Cientista portuguesa desvenda segredos do Kalahari

Como os tecelões-sociáveis não apresentam dimorfismo sexual, é a genética que permite saber quais são os machos e as fêmeas. 

 A terra é vermelha e fina e as primeiras chuvas, que aqui coincidem com o tempo quente, deixaram os caminhos enlameados. Poucos dias depois, começam a germinar ervas verdes, os insectos tornam-se mais activos e sustentam uma cadeia trófica que recomeça todo um novo ciclo reprodutivo para uma infinidade de espécies.
Há quase duas décadas, em 1998, Rita Covas, bióloga do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos da Universidade do Porto (CIBIO), chegou aqui pela primeira vez. Terminara o último ano da sua licenciatura em Biologia no Sul de França e tinha pouca vontade de regressar a Portugal. Entre as várias possibilidades de projectos doutorais, o exotismo de África falou mais alto.

A completar o quadro, vê-se à porta de cada câmara a etiqueta com um número que permite aos investigadores distinguirem cada ninho.

Olha-se para a estrutura e, à primeira vista, ela parece disforme. Adivinha-se que pesará muitas centenas de quilogramas e uma análise mais cuidadosa revela uma engenharia complexa. À volta deste objecto de estudo, há dezenas de câmaras individuais – às quais se acede através de um túnel vertical – e um telhado comum rigorosamente tecido para isolar a colónia dos elementos. 
A completar o quadro, vê-se à porta de cada câmara a etiqueta com um número que permite aos investigadores distinguirem cada ninho. Imagino a metáfora de um condomínio com dezenas de moradores. As semelhanças não se ficam pelo aspecto: também aqui se geram conflitos por causa da manutenção do telhado. Ao contrário das outras aves, estes tecelões não usam o ninho apenas na época reprodutora. Ele serve-lhes de abrigo todo o ano e é um elemento essencial da sua sobrevivência. 
A árvore que nos faz sombra e a que abusivamente chamámos acácia mudou na realidade de nome há alguns anos quando a genética se encarregou de separar as acácias australianas das demais, tendo este nome ficado reservado às primeiras. Em rigor, a Vachellia erioloba é apenas uma das espécies deste género que existem na região, mas, na área de estudo de Rita Covas, os ninhos de tecelões-sociáveis são todos construídos nestas árvores. 

Os tecelões-sociáveis são endémicos da África do Sul e a sua maior peculiaridade, como o nome sugere, é um sistema reprodutor cooperativo.

Os tecelões-sociáveis são endémicos da África do Sul e a sua maior peculiaridade, como o nome sugere, é um sistema reprodutor cooperativo. Até aos dois metros de altura, o tronco da árvore encontra-se revestido de película aderente para dificultar a subida de cobras que regularmente visitam as colónias. A população de tecelões é estável e, embora a mortalidade por predação por cobras seja muito elevada, esta medida adoptada em cerca de metade das colónias estudadas não se destina a promover um aumento da população, mas sim “a garantir que, no fim da época de reprodução, existam dados que permitam testar as hipóteses colocadas”, explica a bióloga. A mim, a película aderente interessa-me ainda por uma outra razão. As colónias estão na maioria dos casos a cerca de três metros de altura. Para fotografar os tecelões num ângulo favorável, preciso de me posicionar em cima da própria árvore. Sabendo que aqui as cobras se dividem entre perigosas e muito perigosas e que neste projecto já houve pessoas mordidas, irei claramente seleccionar uma árvore com película aderente. Ainda assim, quando pergunto a Rita Covas se já encontraram cobras em colónias protegidas, ela responde de modo pouco reconfortante: “Só algumas vezes.”

Ao contrário dos esquilos europeus, esta espécie (Xerus inauris) não é arborícola. Vive em tocas no subsolo e tem um sistema social complexo. Nesta região, divide o espaço com suricatas, com os quais estabelece por vezes relações de mutualismo. Os suricatas vigiam e dão alarme em caso de perigo e os esquilos escavam as tocas que ambos utilizam.

Enquanto falamos, os tecelões, cada um dos quais marcado com um código de anilhas coloridas e aparentemente indiferentes à nossa presença, visitam os ninhos. Quando Rita Covas aqui chegou pela primeira vez, já um ornitólogo sul-africano marcava individualmente os tecelões desde 1993. Até agora, foram marcados mais de cinco mil indivíduos e uma das maiores virtualidades deste projecto é a informação que só se pode obter em continuidade. 
Para se entender as vantagens e desvantagens da cooperação não basta observar o resultado de uma ou outra interacção, é necessário compreender como os indivíduos se comportam ao longo da vida, quando ajudam, quem ajudam, quando são ajudados e por quem. Essa é uma das razões que motiva a bióloga portuguesa a continuar a investir aqui quase vinte anos depois de ter começado, mas esta não é uma empreitada para uma única pessoa. 
Neste intervalo, passaram por aqui investigadores sul-africanos, franceses, suíços, britânicos, portugueses e peruanos e mais de trinta assistentes de campo. O projecto é agora coordenado por Rita Covas e Claire Doutrelant. Durante a época de reprodução dos tecelões, ambas visitam a área regularmente e por vezes trazem a família, mas este ano o coordenador do trabalho de campo durante oito meses sem folgas é Thomas Pagnon, um biólogo francês de 34 anos que tem corrido o mundo em diferentes projectos. 

Neste intervalo, passaram por aqui investigadores sul-africanos, franceses, suíços, britânicos, portugueses e peruanos e mais de trinta assistentes de campo.

Pergunto-lhe se planeia prosseguir uma carreira académica e Thomas recusa a perspectiva de imediato. Gosta mesmo do trabalho de campo.
E isso, aqui, não falta. A alvorada é todos os dias às 5 horas da manhã e a equipa de investigação inicia a ronda pelas colónias onde são contadas as novas posturas, assinalada a presença de cobras e marcadas e pesadas as crias com 3 ou 17 dias. Até há pouco tempo, eram posicionados observadores humanos debaixo das colónias que registavam a identidade dos indivíduos que entravam em cada ninho. Hoje, optimiza-se o esforço e reduz-se o risco de incidentes com cobras: o trabalho é feito com câmaras de filmar. 
Ainda assim, sob o sol do Kalahari, é preciso colocar e retirar câmaras todos os dias. Embora estejamos no início da época de campo, Thomas assegura que já existem cerca de novecentos clips com duas horas cada para visualizar. Perto do meio-dia, o calor torna-se demasiado intenso para as aves e para os investigadores. A tarde serve para carregar as baterias (das câmaras e dos investigadores) e para organizar a informação recolhida de manhã. 

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