O enigma de São Tomé e Príncipe, ou um segredo por revelar

Uma equipa de investigação rumou  a São Tomé e Príncipe numa expedição apoiada pela National Geographic. O objectivo? Estudar a evolução através das aves. 

Texto e Fotografia Alexandre Vaz

O uso de pesticidas esteve na origem do  declínio do papa-moscas de São Tomé, uma das 28 espécies únicas do arquipélago que o tornam a região com a maior taxa de endemismo de aves do mundo. 

À esquerda, uma muralha verde dissolve-se no cinzento carregado do céu. O casco da piroga escavada a golpes toscos de machado desliza no oceano. O timoneiro de ascendência cabo-verdiana usa a mão direita para dirigir o motor de 15 cavalos e a esquerda para controlar melhor a linha de pesca. A piroga negoceia a cava da onda e eleva-se na crista batendo com o casco e produzindo um som seco. A linha do equador define o horizonte. Uma hora e meia de viagem separa Santa Catarina de São Miguel na costa sudoeste da ilha de São Tomé. 

Toda esta região fica actualmente dentro do Parque Natural do Obô, que cobre cerca de um terço da ilha.

Essa área da ilha não é servida por estradas ou caminhos e a pé seria preciso um dia de marcha para lá chegar. Na primeira metade do século XX, os portugueses mantinham aqui uma fortificação e abriram caminhos que possibilitavam o acesso a partir de Porto Alegre, mas há muito que a floresta engoliu esses vestígios. Das muitas casas abandonadas a partir da crise do cacau na década de 1950, restam agora ruínas quase imperceptíveis. Toda esta região fica actualmente dentro do Parque Natural do Obô, que cobre cerca de um terço da ilha.
Estamos na gravana (estação seca), mas a precipitação num ano pode atingir 7.000mm e percebemos que a estação seca é, na realidade, um eufemismo para “estação menos húmida”. As diferentes manifestações climáticas têm uma nomenclatura peculiar: há a “chuva-tubarão”, que ataca de surpresa e violência, e a “chuva-mulher”, que é miúda e persistente.

A 1.800 metros de altitude, na aproximação ao cume do Pico de São Tomé, cruza-se a floresta da bruma. Apenas na ilha de São Tomé e entre as angiospérmicas, há um género e 81 espécies endémicas, que correspondem a 13% das espécies autóctones presentes.

À passagem da Ponta Furada, o mar torna-se mais alteroso. As três pirogas que transportam nove passageiros navegam com prudência, mas a água que embate no casco projecta-se no ar e ensopa os que seguem à proa. Ao entrar na baía de São Miguel, o mar acalma. Foi perto daqui que o então jovem naturalista português Francisco Newton capturou em 1890 os dois exemplares de bico-grossudo de São Tomé que viriam a ser destruídos no incêndio do Museu Bocage de 1975. Sobrou um exemplar, capturado dois anos antes na costa leste e que ainda permanece no Museu de História Natural de Londres. Passaram entretanto cem anos até a espécie voltar a ser avistada na década de 1990. 

Em 2003 o ornitólogo Martim Melo, do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (Cibio), conseguiu por fim capturar um indivíduo.

O bico-grossudo é uma ave discreta e difícil de distinguir de outra espécie que localmente é apelidada de pardal mas que, na realidade, é um fringilídeo da família do chamariz e do verdilhão.

O bico-grossudo é uma ave discreta e difícil de distinguir de outra espécie que localmente é apelidada de pardal mas que, na realidade, é um fringilídeo da família do chamariz e do verdilhão. O processo de especiação do bico-grossudo sugere um exemplo raro de especiação simpátrica. A pressão evolutiva é, na maioria dos casos, ditada pelo isolamento geográfico que acontece nas ilhas ou pelo avanço e recuo de habitats favoráveis em consequência de alterações climáticas. Aqui, porém, uma população divergiu dos seus antepassados por simples pressão ecológica. É precisamente para compreender esses factores que investigadores da Universidade do Porto e da Universidade de Lund, na Suécia, aqui vêm, com o apoio da National Geographic. Esta espécie em particular está entre as menos conhecidas e mais raras do mundo.

O chó-chó ou guarda-rios-de-peito-azul é uma subespécie endémica do Príncipe. Na ilha, existe a única população da espécie que usa pedras como bigornas para partir os búzios-terrestres-gigantes e caça caranguejos em rochas no mar.

Desde finais da década de 1990 que Martim Melo vem aqui regularmente. Nesta ilha, o trabalho de campo coloca desafios particulares. Em 1928, José Correia, um ex-caçador de baleias nos mares do Norte convertido em colector do Museu de História Natural Americano, desembarcou na ilha. Correia escreveu um diário de que transportamos uma cópia. Escrito em inglês rudimentar, dá conta das agruras destas paragens vividas por aquele homem habituado a climas adversos. A descrição é dantesca e envolve tubarões, tarântulas e cobras cuja mordedura é fatal, chuva incessante e equipamento permanentemente molhado, nevoeiro cerrado, lama escorregadia, veredas e precipícios traiçoeiros, relâmpagos e doenças tropicais.
No passado, Martim capturou três bicos-grossudos e estabeleceu o parentesco entre a espécie e a congénere de menores dimensões, mas o desenvolvimento da genética já permite uma análise com maior resolução, pelo que é importante recolher mais amostras. 
Durante cinco dias no vale do rio Iô Grande, avistamos três bicos-grossudos mas sem hipótese de os capturar. 

Da copa de uma árvore, ouve-se de repente o piar de um bico-grossudo que não se deixa ver. 

As montanhas sobranceiras à baía de São Miguel são aliás um dos locais em que as observações são mais prováveis. O desembarque faz-se a meio do dia. Reorganiza-se a bagagem e começa-se a caminhada em direcção ao interior. A caminho da floresta primária, os guias deitam a mão a cocos verdes para matar a sede e a maduros para enganar a fome. Apanham pau-pimenta para temperar o jantar, fruta-pão para assar na fogueira e sobretudo búzio-do-mato. Da copa de uma árvore, ouve-se de repente o piar de um bico-grossudo que não se deixa ver. 
O rápido crepúsculo trava a progressão. Não conseguimos chegar à cumeada desejada e acampamos a meio caminho. À noite, a escuridão é total, mas, quando os olhos se habituam, emergem pontos luminosos do solo. Bolores microscópicos e cogumelos luminescentes crescem na madeira em decomposição. 

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