A maior comunidade de cavalos-marinhos do mundo vive na Ria Formosa

Enigmático, desejado e abundante. O cavalo-marinho é o ícone da ria Formosa, mas o seu futuro continua em aberto.

Texto e Fotografia Nuno Sá

O cavalo-marinho é um dos peixes mais enigmáticos. São-lhe atribuídas propriedades farmacológicas, que motivam a captura ilegal. Em Portugal, vive uma das maiores colónias do mundo.

Os últimos raios de sol enchem o céu de tons quentes no final de um dia de Verão na ria Formosa. Numa pequena esplanada da zona ribeirinha de Olhão, um grupo de pessoas contempla a paisagem constituída por um intrincado labirinto de sapal, canais e ilhotas. No entanto, para Janelle Curtis, investigadora do projecto internacional Seahorse, o interesse não está no céu, mas sim na superfície calma da água. A bióloga mal acredita no que vê: vários pequenos cavalos-marinhos nadando vagarosamente à superfície. Ainda não o sabe, mas está prestes a descobrir a maior comunidade de cavalos-marinhos do mundo.

Os cavalos-marinhos pertencem à mesma família dos dragões-marinhos e das marinhas.

Os cavalos-marinhos pertencem à mesma família dos dragões-marinhos e das marinhas. A designação do género Hippocampus, ao qual pertencem as 37 espécies conhecidas de cavalos-marinhos, deriva do grego Hippos (cavalo) e Kampi (monstro marinho). Trata-se da adopção literal do nome da criatura da mitologia grega Hipocampo, descrita por Homero como um monstro marinho dotado de patas dianteiras de cavalo e uma cauda de peixe, que Posídon, deus dos cavalos e do mar, utilizaria para se deslocar sobre a superfície dos oceanos.
Apesar de ser há muito reconhecido pelo público pelo seu aspecto peculiar e características biológicas distintas, a ecologia e a biologia do cavalo-marinho continuam imersas em falhas de conhecimento no que se refere à sua sobrevivência, crescimento, reprodução e movimento. É verdade que são conhecidas algumas curiosidades da sua ecologia, como o facto de ser o macho a dar à luz, fertilizando internamente os óvulos que a fêmea deposita numa bolsa na base da sua cauda. Ou o facto de o macho e a fêmea manterem uma relação monogâmica ao longo do ciclo reprodutor, com comportamentos ritualizados de acasalamento, que se iniciam com a alteração dos padrões de cor em resposta ao estímulo de um dos parceiros, a sincronização da natação e o entrelaçar das caudas nadando em conjunto. Mas faltam dados científicos sobre estas espécies. 

O sistema de bancos de areia e pequenos cursos de água do Parque Natural da Ria Formosa é único no país. Mapa: NGM-P.

União Mundial de Conservação da Natureza (IUCN) funciona desde 1948 como um barómetro do estado da população de espécies de todo o mundo, classificando o nível de risco para a sobrevivência de cada uma. Porém, mais preocupante do que os níveis de risco, será o facto de a IUCN não dispor de dados para avaliar o estatuto de cerca de um quarto das espécies de peixes a nível mundial, uma percentagem quatro vezes maior do que para as aves ou mamíferos. Os cavalos-marinhos seguem esta tendência de falta de informação agravada, pois, para 61% dos membros da família dos singnatídeos, não existem dados suficientes. Os restantes 39% estão vulneráveis ou em risco. 

O projecto Seahorse foi criado em 1996 com o propósito de aprofundar os conhecimentos sobre estes animais carismáticos.

Tendo como maior patrocinador uma famosa produtora de chocolates belga cujo símbolo é um cavalo-marinho, o projecto Seahorse foi criado em 1996 com o propósito de aprofundar os conhecimentos sobre estes animais carismáticos e alertar para os problemas que afectam os seus ambientes. A bióloga canadiana Janelle Curtis, um dos mais de quarenta membros Seahorse espalhados por diversas partes do globo, definiu como objectivo da sua investigação responder a uma questão crucial: averiguar o estado da população das duas únicas espécies de cavalos-marinhos existentes no Mediterrâneo e Atlântico – o Hippocampus hippocampus e o Hippocampus guttulatus. Para ambos, não existem ainda dados suficientes de conservação.

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