Em Kamchatka, a lava flui com tamanha velocidade que parece água e remodela a paisagem a cada nova erupção vulcânica.

Texto Maria Tolstykh   Fotografia Vladimir Alekseyev e Sergey Gorshkov

Uma corrente de lava flui do vulcão Plosky Tolbachik e contorna um novo cone de escórias. Fotografia Sergey Gorshkov.

 Em termos geológicos, a vida de um ser humano dura apenas um suspiro. E as oportunidades de observar um vulcão em erupção sem perigos excessivos, como explosões violentas, nuvens de gases ou chuvas de cinzas letais são escassas. O vulcão Tolbachik foi uma delas. 
Teria sido uma pena não aproveitar a ocasião, embora a princípio nos parecesse – a mim e aos fotógrafos de história natural Sergey Gorshkov e Vladimir Alekseyev – que a simples proeza de lá chegar era impossível. A única estrada de ligação entre o povoado de Kozyrevsk e o vulcão ficara sepultada sob um rio de lava, pelo que o acesso só era possível de helicóptero. Isto significava que dependíamos por completo das condições meteorológicas e da visibilidade na zona da erupção. Além disso, estávamos em pleno Inverno, um Inverno glaciar com temperaturas de -40°C e corria o boato de que um topógrafo colocado na zona sofrera ferimentos graves nas mãos causados por congelação. Ainda assim, tomámos a decisão de nos pormos em marcha. 

A península de Kamchatka forma, juntamente com o arquipélago das Curilas, um arco insular numa das zonas do planeta com maior actividade sísmica e vulcânica.

A península de Kamchatka forma, juntamente com o arquipélago das Curilas, um arco insular numa das zonas do planeta com maior actividade sísmica e vulcânica. Situada no extremo oriental da Rússia, faz parte do Anel de Fogo do Pacífico, região onde ocorre a subducção, ou afundamento, das placas oceânicas sob os continentes.
Dos 540 vulcões conhecidos e activos da Terra, 348 concentram-se neste anel ardente. 
Os sismos de maior intensidade estão relacionados com o mesmo fenómeno – a colisão das placas. Por consequência, os sismos e as erupções vulcânicas dão forma à paisagem de Kamchatka e sucedem-se com regularidade.

A erupção de  Novembro de 2012 no vale de Tolbachik, chamou a atenção tanto pela sua magnitude como pelas características da sua actividade vulcânica.

As erupções podem ser de natureza distinta, desde a efusão de lava até à chuva explosiva de cinzas, capaz de atingir várias dezenas de quilómetros de altura. Essas diversas erupções dão origem à formação de estruturas vulcânicas, rochas e minerais ígneos, e diversos gases são emanados para a atmosfera. A erupção iniciada em fins de Novembro de 2012 no vale de Tolbachik, 340 quilómetros a norte da cidade de Petropavlovsk-Kamchatsky, centro administrativo da península, chamou a atenção tanto pela sua magnitude como pelas características da sua actividade vulcânica.
Tolbachik é um complexo vulcânico formado por dois cones sobrepostos e morfologicamente bem distintos: o estratovulcão Ostry Tolbachik, de forma cónica e com 3.682 metros de altitude (em russo, ostry significa “afilado”), e o vulcão-escudo Plosky Tolbachik, com 3.085 metros de altitude e encostas suavemente inclinadas (plosky significa “plano”).

A erupção do Plosky Tolbachik começou a 27 de Novembro de 2012, depois de 36 anos de acalmia. Esta imagem do fluxo de lava entre emanações gasosas foi captada quinze dias depois, a 12 de Dezembro. Fotografia Sergey Gorshkov.

 Os cientistas classificaram esta erupção como de tipo hawaiano, durante a qual a lava basáltica, muito fluida, flui pausadamente depois de transbordar da cratera ou emerge das fissuras, sem causar grandes catástrofes. Tolbachik é caso único, pois está rodeado de um grupo de vulcões de outro tipo. Quando estes reiniciam actividade, costumam produzir erupções do tipo pliniano, com empilhamento de grandes espessuras de rochas vulcânicas, como sucede no Vesúvio ou no Fuji-Yama. De facto, todo o vale de Tolbachik está coberto por espessas camadas de escória. Há pouco mais de três décadas, entre 1975 e 1976, teve lugar a maior erupção basáltica conhecida até à data no arco insular Curilas-Kamchatka.
Baptizada como “Grande Erupção Fissural de Tolbachik”, foi um acontecimento de excepção. 

Fotografado a partir do helicóptero, o fluxo de lava divide uma superfície escura formada por bombas de lava (à esquerda) e antigas rochas vulcânicas cobertas de neve (à direita). Fotografia Sergey Gorshkov.

 Prevista com antecedência, levou um grupo de vulcanólogos ao local na ânsia de presenciar o acontecimento. Os cientistas aguardaram, com expectativa, o despertar do vulcão, como um grupo de naturalistas aguardaria na savana pelo arranque da chita atrás da presa. E, de facto, valeu a pena: a erupção fissural converteu-se numa das cinco maiores erupções de todo o mundo. Uma primeira explosão, no sector setentrional, expeliu bombas vulcânicas e escórias incandescentes, e as labaredas de gases e cinzas alcançaram quatro a cinco quilómetros de altura. Durante 72 dias de incessante “bombardeamento”, formaram-se no vale três montículos de escória, cada um com trezentos metros de altura.

Na paisagem de Kamchatka, a lava, as cinzas vulcânicas e os gases determinam as suas três cores distintivas: o vermelho, o negro e o branco. Fotografia Vladimir Alekseyev.

 De seguida, ocorreu a erupção meridional, que se prolongou durante 15 meses e formou um imenso campo de lava com 40 quilómetros quadrados. Como acontece nas erupções dessa magnitude, a Grande Erupção Fissural foi mortífera para todos os organismos vivos. A lava e as cinzas destruíram a vegetação numa área superior a quatrocentos quilómetros quadrados. Seria lógico que posteriormente se utilizassem esses enormes campos de cinzas para realizar testes a veículos lunares, pois a paisagem de desolação era semelhante à encontrada pelas missões espaciais fora do nosso planeta! “Para os cientistas, o acontecimento teve uma importância decisiva”, disse Yuri Dubik, vulcanólogo e testemunha do acontecimento. Durante a Grande Erupção Fissural, mediu-se a temperatura da lava (cerca de 1.020°C), calculou-se a velocidade de crescimento dos cristais na corrente e recolheram-se dados sobre a composição química das lavas e dos minerais que cristalizam a partir das exsudações gasosas.”

De noite e sem outra luz para além do esplendor da lava em ebulição, os fotógrafos aproximam-se do bordo da cratera para documentar a erupção do vulcão e o seu espectáculo luminoso. Fotografia Vladimir Alekseyev.

 Após 36 anos de inactividade, os avanços científicos e tecnológicos davam as boas-vindas a uma nova erupção que permitiria experimentar todo o tipo de dispositivos e instrumentos novos. 
Os sismólogos foram os primeiros a reparar que havia algo inusitado nos acontecimentos. Em finais de Novembro de 2012, durante vários dias seguidos, registaram-se com frequência sismos de baixa magnitude e, na tarde do dia 27, detectaram-se vários abalos superficiais na estação sismológica de Kozyrevsk, cinquenta quilómetros a noroeste do vulcão.
Infelizmente, nos primeiros dias, foi impossível aceder ao local devido ao mau tempo.

A corrente de lava pode percorrer longas distâncias enquanto arrefece lentamente. A superfície é a primeira a solidificar, formando desenhos elaborados e formas capricho. Fotografia Sergey Gorshkov.

 A partir da ponte que atravessa o rio Kamchatka, cerca de 45 quilómetros a oeste de Tolbachik, era possível ver ejecção de piroclastos incandescentes e emanações de gases. As janelas e paredes das casas de Kozyrevsk vibraram e os seus habitantes conseguiam ouvir os rugidos do vulcão.
No terceiro dia de erupção, os vulcanólogos puderam sobrevoar a zona e observaram duas novas fissuras com várias centenas de metros de comprimento na base do vulcão Plosky Tolbachik. Ao princípio, impressionantes correntes de lava fluíam da fissura superior. A escória e as bombas voavam a 200 metros de altura! Quatro dias depois, a lava começou a emergir da fissura inferior: um fluxo constante de 10 a 100 metros de altura e ao longo de toda a brecha, com mais de meio quilómetro. O fluxo basáltico jorrava às golfadas e, em meados de Fevereiro, alcançara já 15 quilómetros de comprimento. Em redor da exsurgência de lava, formou-se uma cúpula devido à acumulação de fragmentos quentes de lava e escória que se foram soldando, enquanto a lava continuava a fluir pela base do montículo.

Dos 540 vulcões conhecidos e activos da Terra, 348 concentram-se neste anel ardente. 

O que mais podiam os cientistas aprender com esta nova erupção? Graças às mais modernas máquinas fotográficas e câmaras de vídeo, foi possível acumular centenas de gigabytes de imagens sobre o processo eruptivo de Tolbachik. Todas as fases foram fotografadas com elevada resolução, bem como as exsurgências de lava na cratera, as bombas vulcânicas e a escória produzidas durante as explosões de intumescências gasosas, os rios de lava ardente, tão rápidos que pareciam de água, e os caprichosos movimentos da lava à medida que arrefecia e solidificava. 
Actualmente, é possível medir a temperatura e a velocidade dos diferentes tipos de correntes, o que permite criar uma base de dados para outras regiões vulcânicas. Recolhem-se amostras de lava e escórias durante os dias da erupção para medir a frequência com que o canal vulcânico se enche com novo material magmático e para averiguar a origem desse magma e quanto demora a chegar à superfície. Outra tarefa dos geólogos consiste em realizar um controlo espectrométrico permanente dos gases emitidos durante a erupção: os novos instrumentos são capazes de medir a sua concentração a uma distância de cinco quilómetros. A trajectória posterior das nuvens de gás é monitorizada via satélite.

Uma erupção como a do Tolbachik é mortífera para todos os organismos que habitam em redor. O fumo das árvores incendiadas mistura-se com os gases vulcânicos e o vapor libertado. Fotografia Sergey Gorshkov.

 As partículas suspensas na estratosfera devido às emissões vulcânicas reflectem os raios do Sol de tal forma que por vezes podem dar origem a perspectivas inacreditáveis do céu e dos reflexos de luz e cor. Estes efeitos foram analisados por peritos e um deles identificou-os na famosa série de O Grito, do pintor norueguês Edward Munch (1863-1944). Ali, por detrás do retrato feminino, como pano de fundo dos quadros, surge a paisagem de Oslo banhada por um resplendor “expressionista” atribuído à erupção do vulcão Krakatoa ocorrida na Indonésia em 1883 e cujas consequências na atmosfera foram visíveis em locais tão distantes como o Norte do continente europeu.
Tolbachik transformou-se num local de peregrinação não só para vulcanólogos. Muitos fotógrafos documentaram o fenómeno e regressaram com imagens fabulosas. “Ainda que a certa distância a rocha superficial parecesse solidificada, continuava tão quente que uma das tiras da minha mochila, as luvas e os calços de borracha do tripé que deixei no solo derreteram por completo”, contou Vladimir Alekseyev. “Tinha de levar todo o equipamento pendurado e tentar que as minhas botas não se colassem ao solo.”

Tolbachik transformou-se num local de peregrinação não só para vulcanólogos. Muitos fotógrafos documentaram o fenómeno e regressaram com imagens fabulosas.

Também os turistas chegaram a Tolbachik. Pouco mais tarde, as empresas do sector turístico em Kamchatka começaram a organizar visitas. Recorremos igualmente aos serviços de uma dessas empresas. Depois de uma viagem nocturna de autocarro de sete horas entre Petropavlovsk-Kamchatsky e Anavgay, um pequeno povoado perto de Tolbachik, juntámo-nos a um heterogéneo grupo de turistas aventureiros, com as suas garrafas térmicas, sanduíches e anoraques, que aguardavam a chegada do helicóptero. Não eram fotógrafos nem sismólogos, mas empresários, comerciantes e cabeleireiros que tinham decidido passar as suas desejadas férias (por uma elevada soma de dinheiro) em visita a um vulcão “vivo”.
Tivemos sorte: estavam apenas -32°C de temperatura, a visibilidade era esplêndida e, de seguida, emergiu um campo negro entre a neve branca, um riacho ardente e, por fim, a cratera do novo cone de escórias, no qual fervilhava a lava cor de laranja.
O helicóptero aterrou a meio quilómetro da cratera. Os turistas apearam-se sobre a cinza negra e começaram a posar. Era surpreendente ver naquele lugar uma senhora com o seu casaco de pele de raposa, um jovem com mocassins e mala e um casal com uma filha pequena. 
A expressão dos rostos era de puro entusiasmo.

Quando uma intumescência de lava explode na cratera, o material ejectado pode alcançar 100 metros de altura. Os salpicos arrefecem, solidificam em contacto com o ar e caem, formando um cone de escórias. Fotografia Vladimir Alekseyev. 

 Apressámo-nos até ao local onde seria possível recolher amostras de escórias e das bombas vulcânicas recém-emergidas. Primeiro, corremos sobre a neve ligeiramente coberta de cinzas em pó e, logo de seguida, directamente sobre a cinza compacta, ainda quente. O vulcão estava tranquilo, toda a sua actividade se concentrava na cratera, e as bombas caíam perto dele. Quem sabe se mais tarde, à noite, animaria? Começámos a golpear com o martelo as rochas vítreas e porosas recém-formadas. Os turistas observavam-nos, atónitos. Deveríamos ter tirado mais fotografias, mas estava tanto frio que as baterias e pilhas da máquina fotográfica descarregavam velozmente. No entanto, encontrámos uma solução: se as colocássemos sobre as cinzas, aqueciam e funcionavam durante um pouco mais de tempo.
Regressámos ao helicóptero com uma carga interessante dentro das mochilas. Os turistas queixaram-se: íamos levar para bordo toda aquela porcaria radioactiva? As nossas tentativas de lhes explicar que o basalto não é radioactivo não convenceram ninguém.
Rostos fechados a bordo. Durante o trajecto de regresso, enquanto sobrevoávamos o rio de lava que serpenteava entre a neve e as cinzas, aproximámo-nos da janela e lançámos um último olhar aquele mundo estranho e belo: “Muito bem, que tudo se faça em nome da Ciência…”

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