Cientista portuguesa desvenda segredos do Kalahari

 Uma bióloga portuguesa trabalha há quase duas décadas com uma das espécies mais emblemáticas da África Austral. O tecelão-sociável tem uma história de cooperação num ambiente de recursos limitados. Temos algo a aprender com ele?

 Texto e Fotografia Alexandre Vaz

O tronco da árvore temporariamente revestido com plástico impede que as cobras atinjam a colónia. Não se trata de um mecanismo para diminuir a predação, mas sim de uma metodologia para identificar ninhos não atacados. Rita Covas,  Alexandre Badue e Thomas Pagnon posicionam as câmaras que vão registar que indivíduos visitam cada ninho.

 Dois biólogos e um sociólogo estão à sombra de uma acácia em plena savana africana. Podia ser o início de uma anedota, mas não é. Na verdade, o papel do sociólogo neste cenário seria absolutamente acessório, se não fosse o motivo que aqui traz os biólogos. 
A paisagem é rigorosamente plana e as acácias surgem espaçadas como as azinheiras do Baixo Alentejo. As semelhanças não se ficam por aqui: ao longe, escutam-se vocalizações de peneireiros--das-torres, enquanto um rolieiro espreita de um dos galhos espinhosos da acácia. 

A paisagem é rigorosamente plana e as acácias surgem espaçadas como as azinheiras do Baixo Alentejo.

No entanto, ao contrário de Portugal, onde a designação “montado” agrega povoamentos de sobreiro ou azinho com densidades muito distintas, aqui, na África do Sul, as designações dos diferentes habitats são, para um observador destreinado, bastante complicadas. São frequentemente identificadas por um vocábulo em que a segunda parte é composta pelo sufixo veld, um resquício do holandês arcaico e que significa genericamente “campo”. Em linguagem corrente, poderíamos traduzir busheveld por “mato”, mas depois há o highveld das zonas altas, o lowveld das zonas baixas, o thornveld composto por plantas espinhosas, o hardveld das zonas rochosas, só para citar alguns. 

Antes de retirar as crias de uma das câmaras que compõem o enorme ninho de tecelões, Rita Covas certificou-se, através de um  espelho com lanterna incorporada, de que no interior não estava uma cobra. 

 Aqui, nos arredores de Kimberley, estamos na orla do Kalahari e na transição para o Karoo. Quando me dizem que o habitat que temos pela frente se designa por sandveld, eu acredito e não faço mais perguntas. Descubro, porém, mal passamos além da orla das acácias, que o antigo lago fossilizado que avistamos ao longe contém hoje vegetação que constitui aquilo a que localmente se chama dwarf shrubland. Dou graças por não ter vindo aqui documentar e escrever sobre vegetação. 
Kimberley fica a dois terços do caminho entre a Cidade do Cabo e Joanesburgo, bem no centro do país. Quando se faz uma busca na Internet por imagens representativas deste território, há um cenário que se impõe sobre os demais: um enorme buraco designado sem eufemismos como “Big Hole”. 

Quarenta anos mais tarde, entre milhões de toneladas de terra e pedras, tinham sido retiradas daqui quase três toneladas de diamantes. 

Foi escavado à mão a partir do final do século XIX. Quarenta anos mais tarde, entre milhões de toneladas de terra e pedras, tinham sido retiradas daqui quase três toneladas de diamantes.
Foram os diamantes que colocaram a região no mapa e, com a sua descoberta, a empresa que viria a monopolizar este mercado adquiriu direitos sobre o território a que conseguiu deitar as mãos. 
Com o tempo e muita prospecção, percebeu-se que algumas destas propriedades não continham diamantes e foram assim convertidas em reservas naturais que hoje se podem visitar para observar vida selvagem ou caçar. Benfontein tem onze mil hectares e fica a dez quilómetros da cidade. É um desses exemplos de responsabilidade ecológica, embora, ao longe, os montes de escórias se iluminem à noite, já que algumas minas permanecem em laboração mesmo depois de o Sol se pôr.

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