No coração de uma das mais vibrantes metrópoles europeias, a Catedral de Milão exibe a sua esplendorosa fachada recoberta a mármore. Um mito muitas vezes repetido assegura que, na construção do monumento, foi utilizada matéria-prima portuguesa, mas não existem até à data provas documentais que o suportem.

Os seus proprietários são industriais da pedra e construíram a unidade com um objectivo peculiar: procuraram que o Marmoris servisse também de show room para os seus clientes mais especiais. Nas paredes e solos do hotel, podem ser apreciadas pedras de diferentes tipos e até proveniências geográficas. 
De regresso a Estremoz, trabalhadores de roupa esbranquiçada pelo pó de pedra vão saindo no final de mais um turno. Ainda que de forma invisível, o seu futuro e o desta indústria estão ligados à ciência que floresce nos laboratórios, mostrando a aplicabilidade da investigação académica na vida quotidiana.

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