Os médicos do mármore português

Do telhado ganha-se uma perspectiva diferente sobre o Centro Cultural de Belém, edifício emblemático de Lisboa que necessitou de 36 mil metros quadrados de placas de calcário abancado de Pêro Pinheiro só para o revestimento das suas paredes.

Aos solavancos, num jipe que o geólogo Luís Lopes faz evoluir por caminhos enlameados, aproximamo-nos de Fonte da Moura, perto de Vila Viçosa. À distância, apenas uma concentração invulgar de gruas e guindastes, como membros articulados de aracnídeos gigantes, denuncia a sua localização. Quando nos debruçamos sobre o parapeito suspenso a mais de cem metros sobre o vazio, porém, o ritmo cardíaco altera-se instantaneamente! 

As marcas de exploração da pedra no território remontam ao século I d.C., mas só com a revolução industrial esta ganhou dimensão.

Lá em baixo, máquinas liliputianas movimentam-se. A acção parece desenrolar-se em câmara lenta, dada a escala. Ruben Martins, outro dos investigadores do projecto, explica que, ao longo dos 40 quilómetros do anticlinal de Estremoz (região privilegiada pelo mármore de grande qualidade), existem mais de quinhentos locais com vestígios de extracção. As marcas de exploração da pedra no território remontam ao século I d.C., mas só com a revolução industrial esta ganhou dimensão. 
Em 1987, laboravam aqui 287 pedreiras. Actualmente, esse número reduz-se a apenas 40 – embora de grande dimensão. Mesmo assim, a exportação nacional de rochas ornamentais gerou 372,7 milhões de euros em 2013 – o último ano para o qual existem dados consolidados. Os sintomas da indústria são evidentemente saudáveis, mas tudo pode mudar numa fracção de segundo geológico.

Luís Dias prepara uma amostra de pedra calcária num micro-difractómetro de raios X com o objectivo de analisar a sua constituição mineralógica. 

Centenas de quilómetros a norte, no maciço das serras de Aire e Candeeiros, encontra-se outro dos principais núcleos extractivos de rocha. Aqui é o calcário que reina. Parte da extracção tem lugar numa área protegida, o que exige uma gestão delicada e nem sempre consensual.  
À semelhança de Estremoz, há sinais de alarme nestas paisagens de relevo suave. Se por um lado as exportações têm aumentado, por outro têm sido muitas as pedreiras a encerrar por incapacidade de se manterem competitivas. Marco Aniceto, engenheiro da Solancis, uma das empresas parceiras do ColourStone, parece minúsculo à distância, no meio da gigantesca pedreira do Vale da Moita, onde até já foi filmado um videoclip para a MTV. 
Enquanto dá orientações aos quatro trabalhadores da pedreira, explica: “Muitas empresas acabam por ficar reféns da especulação e de políticas negociais agressivas. A capacidade de se modernizarem é essencial para poderem manter-se competitivas, e os projectos com a Universidade de Évora são exemplos de como a indústria e o meio académico podem colaborar com acções práticas concretas, que têm impacte no dia-a-dia.” 

O mármore sempre foi um material cobiçado e é usado abundantemente num dos exemplos máximos da arquitectura gótica centro-europeia: a Catedral de Milão. Demorou quatro século até ser terminada.

Enquanto isto, um rugido rouco ecoa atrás de nós: uma pá carregadora com o custo aproximado do de um Ferrari, eleva no ar, como se de uma pena se tratasse, um bloco maciço de 28 toneladas, pronto a seguir caminho para a fábrica!
O mármore sempre foi um material cobiçado e é usado abundantemente num dos exemplos máximos da arquitectura gótica centro-europeia: a Catedral de Milão. Demorou quatro século até ser terminada. Construída com pedra de Condoglia, a escala é de tal forma megalómana que a lenda diz que em Itália não havia matéria-prima suficiente e que parte do mármore teria sido adquirido em Estremoz. Embora este facto seja repetido, não se encontraram até à data fontes documentais que o comprovassem. Em contrapartida, um fenómeno similar aconteceu, de facto, há apenas alguns anos, em 1989, com a construção do Centro Cultural de Belém (CCB), em Lisboa. 

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