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Há duas décadas, praticamente perdemos uma raça bovina autóctone. Agora, o efectivo encontra-se estável, mas a extinção ainda paira sobre estes animais. Cientistas e veterinários recorrem à genética para a tentar travar.

Texto e Fotografia Ricardo Guerreiro

No início da década de 1990, a visão de uma vaca garvonesa seria provavelmente de um animal solitário. Porém, esta novilha no Sul do concelho de Ourique aguarda pela manada que seguia um pouco atrás.

À excepção do relevo da zona de Santana da Serra, concelho de Ourique, o cenário que se avista poderia ser descrito por um fotógrafo em missão na savana africana. O Sol vai quase no zénite e uma manada de uma centena de herbívoros pasta calmamente. Algumas fêmeas chamam as crias que, apesar da ausência de predadores, deixaram escondidas entre a vegetação enquanto se alimentam, fruto do seu instinto primordial de presas. Dois machos medem forças, entrelaçando os chifres e um acaba por reforçar o domínio sobre o harém. Vários juvenis lutam, imitando os adultos numa brincadeira que os preparará para duelos futuros. 

Apesar de ser uma das menos conhecidas raças bovinas portuguesas, no passado, a raça garvonesa ocupava os campos de praticamente toda a região central e litoral do Baixo Alentejo.

Se começássemos por lhe dizer que este património biológico está ameaçado e que está em curso um projecto para a sua conservação, seguramente pensaria numa espécie selvagem em perigo. Na verdade, é à vida selvagem que associamos a ideia de conservação da natureza, mas o alvo do programa, desta vez, são vacas. Vacas, touros e crias da raça bovina garvonesa.
Apesar de ser uma das menos conhecidas raças bovinas portuguesas, no passado, a raça garvonesa ocupava os campos de praticamente toda a região central e litoral do Baixo Alentejo, onde era usada para tracção de alfaias e carros de bois. Com a mecanização da agricultura, sobretudo na segunda metade do século XX, “o gado farrusco” perdeu o seu propósito principal e foi sendo substituído por raças exóticas importadas, sobretudo de França, que serviam melhor o propósito da produção de carne. Em 1994, o bovino garvonês estava perto da extinção. 

A colheita de sangue e pêlo para recolha de DNA permitirá planear estratégias com vista a manter a diversidade genética da raça garvonesa.

Foi então que o Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina (PNSACV) levou a cabo o Projecto de Recuperação e Manutenção do Bovino Garvonês. “Foi essencialmente uma manobra de resgate e agrupamento do maior número possível de animais, que se encontravam dispersos em pequenos núcleos, por forma a garantir a sobrevivência da raça”, comenta José Pereira, da Associação de Agricultores do Campo Branco (AACB), entidade detentora do registo zootécnico da raça. “Fez-se depois a caracterização morfológica e o registo como raça autóctone e tem sido essencial o envolvimento dos criadores que, muitas vezes contrariando tendências económicas mais imediatas, têm abraçado a criação da garvonesa.” O projecto contribuiu para o aumento do efectivo de cerca de oitenta animais para os quatrocentos actuais.

Bem geridos, estes efectivos podem representar um factor económico cativante numa fase de grande procura de produtos “de origem protegida” e “biológicos”.

A conservação de animais domésticos autóctones representa um esforço valioso. Estes estão quase sempre bem adaptados ao clima onde se desenvolveram, possibilitando a criação em regime extensivo e a manutenção de um ecossistema diversificado. Bem geridos, estes efectivos podem representar um factor económico cativante numa fase de grande procura de produtos “de origem protegida” e “biológicos”. Ao mesmo tempo, preservam um património insubstituível, que encerra em si partes da história e evolução cultural de uma região, adaptando-o às novas realidades.
Na Herdade da Mata, uma exploração agrícola em Alcáçovas, existe hoje uma das maiores manadas da raça garvonesa. Os proprietários suíços integram os animais nos passeios pedagógicos de agroturismo que disponibilizam aos visitantes. Mas a equipa do Centro de Experimentação do Baixo Alentejo e AACB que aqui encontro, volvidos 18 anos sobre o projecto do PNSACV, tem um propósito diferente. Recolhe amostras de sangue e pêlo de alguns dos 120 animais que aqui existem.

A pelagem preta na cabeça e extremidades dos membros são caraterísticas morfológicas da garvonesa que a distinguem da alentejana, a raça mais conhecida da região. 

O objectivo da recolha, no âmbito de um segundo projecto de conservação, agora em curso, é a extracção de DNA para caracterização genética e demográfica da raça, numa tentativa de viabilizar condições para a existência de animais saudáveis a longo prazo. A população encontra-se estável, dispersa por oito explorações pelo Alentejo mas “a raça está classificada como Ameaçada de Extinção e os riscos de aumento da consanguinidade são elevados, já que todos os animais procedem do único criador que restava na década de 1980”, diz Carlos Bettencourt, médico veterinário e secretário-técnico da raça garvonesa.

O médico António Semedo, reparou no iminente desaparecimento desta raça e deu o primeiro passo para contrariar a tendência comprando as vacas que encontrava.

 Cerca de uma década antes do projecto do PNSACV, uma figura local do concelho de Ourique, o médico António Semedo, reparou no iminente desaparecimento desta raça e deu o primeiro passo para contrariar a tendência comprando as vacas que encontrava. Havia um problema: António Semedo já não tinha, nem conhecia ninguém, com um macho reprodutor. Foi quase por acaso que numa feira encontrou um touro e o comprou. É provavelmente graças a este gesto que ainda dispomos da raça. “Após a análise genética, proceder-se-á ao cruzamento de machos e fêmeas o menos aparentados possível, tentando preservar a diversidade genética dentro da raça”, diz Carlos Bettencourt. Se os esforços forem bem sucedidos, o panorama de sobrevivência da raça garvonesa será promissor. 

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