Dois milhões de quilómetros quadrados acrescentados às áreas marinhas protegidas dos EUA

 Barack Obama acrescentou mais de 2,2 milhões de quilómetros quadrados de oceano à rede de áreas marinhas protegidas dos EUA. Mas ainda há muito por fazer.

Texto Cynthia Barnett   Fotografia Brian Skerry

Um leão-marinho caça num aglomerado de laminárias num monte submarino ao largo de San Diego. Estes tesouros de vida justificam protecção, afirmam os conservacionistas. 

Cento e sessenta quilómetros a nordeste do porto de Boston, baleias-sardinheiras investem e rebolam, com os lustrosos ventres brancos reluzindo nas águas cinzentas do Atlântico Norte. No auge de cada investida, abrem as bocarras para filtrar massas de copépodes minúsculos presentes na água. Logo de seguida, expelem a água pelas pregas guturais. A bombordo do Plan b, o navio do filantropo Ted Waitt, um cardume de arenques persegue os mesmos crustáceos, agitando a superfície. Entretanto, numa plataforma rochosa 15 metros abaixo, os cientistas do navio observam julianas, bacalhaus e bodiões alimentando-se em longas pradarias de laminárias. 

BAIXIO DE CORTÉS, 180 quilómetros a Oeste de San Diego, Oceano Pacífico - Um bodião e outros peixes esgueiram-se entre laminárias e algas no baixio de Cortés. Erguendo-se mais de um quilómetro e meio acima do leito marinho, o monte força a subida de água do fundo rica em nutrientes até à superfície, contribuindo para a criação de um oásis fértil.

Cashes Ledge é a montanha submarina mais alta do golfo do Maine e um espectacular banquete em movimento. Ao fluírem sobre as suas cumeeiras de granito, as marés projectam até às profundezas as ondas internas de água quente carregadas de plâncton provenientes da superfície. Estas ondas descendentes permitem aos peixes de fundo alimentar-se tão bem como os seres que habitam a meio da coluna de água – as baleias, os arenques e as aves marinhas que voam sobre a superfície e mergulham. Neste local, as marés e a topografia conspiraram para preservar um vestígio da riqueza que em tempos definiu o golfo do Maine… até ao momento em que a pesca o esgotou por completo. 

No slideshow: O novo santuário - George W. Bush criou o Monumento Nacional Marinho de Papahānaumokuākea em 2006, protegendo as ilhas no Noroeste do Havai e o mar em seu redor. Em 2016, Barack Obama quadruplicou a dimensão do monumento. Dias mais tarde, praticou mergulho em apneia ao largo das ilhas de Midway. Aqui estão oito das sete mil espécies locais. Vários pescadores opuseram-se à utilização da Lei das Antiguidades para designar monumentos marinhos, mas os conservacionistas e os cientistas consideram-na um meio importante para a conservação dos últimos lugares grandiosos dos mares. Fotografia David Liittschwager e Susan Middleton.

“Cashes é, essencialmente, uma máquina do tempo que nos transporta até às costas de Nova Inglaterra de há quatrocentos anos”, afirma Jon Witman, ecologista marinho da Universidade de Brown que estuda este sítio especial há mais de três décadas. A oceanógrafa Sylvia Earle, exploradora residente da National Geographic, designa Cashes como “a Yellowstone do Atlântico Norte”, um tesouro que vale a pena preservar, apesar de não ser visitável a bordo de autocaravanas.
Nesta era em que os oceanos são explorados até ao limite, Sylvia Earle integra um grupo de cientistas marinhos e conservacionistas que se dedica a tentar preservar alguns dos últimos locais prístinos dos mares norte-americanos. Desde Cashes, em Nova Inglaterra, às florestas de coral de águas frias das Aleutas Ocidentais, no Alasca, aos baixios de Cortés e Tanner ao largo de San Diego, estes peritos imaginam uma cadeia de santuários marinhos norte-americanos ligados a uma rede global suficientemente grande para conseguir salvar e restaurar os oceanos.

O baixio de Cortés é um dos mais movimentados pontos de encontro de mamíferos marinhos do mundo. Cerca de três dezenas de espécies passam pelo menos parte do ano aqui, incluindo estes golfinho-lisos-boreais, que geralmente nadam em grupos de cem ou mais. 

 Desde a presidência de Theodore Roosevelt, no início do século XX, os EUA já designaram mais de mil e duzentas áreas marinhas protegidas, que cobrem um quarto dos mares do país. No entanto, não estão a travar o declínio da vida marinha, assegura Robin Kundis Craig, especialista em oceanos. Na grande maioria das águas protegidas, é permitido, no mínimo, algum tipo de pesca ou extracção de recursos. “Estaremos mais interessados em preservar os nossos recursos marinhos ou em explorá-los?”, pergunta Robin Craig. “Em rigor, ainda não resolvemos este debate.”

Na grande maioria das águas protegidas, é permitido, no mínimo, algum tipo de pesca ou extracção de recursos.

No Verão passado, o presidente Barack Obama tentou resolvê-lo em duas arenas, utilizando a sua autoridade ao abrigo da Lei das Antiguidades, que permite ao presidente proteger zonas públicas com relevância histórica ou científica. Assim, quadruplicou o tamanho do Monumento Marinho Nacional de Papahānaumokuākea, no Noroeste do Havai, para mais de 1,5 milhões de quilómetros quadrados. Agora, só a pesca recreativa ou de subsistência são permitidas no monumento, o que o tornou um santuário de espécies ameaçadas como a baleia-azul e a foca-monge-havaiana, de predadores de topo como o atum e o tubarão e de alguns dos recifes de coral mais setentrionais saudáveis do mundo, que se encontram entre os mais prováveis sobreviventes ao aquecimento global.

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