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RESERVA DA BIOSFERA A UNESCO reconheceu, em 2003, o valor natural dos Picos da Europa, 85 anos depois de a região ter sido distinguida como primeiro Parque Nacional de Espanha.

Texto de Antón Pombo

Os Picos da Europa são um dos parques nacionais mais assombrosos do continente. Constituído por três grandes maciços e dividido entre Astúrias, Cantábria e Leão, é um local de culto não só pelas suas montanhas e desfiladeiros, mas também pelos santuários de Santo Toribio de Liébana e de Covadonga.

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ROTA PELOS TRÊS MACIÇOS DO PARQUE
1 -
 Cangas de Onís Paragem imprescindível no centro de visitantes do parque, na ponte medieval e nas lojas de produtos regionais. 2 - Covadonga O santuário e os lagos de Enol e La Ercina são uma maravilha natural. Existem numerosos trilhos que percorrem este sector. 3 - Poncebos Este povoado é a origem de dois caminhos históricos: as subidas ao povoado de Bulnes e ao desfiladeiro do Cares vindo de norte. 4 - Garganta do Cares Um caminho de oito quilómetros liga Caín a Poncebos. 5 - Potes  Local essencial para conhecer o vale de Liébana, aceder ao teleférico da Fuente Dé e visitar o mosteiro de Santo Toribio de Liébana.

O maciço Ocidental, das Penhas Santas ou do Cornión, é o mais visitado. O passeio clássico por este sector começa em Cangas de Onís, cruzado pelo indómito Sella. A corte do incipiente reino das Astúrias há treze séculos é actualmente uma povoação de 4.500 habitantes repleta de hotéis e lojas que vendem produtos gastronómicos e material de montanha. A um passo dessa agitação, existem dois recantos bucólicos: a ponte ogival, com a Cruz da Vitória pendente sobre as águas do Sella, e o miradouro de Següencu, que oferece a primeira panorâmica sobre os Picos da Europa.

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CANGAS DE ONÍS A ponte romana, de origem medieval, aproveita a calçada primitiva romana.

Uma estrada conduz o viajante em poucos minutos a Covadonga, um desses locais especiais burilados pela natureza para deslumbrar. A primeira formação que se avista é a rocha do Auseva emergindo entre as florestas caducifólias, com a Santa Cova pendente da rocha e uma cascata que brota por baixo. Parece um devaneio, no entanto tudo é real, ainda que temperado com o espírito fantástico da reconstrução de 1877. A arquitectura torna-se aqui o complemento perfeito ao culto de Santina e Pelayo, figura histórica que repousa no local onde, a 28 de Maio do ano 722, ganhou a batalha que forjaria a sua épica história.

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COVADONGA As florestas e lagos foram a razão inicial para a classificação do parque. A basílica foi construída em 1901.

Os lagos de Enol e La Ercina são outros santuários da zona. A subida desde Covadonga, deixando para trás as concentrações de faias, é uma das etapas de montanha mais seguidas da Volta a Espanha: são 12,3 quilómetros nos quais se supera um desnível de 910 metros com inclinações de 17%. No topo, o viajante é premiado com dois lagos, começando pelo Enol, o mais profundo. Daqui partem rotas de caminheiros para todos os gostos, como os que conduzem aos miradouros do rei e de Ordiales, este último o mais distante, ou até às Penhas Santas de Enol e Castela, a segunda com 2.596 metros de altitude.

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LAGOS LA ERCINA E ENOL A escassos 12 quilómetros do santuário de Covadonga, são uma zona de trilhos muito populares e acessíveis.

Ao longo destas excursões, aparecem ocasionalmente lembretes da tradição pastoril dos redis, como os cuerres (currais de madeira) para o gado e para os rebanhos de vacas e ovelhas que, no Verão, são transferidos para as pastagens de altitude. É com o seu leite que se produz o queijo de Gamonéu, típico dos concelhos de Onís e Cangas e justamente aclamado como um dos produtos mais exuberantes da região.

 

UM REFÚGIO PARA A FAUNA As florestas, prados, picos e desfiladeiros protegem alguns dos mamíferos e aves mais representativos da Península Ibérica.

 O VALE DE CABRALES

Subindo o rio Güeña por Onís, alcançamos o vale de Cabrales, irrigado pelo rio Cares e também famoso pelo seu queijo. É assim que entramos no maciço Central, ou dos Urrieles, com o totem Naranjo de Bulnes ou Picu Urriellu (2.519m), que adquire um tom alaranjado ao entardecer.
A sua fama provém do desafio que lança aos alpinistas, pois a sua face a oeste é uma parede vertical de quinhentos metros que requer por norma uma ascensão lenta e, com frequência, a pernoita do montanhista em suspensão na parede.

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POVOADOS DA MONTANHA Bulnes, Tresviso e Sotres (na imagem) viveram praticamente isolados até há poucas décadas.

Outro dos mitos da região é o do queijo de Cabrales, produzido com o leite cru de vaca, de ovelha e de cabra, e maturado em cavernas naturais entre dois a seis meses até que adquire os fungos que lhe dão as típicas manchas verdes, assim como a textura amanteigada e o ligeiro sabor picante.

Se continuarmos a subir o curso do rio Cares desde Arenas de Cabrales, ao sexto quilómetro aparece-nos Poncebos. Nesta aldeia, há duas formas de aceder à Peña, nome que os naturais de Cabrales dão ao maciço: através das suas entranhas pela surpreendente garganta do Cares – um caminho de oito quilómetros que percorre o povoado de Caín – ou no funicular de Bulnes que, em sete minutos, conquista 402 metros de desnível sob a terra.

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O CARES Esta garganta separa os maciços Oeste e Central. A rota de ida e volta entre os povoados de Poncebos e Caín dura seis horas.

A subida a bordo do funicular assemelha-se a uma viagem para outra dimensão porque, num instante, encontramo-nos em plena montanha, num núcleo com somente vinte habitantes que até 2001 teve como único acesso o caminho do canal do Tejo. Actualmente, o velho caminho tornou-se um trilho popular de descida até Poncebos que dura perto de duas horas. O desfiladeiro de la Ermida, escavado pelo rio Deva e povoado de pomar, penetra no vale de La Liébana (na Cantábria), principal acesso ao maciço Oriental. Mesmo à entrada do vale, um microclima permite ocasionalmente o cultivo de videiras. Ali ergue-se a igreja moçárabe de Santa María de Lebeña, com três naves, arcos em ferradura e um teixo sagrado no adro.

Um pouco mais à frente encontramos Potes, cujo emblema é a Torre do Infantado (do século XV). Este povoado é o melhor local para adquirir os queijos defumados de Aliva, os de Lebeña e o queijo de Tresviso e também para provar o bagaço local e o cozido de Lebeña.

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POTES Com as suas casas suspensas sobre o rio Deva, esta localidade é uma excelente base para conhecer Liébana.

Três quilómetros depois, ergue-se o mosteiro de Santo Toribio. Para além da memória do abade Beato de Liébana, autor da obra “Comentarios al Apocalipsis”, um best-seller que não faltava nas melhores bibliotecas medievais, guarda a relíquia do fragmento da cruz de Cristo. Considera-se ali Ano Santo sempre que a festa do padroeiro, no dia 16 de Abril, coincide com um domingo.
Fuente Dé, local onde nasce o rio Deva, volta a devolver-nos à montanha. Daqui parte um teleférico que, em 1966, deixou de transportar minério e foi reconfigurado para deleite dos turistas que daqui ascendem ao miradouro de Cabel, a 1.834 metros. A extraordinária panorâmica só pode ser comparada com a que é oferecida pelos miradouros do Corzo e do Oso, já na província de Leão. 

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NARANJO DE BULNES É o emblema do parque. A sua silhueta singular avista-se nos trilhos do maciço Central.

OS CAMINHOS CLÁSSICOS DO PARQUE

De passeios de poucas horas até travessias de vários dias, os itinerários dos Picos da Europa são tão variados como o seu público: famílias com crianças, caminhantes experientes, alpinistas… Alguns trilhos são antigas veredas estreitas de pastores que conduziam o gado aos prados de Verão, outros são velhas rotas de mineiros ou veredas entre vales que foram substituídas por estradas e funiculares. O parque organiza saídas guiadas que, classificadas pelo tempo de duração e dificuldade, descobrem estas fantásticas montanhas do Norte peninsular.

 

1- LAGOS DE ENOL E ERCINA O estacionamento de Buferrera é o início das rotas guiadas que o parque organiza em volta destes lagos. Com uma duração de três a quatro horas, passam por prados onde antigamente os pastores se instalavam com as suas famílias durante o Verão. Passam também perto de velhas minas do século XIX.

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2- CAMINHO DO ARCEDIANO O Caminho do Arcediano foi em tempos uma via de comunicação entre o Oriente asturiano e as terras de Leão. 

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3- ROTA DO CARES Une Poncebos e Posada de Valdeón e completa-se em seis horas. Da ermida de São Pedro em Camarmeña vislumbra-se o desfiladeiro.

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4- BULNES Durante séculos, a aldeia asturiana de Bulnes esteve isolada entre montanhas. O único acesso rodoviário até 2001 era o canal do Tejo, via íngreme e arriscada.. Hoje, Bulnes – com as suas fachadas típicas, já recuperadas – abre-se ao turismo, em  parte graças ao teleférico, que sobe desde Ponte Poncebos em sete minutos, vencendo um desnível de 647 metros.

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5- CABALLAR Esta rota é a mais recomendável para conhecer o maciço Oriental. Parte do povoado de Sotres e dura três horas e meia.

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6- FUENTE DÉ O teleférico permite subir ou aproximar-se dos picos mais altos. O itinerário guiado dos Horcados Vermelhos (5 horas) aproxima-se de Naranjo de Bulnes.

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7- NARANJO DE BULNES É a montanha mais emblemática dos Picos da Europa e a conclusão natural da aventura na região.

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CADERNO DE VIAGEM

COMO CHEGAR Cangas de Onís dista 110km do aeroporto das Astúrias e 72km de Oviedo. Para explorar a região, o meio mais adequado é o aluguer de automóvel. O acesso a Covadonga no Verão tem de ser feito através de autocarro ou táxi (www.consorcioasturias.com).
ONDE FICAR Casas de turismo rural, hotéis, parques de campismo e refúgios no interior do parque. O campismo livre é proibido.
MAIS INFORMAÇÃO O parque tem vários centros de acolhimento de visitantes: em Casa Dago, Cangas de Onís, Liébana, Pousada de Valdeón e Pedro Pidal em Covadonga.
www.picosdeeuropa.com

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