O enigma de São Tomé e Príncipe, ou um segredo por revelar

O ornitólogo Martim Melo retira uma preciosa amostra de um bico-grossudo. 

Apesar do número relativamente reduzido de espécies de aves no país (cerca de 140), a sua taxa de endemismo é admirável: 28 não existem em mais nenhum lugar do mundo. Estes dados não são irrelevantes porque, das cerca de dez mil espécies de aves no mundo, um quarto são endémicas de regiões bastante restritas (com menos de 50.000km2) que, agregadas, cobrem cerca de 5% da superfície terrestre. Das 218 áreas de aves endémicas classificadas internacionalmente, 77% localizam-se nas regiões tropicais ou subtropicais e cerca de metade corresponde a territórios insulares. Relativamente à sua dimensão, São Tomé e Príncipe tem o maior número de aves endémicas do mundo. 
Ricardo Lima, um ornitólogo português actualmente a concluir um doutoramento na Universidade de Lancaster sobre o impacte que as práticas agrícolas e florestais têm nas aves de São Tomé, cruzou o número de espécies endémicas de ilhas oceânicas com o número de estudos publicados sobre elas.

Mapa NGM-P

É por isso com propriedade que comenta: “As aves deste país não têm tido a atenção que mereciam.” No arquipélago das Galápagos, que conta com 13 ilhas e uma área total cerca de oito vezes maior, as espécies de aves endémicas são apenas 22, sobre as quais foram encontrados 193 estudos publicados que contrastam com apenas seis sobre as aves de São Tomé e Príncipe. Ao financiar esta expedição, a National Geographic está assim a contribuir para corrigir esta assimetria.
Num derradeiro esforço para aumentar o número de amostras, Martim Melo ruma a outro ponto, a meio caminho do Pico de São Tomé, que se eleva a 2.024 metros de altitude. Um bico-grossudo é avistado e, durante dois dias, ronda as redes sem se deixar capturar.

Este momento é o culminar de um trabalho árduo e traz a possibilidade de compreender os fenómenos de especiação.

O biólogo português acusa alguma frustração ao constatar o investimento na deslocação e permanência de uma esquipa de investigadores, mas é forçado a aceitar que “o trabalho em regiões pouco estudadas com terreno adverso e espécies raras é feito de pequenos progressos”. Este arquipélago guarda ainda muitos segredos por revelar e, no momento da partida, fazem-se planos para a próxima expedição.
As baleias-de-bossa começam entretanto a passar a curta distância da costa e, de manhã, encontram-se nas praias os primeiros rastos das tartarugas-marinhas que aí vêm depositar os seus ovos. A gravana está a chegar ao fim e, em breve, chegará a chuva-tubarão.  

Boné do Jóquei é um ilhéu desabitado de 30 hectares e que dista apenas 2,5 quilómetros da ilha do Príncipe. Apesar da curta distância, há aves aqui com características diferentes das da ilha vizinha.

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