O delicado equilíbrio do primeiro parque de Portugal

Fusão entre imensidão bravia e civilização, o Parque Nacional da Peneda-Gerês enfrenta o desafio de proteger a natureza sem esquecer as necessidades das populações que ali vivem. 

Texto Tom Mueller   Fotografia Peter Essick

  

Fusão entre imensidão bravia e civilização, o Parque Nacional da Peneda-Gerês enfrenta o desafio de proteger a natureza sem esquecer as necessidades das populações que ali vivem. 

Ao cair da noite, o biólogo Francisco Álvares atravessa a pé a aldeia de Pitões das Júnias, no Norte de Portugal, cumprimentando velhos amigos.
Duas mulheres vestidas com o negro da viuvez tocam-lhe amigavelmente no braço quando ele passa pela esquina onde elas estão sentadas, cantando canções populares uma à outra. Cumprimenta com um aceno uma bela adolescente loira que acabou de recolher no curral as 200 cabras do pai. Troca ainda remoques bem-humorados com um pastor que traz dos campos as suas vacas de longos chifres. 

O castelo de Lindoso foi um bastião decisivo durante os confrontos para restaurar a independência no século XVII.

No limite da vila, detém-se e olha para oeste, onde o mosaico dos campos lavrados se funde na densa floresta de carvalhos, erguendo-se depois até aos abruptos picos graníticos. Junta as mãos em forma de concha sobre a boca e emite um lamento grave e solitário, que se ergue até formar um grito forte e agudo. A única réplica vem do vento, roçagando nos carvalhos, e do som esporádico do chocalho de uma vaca. Ele repete o apelo duas vezes. Por fim, ouve-se uma resposta, surpreendentemente próxima e forte. É o mesmo som triste que se ergue até representar júbilo: o uivo de um lobo. Francisco Álvares sorri e acena afirmativamente com a cabeça, encaminhando-se depois na direcção do som, mergulhando na escuridão das árvores. 
“Há pelo menos uma década que uma alcateia fez o seu covil nas montanhas acima da aldeia”, sussurra ele, enquanto caminhamos. “Capturam cães, cabras e vitelos da aldeia quando conseguem apanhá-los. Há alguns anos, os lobos atravessaram a aldeia a meio da noite, encurralaram um burro que ficara desamarrado, conduziram--no para fora da aldeia e mataram-no.”

Uma floresta de carvalhos floresce no vale do rio Homem. As condições atmosféricas são influenciadas por três zonas climáticas na Peneda-Gerês. O parque é composto por um mosaico de habitats diversificados desde os cumes pedregosos aos vales verdejantes. 

A aldeia de Pitões das Júnias fica na Peneda--Gerês, o primeiro e único parque nacional em Portugal. Com 700 quilómetros quadrados, é pequeno se o compararmos com parques extensos, com os quase nove mil quilómetros quadrados de Yellowstone, o primeiro parque nacional do planeta. Amontoando-se no interior dos seus limites, contudo, encontra-se uma mistura altamente concentrada de seres vivos selvagens e domesticados. 
Quarenta lobos-ibéricos ameaçados de extinção partilham o território com cerca de 11 mil pessoas, que habitam 114 aldeamentos povoados muito antes da criação do parque, em 1971, há exactamente 40 anos. Com efeito, desde a Idade da Pedra que os seres humanos e os animais selvagens aqui vivem em estreita proximidade. Essa existência pauta-se por um equilíbrio frágil ou por uma tensão constante: a resposta depende da pessoa a quem fizermos a pergunta. 

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