Minas desactivadas em Portugal e a sua radioactividade: perigos e alertas

A paisagem das explorações mineiras é sinistramente contraditória. Lado a lado, convivem encostas floridas, fruto de acções de remediação, com lagoas e ribeiras de cores berrantes. 

 Dada a importância da actividade mineira em Portugal e em particular no Alentejo, Évora tem desenvolvido um esforço significativo na investigação ambiental associada às minas. São vários os projectos ali implementados, procurando minimizar os problemas causados pelas minas abandonadas. Deste esforço, resultaram doze artigos científicos, três teses de mestrado e oito trabalhos de fim de curso de licenciatura em química, geologia e biologia. De acordo com Paula Pinto, professora na Universidade de Évora, a remediação de minas que produzam condições ácidas pode passar pelo desenvolvimento de plantas tolerantes/acumuladoras após correcção das propriedades dos solos pela adição de materiais alcalinos, que fazem subir o pH, como cal apagada ou resíduos de pedreiras de mármore e adição de materiais derivados da compostagem de resíduos sólidos urbanos. 

O pH da água subiu para 6 e a concentração de metais foi reduzida em 95%, tornando-o uma opção válida para aplicação real.

Sob a égide do projecto GERMINARE, uma equipa da Universidade do Algarve, coordenada por Clara Costa, desenvolveu sistemas de biorreactores para remediação de águas ácidas por bactérias sulfatorredutoras, de forma a minimizar os impactes das explorações mineiras. Embora a sua implementação se tenha ficado por uma escala-piloto, os resultados foram impressionantes: o pH da água subiu para 6 e a concentração de metais foi reduzida em 95%, tornando-o uma opção válida para aplicação real.
Deixamos para trás as muralhas da cidade de Évora, a caminho da mina da Tinoca. Ali, encontra-se um exemplo paradoxal dos processos de reabilitação de áreas contaminadas. Na sequência do estudo de impacte ambiental da barragem do Abrilongo, a jusante na bacia hidrográfica, foi exigida a intervenção na mina. Esta viria a ser sujeita a medidas de recuperação, o que minorou o impacte ambiental, reduzindo a exposição dos resíduos ao clima. Infelizmente, porém, os trabalhos não foram finalizados – as águas recebidas pelo tanque não são tratadas, transbordando e, mais abaixo, a antiga barragem ruiu, deixando sedimentos tóxicos concentrados, com cerca de dois metros de espessura, à mercê dos efeitos erosivos da diminuta linha de água. 

Na sequência do estudo de impacte ambiental da barragem do Abrilongo, a jusante na bacia hidrográfica, foi exigida a intervenção na mina.  Infelizmente, porém, os trabalhos não foram finalizados.

 A oeste, no concelho de Estremoz, a pequena mina da Mostardeira, de 1863, tem sido usada como caso de estudo. Delimitada por duas linhas de água, partilha o território com explorações agrícolas de olival e cereais, que parecem não fazer caso dos níveis de arsénio 20 vezes superiores ao limite máximo legal, chegando em certos pontos a 1%, ou dez mil partes por milhão. Este foi, aliás, um dos factores que inviabilizaram o estabelecimento de espécies vegetais colonizadoras adequadas à recuperação das escombreiras e zonas circundantes. Ali, numa ilha de castanho envolta por um mar de verde, as chuvas invernais fazem transbordar sem controlo pequenas charcas esverdeadas, escoando a água pela encosta em direcção à ribeira mais próxima. 

Lúcia Rosado, da Universidade de Évora, analisa amostras de solo num sofisticado difractómetro de raios X para obter a sua caracterização mineralógica.

 Num fim de tarde chuvoso, regressamos, tentando conduzir, na segurança possível, um jipe cansado em que as escovas limpa-pára-brisas teimosamente se recusam a funcionar. No banco traseiro, António Candeias expressa optimismo na evolução dos métodos de remediação, mas frisa que as soluções passam sobretudo por vontade política, devido aos elevados custos e recursos envolvidos. O aproveitamento turístico deste legado arqueológico industrial, que começa a dar os primeiros passos, e a recente legislação nacional – que criou um fundo para o qual todas as empresas mineiras em laboração têm obrigatoriedade de contribuir e que será mais tarde investido na reabilitação de minas após o seu encerramento – são sinais positivos num cenário ainda negro. No ar fica a esperança de que, um dia, a ciência e os decisores políticos permitam apagar definitivamente a marca deixada na paisagem pela nossa incessante sede de recursos.

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