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A monta “invertida” da vaca no touro permite à fêmea aferir a condição física do macho. 

Embora útil e desejável, o cruzamento de animais pouco aparentados pode não ser suficiente, exigindo alguma intervenção humana para diversificar o caldo genético. “A salvação da raça poderá requerer a introdução de sangue exterior, por exemplo de animais da raça alentejana não inscritos no Livro Genealógico da mesma e que sejam morfologicamente semelhantes aos garvoneses, assegurando a sua viabilidade ao mesmo tempo que se conservam as características da garvonesa”, realça Catarina Ginja, do Centro de Biologia Ambiental da Universidade de Lisboa.

A presença e o culto de bovinos na região alentejana é ancestral, mas a presença de gado bovino do tronco aquitânico, no qual a raça garvonesa se insere, só se consegue traçar com certezas desde o século XV. 

A presença e o culto de bovinos na região alentejana é ancestral, mas a presença de gado bovino do tronco aquitânico, no qual a raça garvonesa se insere, só se consegue traçar com certezas desde o século XV. É, porém, provável que, embora sem a relevância da classificação como raça, já nesse tempo, os animais nesta região do Alentejo fossem semelhantes aos que hoje chamamos garvoneses. “É uma raça muito distinta, com características genéticas e morfológicas únicas, sem paralelo nas raças espanholas, como temos noutros casos de raças portuguesas”, diz Catarina Ginja. Segundo um estudo genético desta especialista, a garvonesa está bem diferenciada da raça alentejana, o que reforça o carácter histórico, social e cultural que estes animais terão tido ao longo de séculos, no Baixo Alentejo.
Em São Martinho das Amoreiras, no concelho de Odemira, Manuel Domingos cria a raça garvonesa “à antiga”. A manada é pequena: seis vacas e um touro, mais um punhado de bezerros. Duas vacas “são mansas” e aptas para lavrar a terra. Aqui, onde as ideias de conservação, perfil genético e consanguinidade são palavrões modernos, ouvidos apenas nas visitas que técnicos da AACB fazem para certificar os bezerros, Manuel Domingos recorda que “no outro tempo, o gado dava de tudo um pouco. Os animais eram valentes para puxar charruas e carretas, o estrume aproveitava-se, iam às arramadas e controlava-se melhor o que comiam, havia menos desperdício, está a ver? Até dos chifres, depois de mortos, se faziam bilhas para o azeite”. 

Os bezerros começam desde muito cedo a testar-se e preparar-se para as futuras provas de virilidade.

De facto, poucas relações com animais terão tido tanta relevância na história da humanidade como a que levou, há cerca de oito mil anos, à domesticação do gado bovino. Esta domesticação foi agilizada com o propósito de obter alimento e depois para a função de trabalho. No processo, enriqueceu sobremaneira a vivência humana. Manuel Domingos olha uma das suas vacas e diz, com um riso melancólico: “Hoje, aproveitam-lhes a carninha e pouco mais.”
Passou o tempo em que as razões para estes animais existirem eram palpáveis e pragmáticas. Dependem hoje de encontrarmos formas de valorização. Se não for suficiente o valor afectivo pelo legado que representam, relembremos o seu valor ambiental e económico, se explorados produtos de nicho. Longe das savanas ou florestas tropicais que o nosso imaginário rapidamente invoca ao pensarmos em conservação da natureza, esta e outras raças e espécies domésticas carecem de atenção. O futuro, para já, apresenta-se moderadamente risonho para a vaca garvonesa.

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