O enigma de São Tomé e Príncipe, ou um segredo por revelar

A genética demonstrou que o tordo de São Tomé é distinto de um tordo parecido, mas raro e em risco na ilha do Príncipe. 

Na manhã seguinte, duas equipas partem em direcções opostas, fazendo pontos de escuta e observação. Levanta-se o acampamento e prossegue-se viagem. Se durante a marcha paramos para apertar um atacador, em poucos segundos perdemos o resto do grupo, pois os guias avançam sem nada os deter. A maior parte do percurso é feita a tagarelar, mas, quando o caminho se torna incerto, desce o silêncio. Concentrados, os guias encontram rastos imperceptíveis ao nosso olhar destreinado. O destino faz jus à sua reputação e à chegada somos brindados com algumas observações de bico-grossudo. Montam-se redes que durante dois dias capturam mais de cem aves, mas apesar de todo o esforço apenas um bico-grossudo cai na rede. Nem só desta espécie, porém, é feito este trabalho. Para compreender a lógica deste sistema é preciso estudar as diferentes populações do pardal de São Tomé.

A genética mostrou que, apesar de o bico-grossudo ser morfologicamente diferente do seu parente, filogeneticamente encontra-se mais próximo dos pardais com que divide a ilha do que dos pardais das diferentes ilhas entre si.

Ao contrário do seu parente mais raro, o pardal de São Tomé está presente não só aqui mas também na ilha do Príncipe e no Boné do Jóquei, um pequeno ilhéu de 30 hectares a dois quilómetros e meio ao largo desta última. A genética mostrou que, apesar de o bico-grossudo ser morfologicamente diferente do seu parente, filogeneticamente encontra-se mais próximo dos pardais com que divide a ilha do que dos pardais das diferentes ilhas entre si. Mais uma vez, os avanços das técnicas genéticas prometem agora ajudar a compreender melhor o que realmente se está a passar e por isso a equipa embarca com destino à ilha do Príncipe. 
Com um comprimento máximo de 16 quilómetros e pouco mais de três mil habitantes, a ilha tem quase metade da sua área protegida. Os investigadores começam pelo Boné do Jóquei ou ilhéu Caroço, assim baptizado devido às palmeiras cujo fruto era assim designado. Monta-se o acampamento e as redes de anilhagem. Os pardais saltitam, curiosos, pelas rochas à beira-mar e caem nas redes. Minúsculas amostras de sangue são recolhidas. Ao cair da noite, milhares de caranguejos terrestres saem das tocas e somos obrigados a pendurar a bagagem para ficar a salvo das suas afiadas tenazes.

A rã arborícola Hyperolius molleri é intolerante à água salgada, mas, mesmo assim, colonizou as ilhas em tempos imemoriais.

O Sol nasce sob um raro céu azul, mas para leste a ilha do Príncipe permanece coberta por um pesado manto de nuvens. O barco volta para nos levar para a praia Cará, que tem uma enseada protegida por rochas que permite o desembarque. Mesmo assim, com a maré baixa, somos forçados a completar os últimos metros a nado. Por sorte, uma piroga de pequenas dimensões está na praia e com ela fazemos o transbordo das bagagens. Depois de obtidas as biometrias e um conjunto satisfatório de amostras de pardais em São Tomé, no Boné e agora no Príncipe e de cruzar essa informação com as diferenças de habitat, vai ser possível compreender melhor os factores de divergência dessas populações.
O interesse ornitológico deste arquipélago africano não se esgota nestas espécies.

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