A borboleta da serra do Alvão que parece retirada de uma fábula

Era uma vez uma borboleta que precisava de uma planta para procriar e de uma formiga para se metamorfosear. Era uma vez um lameiro na serra do Alvão…

Texto e Fotografia Luís Quinta

Tudo na vida da borboleta-azul-das-turfeiras é urgente. Após a eclosão, os machos vivem cerca de dez dias. Nesse período, tentam urgentemente garantir a continuidade da descendência.

Entorpecidos pelo orvalho e pelas baixas temperaturas que se fazem sentir ao início da manhã no topo da serra do Alvão, todos os insectos estão parados junto ao solo. 
O nevoeiro já se dissipou, mas o Sol ainda não é suficiente para aquecer os pequenos animais que não regulam a temperatura interna do seu corpo. De asas abertas, muitas borboletas tentam capitalizar a maior energia possível para rapidamente ficarem operacionais e descolarem da turfeira. O tempo é curto e a missão trabalhosa, mas está tudo agendado no código genético da borboleta-azul-das-turfeiras (Maculinea alcon).
Neste pequeno lameiro, com a dimensão aproximada de três campos de futebol, ocorrem interacções ecológicas inesperadas, como uma cooperação improvável e um logro que dura dez meses. Mas já lá iremos.

De asas abertas, muitas borboletas tentam capitalizar a maior energia possível para rapidamente ficarem operacionais e descolarem da turfeira.

Os primeiros indivíduos em voo nos prados de altitude são os machos, bem identificados pela cor azul das asas. Dias depois, em grandes quantidades, emergem do subsolo as fêmeas, menos vistosas, com asas acastanhadas na parte interior.
Com uma esperança de vida de cerca de dez dias, os machos não perdem tempo para espalhar os seus genes pelo maior números de fêmeas. Mal sentem as feromonas das parceiras espalhadas no ar, lançam-se numa competição feroz.
Muitas fêmeas, agarradas a pequenas ervas, ainda a desamarrotar as asas atrofiadas, acabadas de sair da crisálida, são imediatamente disputadas por vários machos que se apressam a dominar a situação. Dias depois, tudo fica mais calmo e o frenesim desaparece. Eclodem mais fêmeas e a maior parte dos machos já cumpriu a sua função. 

Fotografada com pormenor inédito, esta é a fase decisiva do crescimento das larvas. As formigas tomam-nas como suas e tratam delas durante dez longos meses até à metamorfose, altura em que as borboletas eclodem.

No lameiro da senhora Libânia, em pleno Parque Natural do Alvão e perto da aldeia de Lamas de Olo, há centenas de borboletas. Para além das borboletas-azuis-das-turfeiras podemos observar ainda as muito comuns borboleta-marmorizada-branca da Ibéria ou a borboleta-loba. Mas o que faz destes três hectares uma área tão importante para a conservação?
Todos os anos são contados aqui mais indivíduos de M. alcon. Em 2010, foram cinco mil  e, no ano passado, foram recenseados seis mil.  Esta é a maior população estável da borboleta-azul-das-turfeiras de toda a Europa. E embora a atenção dos biólogos esteja continuamente direccionada para o ar, em busca de mais asas em voo, é no solo que se encontra uma particularidade biológica.
As medidas de conservação aplicadas a este terreno com pouco mais de três hectares resumem-se a um pastoreio regrado, evitando a utilização de queimadas para controlo de crescimento de matos rasteiros e impedindo que o gado coma a planta genciana-das-turfeiras (Gentiana pneumonanthe). Planta discreta, com 30 a 80 centímetros de caule, a genciana tem um palmarés famoso. Já foi classificada como a “Planta do Ano” na Alemanha em 1980 por valiosos serviços prestados ao ambiente. Quais? Na prática, ela é a hospedeira dos ovos e lagartas da borboleta. Apesar da sua simplicidade, a borboleta-azul-das-turfeiras tem hábitos sofisticados e aceita apenas um local de hospedagem – precisamente os caules da genciana.

Apesar da sua simplicidade, a borboleta-azul-das-turfeiras tem hábitos sofisticados e aceita apenas um local de hospedagem – precisamente os caules da genciana.

A gestão destas medidas de conservação num terreno privado é financiada pela autarquia de Vila Real, que paga uma mensalidade à proprietária do terreno, e por um grupo de voluntários oriundos principalmente do Reino Unido, que roçam os matos menos úteis ao ciclo de vida deste animal.
Embora a vegetação seja abundante, esta espécie de borboleta apenas usa a genciana para colocar os seus ovos. Após duas semanas de gestação, as minúsculas lagartas saem do ovo e vão para dentro da capsula floral da planta onde se alimentam dos órgãos sexuais da flor. Com duas a três semanas, as lagartas atingem os 3mm, deixam-se cair para o solo e aí acontece a segunda etapa de uma improvável relação ecológica.
As larvas emitem uma alomona muito parecida com a da larva da formiga da espécie Myrmica aloba. Todo o lameiro é então patrulhado pelas formigas que, ao encontrarem estas pequenas lagartas, as tomar por seus familiares e as transportam para dentro dos seus ninhos. Desenhados de forma a suportarem abundantes chuvas ou mesmo algumas inundações de Inverno, os ninhos das formigas são muito eficazes contra as tempestades. 

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