Quando Portugal fica pintado de um imenso cor-de-rosa

 Centenas de flamingos passam o Inverno em Portugal, mas ainda não nidificam.

Texto Ana Fialho   Fotografia Pedro Narra

Os flamingos posicionam o corpo paralelamente ao solo e arrastam a cabeça no lodo, filtrando a água através de lamelas no bico, dotado de um dispositivo pentiforme. Levantam a cabeça para respirar a cada 15 ou 20 segundos. 

 Nas antigas salinas desactivadas da margem meridional do estuário do Sado, um estranho vulto desloca-se lentamente nesta manhã fria de Janeiro. Visto de um ponto mais elevado, parece a câmara de ar de um pneu, gasta e suja, com restos de vegetação, boiando ao sabor do vento – um resíduo industrial numa zona pouco humanizada. No entanto, há algo metódico na deslocação deste pneu. Ele move-se na direcção da mancha purpúrea de penas e bicos. Perscrutando o intruso com mais minúcia do que aquela que os flamingos lhe dedicam, pressente-se um caçador. Não é, todavia, um caçador com arma de fogo. 

O Sado não é a região portuguesa mais significativa para o estudo das populações de flamingos.

É um caçador de imagens e o alvo são os fugidios Phoenicopterus roseus.
Pedro Narra despertou muitas manhãs frias de Janeiro à espera de um momento que valesse a pena “congelar”. O relógio marca as onze horas da manhã e está um frio de rachar. De joelhos na água, procurando desviar a mente para outros pensamentos que não a rigidez crescente dos membros inferiores, o fotógrafo desloca-se lentamente na direcção das aves. Para se camuflar nas águas paradas do estuário, onde a vegetação rareia, ele criou este abrigo flutuante. Trata-se de uma construção simples: uma placa de contraplacado marítimo sobre a câmara de ar de um pneu, que lhe permite a deslocação na água sem despertar temor nos animais. Assentando aí a máquina fotográfica, move-se de bruços, calçando galochas e vestindo um fato que facilita o mimetismo com a paisagem. É um trabalho paciente, impróprio para hiperactivos.

Sempre atentos à menor perturbação do seu habitat, os flamingos funcionam em grupo, precavendo-se contra os predadores ou intrusos. Estão continuamente em modo de alerta caso seja necessário levantar voo e fugir.

 Apontando furtivamente a mira, Pedro Narra encontra-se cada vez mais perto do bando. 
A maioria parece desinteressada do vulto. 
O dedo está prestes a premir o botão. Soa o disparo. Algumas aves esboçam um movimento de fuga, mas o bando permanece no local. O intruso foi tolerado.
O Sado não é a região portuguesa mais significativa para o estudo das populações de flamingos. Até 1990, a presença mais significativa foi sempre no estuário do Tejo, que registou um máximo de 1.321 indivíduos. No mesmo período, o Sado registou apenas um máximo de 187. Embora posteriormente tenham sido contados mais de mil indivíduos perto de Setúbal e, no ano excepcional de 2006, tenham sido avistados mais de dois mil, para Vítor Encarnação, coordenador da Central Nacional de Anilhagem do Instituto da Conservação da Natureza e da Biodiversidade (ICNB), o factor mais relevante é a irregularidade de presenças no Sado. “Tanto podem estar lá num dia algumas centenas, como na semana seguinte não estar nenhum, ao contrário do que ocorre nos restantes locais onde a sua presença é mais constante”, diz.

Na verdade, a ocorrência de flamingos-comuns em Portugal é antiga e foi documentada em diferentes períodos históricos.

Na verdade, a ocorrência de flamingos-comuns em Portugal é antiga e foi documentada em diferentes períodos históricos. Os naturalistas Albino Giraldes (1879) e Paulino de Oliveira (1896) observaram-nos no último quartel do século XIX e, ao longo da centúria seguinte, eles foram identificados por outros biólogos. Em 1923, Reis Júnior chegou a admitir a hipótese de eles nidificarem em território português. Depois de um hiato de algumas décadas, o biólogo António Teixeira em 1974 voltou a documentar a sua ocorrência no estuário do Tejo. 


 

Nos estuários do Tejo e do Sado, chegam a ser observados mais de cem flamingos num dia, possibilitando imagens como esta, tradicionalmente associada às grandes concentrações dos lagos quenianos. 

É provável que os anos de maior seca na Península Ibérica correspondam à ocorrência de um número mais elevado destas aves, mas os motivos para as suas escolhas continuam por explicar. “As causas tanto podem estar associadas à temperatura das águas, que é conjuntural, como podem ser tão simples como os ‘líderes’ de um bando grande já conhecerem um dos locais e irem para lá, ‘arrastando’ os outros”, explica Vítor Encarnação. 

É provável que os anos de maior seca na Península Ibérica correspondam à ocorrência de um número mais elevado destas aves.

Além disso, “as contagens são ‘fotografias’ de um dado momento e não um ‘filme’ de toda a situação. Os nossos estuários são sobretudo importantes como pontos de passagem”, diz o biólogo. Pode ter acontecido que a contagem correspondente a um determinado ano tenha sido efectuada num dia em que se encontrava de passagem uma maior quantidade de aves. Por outras palavras, falta melhorar a lupa através da qual se processa a monitorização.
Nesta manhã de Janeiro, Pedro Narra detecta mais de uma centena de indivíduos adultos. Alguns têm anilhas nos membros inferiores. Pedro Narra fotografa-as diligentemente e, mais tarde, estas fotografias permitem a Nuno Ventinhas, da Central de Anilhagem, elucidar-nos sobre a origem destes flamingos. As nove anilhas fotografadas correspondem a animais marcados quando eram juvenis entre 2001 e 2010, com proveniência das regiões de Málaga e Huelva, em Espanha, e de Bouches-du-Rhône, em França. 

Dois machos lutam entre si, entrelaçando os pescoços. Emitem sons roucos e um frenético bater de bicos rasga o ar.

 Neste grupo, alguns repousam com um membro inferior recolhido, outros secam e limpam as penas ou alimentam-se. Quase sempre em águas de pouca profundidade, submergem o pescoço, sugando moluscos, crustáceos, anelídeos, insectos e as suas larvas e matéria vegetal como sementes, diatomáceas e algas. 
O fotógrafo já está demasiado perto. Avança lentamente, tão devagar quanto a sua resignação toca o receio de espantar o bando. Está há cinco horas dentro de água e avançou apenas cem metros desde que entrou no lodo. Passando os muros que separam os reservatórios das salinas, chegou a um ponto em que não pode avançar mais sob o risco de o bando voar. Rodeado de flamingos num ângulo de 180º, fica apenas a contemplar. É um momento suspenso no tempo. Depois, uma ave levanta voo, seguida de outras. Uma centena de aves transforma-se numa chama vermelha, rasgando a força da gravidade.

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