Canyoning, bird, whalevolcano watching são neologismos conjugados com gosto nas quatro reservas da biosfera dos Açores. O objectivo é conservar a biodiversidade e aproveitar a maré ambiental.

Texto Gonçalo Pereira Rosa

O Poço da Alagoinha na ilha das Flores é uma das mais incríveis paisagens naturais da mais recente reserva da biosfera açoriana. Na ilha, espera-se agora que a distinção produza um impacte no turismo ecológico. Fotografia Paulo Henrique Silva/SRAM.

Em 1924, de visita aos Açores, o escritor Raul Brandão demorou-se duas semanas na ilha do Corvo. À primeira impressão, a ilha pareceu-lhe “um penedo e vento na solidão tremenda do Atlântico” e uma “pedra isolada no mar com alguns seres agarrados às leiras”. Ficou, mesmo assim. 
Deu conta depois que, em última instância, se a geografia molda as pessoas, também as pessoas moldam o ambiente. E o “mundo arredado” do Corvo mostrou-lhe outra faceta. “No Corvo, quando me sento à mesa, todos à mesma hora se sentam para jantar, e à noite não há desgraçado sem abrigo”, escreveu. “Na verdade, não vi andrajos nem miséria. Ninguém pede esmola. Se um adoece, os outros lavram-lhe as terras. Aos mais pobres acodem-lhe com queijos para o sustento do ano e todos matam um porco.”

Não seria certamente nestas passagens de “As Ilhas Desconhecidas” que uma dezena de corvinos pensava quando constituiu na década de 1990 uma reserva voluntária no Caneiro dos Meros. Foi um acto resultante de um desafio lançado por uma empresa de jovens empreendedores, que conseguiu convencer a comunidade piscatória de que algumas espécies com valor comercial não atingiam maiores dimensões porque eram capturadas demasiado cedo. Assim nasceu uma das primeiras reservas voluntárias portuguesas. Acordou-se formar uma bolsa de segurança, sobretudo para os meros. Não tem estatuto jurídico, mas representa um silogismo curioso. Mais tempo de vida, meros maiores, mais actividades de mergulho, mais receitas para a ilha.
Em 2007, o Corvo e a Graciosa tornaram-se reservas da biosfera, uma  distinção da UNESCO em reconhecimento aos bastiões de biodiversidade da Terra que coexistem nas proximidades de populações humanas. Trata-se de uma experiência global, que visa integrar actividades ambientalmente sustentáveis em economias tradicionais, incentivando medidas de conservação e iniciativas de educação ambiental.

Em 2007, o Corvo e a Graciosa tornaram-se reservas da biosfera.

 Por estes dias, bird watching (observação de aves) é um termo que passa de boca em boca no Corvo, na Graciosa, nas Flores e em São Jorge. Manuel Rita é o novo presidente da Câmara Municipal do Corvo, eleito em Setembro. É também o proprietário da residencial Comodoro, a única da ilha. Tem por isso um conhecimento íntimo desta gente de fora que, nos últimos anos, aflui ao Corvo em Setembro e Outubro para avistar aves. “Brinco com eles e chamo-lhes doentes”, diz. “Este ano, tivemos 29 turistas que ficaram todo o mês de Outubro. Um ainda cá está, aliás.
E quase todos já fizeram reservas para o próximo ano.”

A Caldeira do Corvo constitui o núcleo da reserva da biosfera constituída em 2007. Ali se concentram os principais endemismos da ilha. Fotografia Nuno Sá.

A observação de aves é uma das actividades que a reserva da biosfera potencia. Não produz impacte sobre a paisagem, vive da biodiversidade inerente à área protegida e injecta euros preciosos nas comunidades locais. “Eles andam muito. Passam o dia a caminhar e a procurar pássaros. Sabe? Gostam muito de ainda poder deixar os binóculos em qualquer lado e saber que ninguém lhes vai tocar”, explica o autarca.
Domingos Leitão é o coordenador do programa terrestre da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves e um dos defensores dos méritos do turismo ornitológico. No Reino Unido, a actividade gera 290 milhões de euros por ano. Segundo um relatório recente, há 25 milhões de viagens anuais na Europa motivadas pelo turismo ornitológico. Algumas já têm o Grupo Ocidental açoriano como destino.

O Corvo e as Flores têm uma vantagem geográfica, pois acolhem entre Setembro e Outubro muitas aves migratórias americanas que se perdem e param nas ilhas a meio da migração.

“O Corvo e as Flores têm uma vantagem geográfica, pois acolhem entre Setembro e Outubro muitas aves migratórias americanas que se perdem e param nas ilhas a meio da migração”, explica. Por isso, bird watchers britânicos e escandinavos afluem ali em busca de um raro vislumbre de espécies pouco habituais. Aproveitam estruturas como o novo observatório de aves das Flores ou calcorreiam a pé os trilhos das ilhas. E deixam-se ficar duas semanas, às vezes mais. “Têm idade avançada, por vezes já são reformados. Gozam de poder económico e têm formação ambiental. Preocupam-se com o consumo energético, exigem serviços de qualidade e são apaixonados pela natureza.”
Nas Flores, a história é parecida com a do Corvo, mas escreve--se nas ribeiras. A palavra-chave é canyoning, um desporto de aventura integrado na natureza. Num percurso delimitado ou a descobrir pelos praticantes, pede-se a transposição de uma ribeira, muitas vezes em acrobacias verticais. Por força da sua geografia, as Flores foram abençoadas com numerosas ribeiras.
E, já neste século XXI, o canyoning ganhou aqui a sua meca. A ilha foi classificada como reserva da biosfera em Maio deste ano e os promotores locais estão a começar a explorar a oportunidade.

No Pico da Sé, nas Flores, ainda é possível captar imagens como esta. A agricultura e a criação de gado mantêm um peso importante nas actividades económicas desenvolvidas na ilha. Fotografia Pedro Cardoso.

 Licenciado em desporto e florentino de gema, Marco Melo fundou a empresa West Canyon para fornecer uma oferta com forte componente ambiental ligada à exploração terrestre da ilha. Promove caminhadas e escalada, mas é o canyoning que o motiva. Começou em 2006, desafiado pela Associação Desnível, pioneira  da modalidade na ilha. Hoje, é um especialista.
Nas Flores, há 36 percursos devidamente sinalizados. E há outros ainda para os mais destemidos, que querem um nível de dificuldade maior. “Os praticantes descobrem uma ilha diferente e ribeiras que não conheciam. As Flores têm paisagens deslumbrantes e o canyoning é a maneira certa de as descobrir.” Com início tardio neste primeiro ano de actividade, Marco Melo guiou apenas pouco mais de duas dezenas de aventureiros em Agosto. Mas, no próximo ano, quer explorar melhor o filão da reserva da biosfera e das actividades que a distinção pode atrair.
Nem só de biodiversidade vive uma reserva da biosfera. “Aliás, o termo ‘biosfera’ mostra que os biólogos são mais aguerridos do que os geólogos”, brinca Victor Hugo Forjaz, fundador do Observatório Vulcanológico e Geotérmico dos Açores (OVGA) e docente na Universidade dos Açores. “A geologia também faz parte da natureza, sabe?”

Tal como com as aves e os cetáceos, há turistas que planeiam as suas viagens em função das formações geológicas que podem avistar.

Forjaz e o OVGA batem-se há alguns anos pelas oportunidades do turismo associado aos vulcões, o volcano watching. E têm T-shirts para o comprovar! Tal como com as aves e os cetáceos, há turistas que planeiam as suas viagens em função das formações geológicas que podem avistar. Normalmente, são residentes em áreas igualmente ricas em geodiversidade. “Escoceses, alemães do Reno, italianos do Etna e Nápoles, até ucranianos. Sabem que os vulcões têm muitas formas e querem conhecê-los melhor.”
O volcano watching já está inscrito no plano de actividades turísticas dos Açores e o Governo Regional está a preparar uma candidatura de todo o arquipélago a geoparque da UNESCO. O vulcanismo das ilhas, aliás, expressa-se em geomonumentos bem diferentes. No Corvo, há a caldeira e os cones strombolianos; nas Flores, as fajãs, os maars, as colunas prismáticas e as agulhas; na Graciosa, há a caldeira, grutas, lavas costeiras e alinhamentos de cones. A referência nesta área são as Canárias, e Forjaz lembra o exemplo de Lanzarote:
“A partir do momento em que se constituiu a reserva da biosfera, terminou a psicose do betão e começou a valorização da paisagem com fins turísticos. Pode acontecer nos Açores também.”

A Graciosa tem-se posicionado no mapa de turismo subaquático dos Açores, em particular do mergulho.

Na Graciosa, o entusiasmo com a reserva é menor. Porventura porque parte dos endemismos da ilha se concentram em ilhéus desabitados. Mesmo assim, a Graciosa tem-se posicionado no mapa de turismo subaquático dos Açores, em particular do mergulho. Para tal, já se organiza na ilha um campeonato internacional de fotografia subaquática e este ano realizou-se aqui a II Bienal de Turismo Subaquático.
Rolando Oliveira é o dono do Centro Náutico Graciosa, uma empresa que em 2009 acolheu cinco centenas de turistas, entre mergulhadores e acompanhantes. Para o ano, vai começar a observação de cetáceos. Para ele, o impacte da reserva da biosfera “tarda em sentir-se no terreno. O aumento do fluxo de turistas ainda resulta do investimento dos operadores locais”. Falta divulgar e agir para preservar o que torna a Graciosa especial. “Há corais negros a pouca profundidade, junto aos ilhéus. São uma das razões que atraem os mergulhadores. Uma âncora ali lançada destrói os corais. É preciso proteger e divulgar. Por isso, digo que ainda não sentimos as vantagens da reserva.”

O ilhéu da Baleia (à esquerda, na imagem) e a Ponta da Barca são duas das mais estranhas formações geológicas da Graciosa. Estes e outros ilhéus, aliás, constituem um valioso repositório da vida selvagem da ilha. Fotografia Pedro Cardoso.

A observação de cetáceos é uma indústria pujante. Em 2008, segundo o relatório do International Fund for Animal Welfare, gerou 11,5 milhões de euros em Portugal e os Açores asseguraram uma fatia de 5,5 milhões. O motivo? Há quase três dezenas de  espécies de cetáceos observáveis no arquipélago, o que entusiasma visitantes de todas as idades. Na Graciosa, espera-se agora que as marés tragam à ilha alguma desta riqueza.
A UNESCO oferece um bem simbólico, um bálsamo para a auto-estima: a reserva da biosfera é o reconhecimento internacional para lugares muito especiais do planeta.

A observação de cetáceos é uma indústria pujante.

E, aos poucos, o debate sobre a reserva impregna-se no quotidiano das populações afectadas. Na última campanha autárquica da ilha das Flores, debateu-se a necessidade de melhorar a gestão e valorização de resíduos, preservando melhor os ex-líbris da ilha. No Corvo, o debate eleitoral incidiu também sobre uma lixeira a céu aberto na área nobre da reserva e incluiu vídeos afixados no You Tube, lamentando o “postal”. Na Graciosa, procuram-se ainda formas de potenciar melhor o galardão. Em comum, porém, um orgulho especial. Afinal, as pérolas que fascinaram a UNESCO estão em três das mais pequenas ilhas dos Açores.

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