Os médicos do mármore português

Os projectos ColourStone e Calcitec juntam cientistas e industriais em investigações que procuram compreender melhor os processos de transformação das rochas ornamentais. No mundo de gigantes de pedra, são as diferenças microscópicas que contam.

Texto e Fotografia António Luís Campos

No núcleo de pedreiras de Fonte da Moura (Pardais), diversas empresas partilham a cavidade mais profunda no Triângulo do Mármore Estremoz-Borba-Vila Viçosa, ultrapassando os 150 metros de profundidade.

Às portas de Estremoz, muitas das estradas secundárias conduzem o viajante a uma inesperada visita às entranhas da terra. 
 Quilómetro após quilómetro, a paisagem multicolor é entrecortada por gigantescas pedreiras que rasgam a rocha terra adentro, dezenas ou até centenas de metros em direcção ao subsolo. Ali impera o mármore, a mítica pedra do Renascimento. Esta é uma das mais importantes regiões mundiais para a extracção deste material que a geologia conspirou para tornar aqui diversificado e abundante.

Do ponto de vista comercial, a cor é a característica mais importante da pedra natural e a sua alteração traduz um grave problema, com consequências na valorização do produto exportado.

Um esforço metódico e subtil é levado a cabo diariamente por cientistas e técnicos de obra para desvendar os segredos que milhões de anos encerraram nesta rocha. A cor é uma das variáveis mais difíceis de prever, quer na pedreira quer nas diferentes obras arquitectónicas, condicionando muitas vezes a viabilidade da produção e da exportação de determinada pedra. Do ponto de vista comercial, a cor é a característica mais importante da pedra natural e a sua alteração traduz um grave problema, com consequências na valorização do produto exportado. Em monumentos, os processos de descoloração criam padrões inestéticos. 
Esta problemática, com consequências económicas profundas no tecido social das regiões de Estremoz, Leiria ou Santarém, tem vindo a ser encarada como um desafio científico. Alguns industriais juntaram esforços à equipa de investigadores da Universidade de Évora, que acolhe o laboratório HERCULES e o Instituto de Ciências da Terra, para estudar os fenómenos que levam a alterações na cor da pedra. Na sequência de uma investigação anterior (o projecto INOVSTONE), os projetos CalciTec e ColourStone apoiam a investigação científica aplicada coordenada pelo geólogo José Mirão. 
A investigação “pretende explicar, recorrendo a metodologias geoquímicas, mineralógicas e bioquímicas, como evolui cromaticamente o mármore e o calcário”, diz este especialista. “A cor é um dos principais elementos que condicionam a decisão do cliente e o valor do material. Procuramos saber como a coloração original de cada rocha acontece naturalmente e depois como evolui com o tempo.” 

Não é apenas um imperativo estético. Se a pedra de uma fachada mudar de cor, destoando das restantes, o dono de obra pode exigir a sua substituição – uma reivindicação cara, morosa e por vezes tecnicamente difícil.

Têm vindo a ser desenvolvidas metodologias práticas que antecipam a cor do bloco de rocha durante a exploração da pedreira e o seu comportamento futuro. Numa expressão, a equipa pretende “criar uma espécie de Cartão de Cidadão da pedra!” 
Não é apenas um imperativo estético. Se a pedra de uma fachada mudar de cor, destoando das restantes, o dono de obra pode exigir a sua substituição – uma reivindicação cara, morosa e por vezes tecnicamente difícil. Conhecendo a fundo as características da pedra, o comprador saberá (e aceitará) a priori como esta vai progredir com o tempo.
À primeira vista, a rocha não deveria mudar de cor, mas as alterações acontecem por poluição ambiental, por colonização biológica e por alteração mineral. Na pedreira da Benedita, existe aliás uma estrutura que se assemelha à silhueta de um cachalote. A rocha, originalmente, é acinzentada, mas, devido a fissuras, a água vai penetrando do exterior para o interior, reagindo quimicamente e clareando-a. De certa forma, o cachalote vai mudando a cor da pele e isso é inaceitável para muitos investidores que aqui adquirem a matéria-prima.

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