Cabra-montês: a elegância à beira do abismo

Após anos de assédio cinegético, a cabra-montês vive dias de expansão. Na província espanhola de Granada, esta espécie autóctone da Península Ibérica habita territórios diversificados, entre os cumes das montanhas e o mar.

Texto Eva van den Berg   Fotografia Ugo Mellone

Durante a época do cio, em Novembro ou Dezembro, os machos enfrentam os rivais com golpes da cabeça para definir quem merece a posição mais alta na hierarquia. Só o vencedor acasalará com as fêmeas do seu grupo. 

 Diz o ditado popular que a cabra volta sempre ao monte, mas isso não é bem verdade.
Ou pelo menos não o é no que respeita à cabra-montês (Capra pyrenaica), esse emblemático ungulado autóctone da Península Ibérica que aprecia uma grande variedade de territórios, para além dos meramente alpinos. Na província de Granada, a sua área de distribuição estende-se desde os cumes das montanhas até às praias. Nas serranias do Gerês, a sua distribuição é mais confinada aos grandes picos montanhosos, onde o contacto com seres humanos é mais raro. Tal como se adaptou a altitudes superiores a três mil metros, este magnífico animal também se passeia pela orla costeira.

Um grupo de cabras, entre machos e fêmeas, caminha por uma encosta da serra Nevada. Durante o Inverno, costumam descer abaixo de 2.400 metros de altitude, para zonas onde se acumula menor quantidade de neve.

 Durante muitos anos, a cabra-montês foi alvo de pressão cinegética excessiva que teve por consequência a extinção de duas das quatro subespécies que ainda há pouco tempo povoavam várias zonas da península. Hoje, restam apenas a C. pirenaica hispanica, de distribuição mais centrada no arco montanhoso mediterrânico e cuja colónia principal se encontra na serra Nevada, e a C. pyrenaica victoriae, que habita sobretudo o Sistema Central, mais concretamente a serra de Gredos, a partir da qual se realizaram operações de repovoamento em Las Batuecas, na serra de Guadarrama, Riaño, Invernadeiro e, mais recentemente, nos Pirenéus de França. 

Dois machos avaliam a disponibilidade de uma fêmea no Parque Nacional da Peneda-Gerês. Em 1890, a cabra foi considerada extinta nesta região. Um século depois, animais fugidos de um cercado em Espanha regressaram a este território ancestral. Fotografia Luís Borges.

 Quanto às outras duas, uma era oriunda de Portugal (C. pyrenaica lusitanica) e extinguiu-se em finais do século XIX. Actualmente, apenas uma população de cabras vindas da Galiza vive em Portugal, depois de recolonizar alguns territórios do Parque Nacional da Peneda-Gerês. 
A quarta subespécie, o tristemente célebre bucardo (C. pyrenaica pyrenaica), extinguiu-se na viragem para o século XXI. No dia 6 de Janeiro de 2000, foi encontrado morto o seu último exemplar, uma fêmea, no Parque Nacional de Ordesa e Monte Perdido, nos Pirenéus de Huesca. Foi o culminar de uma morte longamente anunciada, precedida pela extinção da subespécie na vertente dos Pirenéus franceses em finais do século XIX.

No Outono, na época do cio, são comuns os avistamentos de cabras a escalar os penhascos mais inacessíveis. Nesta imagem, um macho (à direita, com chifres) e uma fêmea destacam-se diante de uma floresta caducifólia na serra Nevada.

 Actualmente, as duas subespécies sobreviventes em território peninsular ocupam diferentes áreas de distribuição, sem qualquer sobreposição. Segundo os últimos censos realizados em Espanha há dez anos, existiam cerca de cinquenta mil exemplares, dos quais aproximadamente quarenta mil pertenciam à subespécie hispanica. Hoje, porém, serão seguramente muitos mais. Os dados encontram-se agora em processo de revisão. “As populações de Capra pyrenaica hispanica estendem-se desde Gibraltar à foz do rio Ebro. Destacam-se as populações do Parque Nacional e Parque Natural da Serra Nevada, do Parque Natural das Serras de Cazorla, Segura e Las Villas, Puertos de Tortosa-Beceite e Muela de Cortes”, explica José Enrique Granados, técnico e investigador da Agência do Meio Ambiente e Água da Junta da Andaluzia, que trabalha no Parque Nacional e Parque Natural da Serra Nevada.

Dois machos defrontam-se num ritual carregado de tensão durante a Primavera. 


Antes de iniciar a cópula, o macho retrai o lábio superior (o chamado reflexo de Flehmen) depois de ter induzido a fêmea a urinar para poder assim captar o odor que ela liberta e avaliar a sua receptividade sexual.

Apesar de a União Mundial para a Conservação da Natureza ter atribuído às duas subespécies a categoria de vulnerável, “ambas se encontram actualmente em franca expansão, o que se tornou possível graças às medidas de protecção implantadas na segunda metade do século XX, com a criação de coutos e reservas nacionais de caça e, sobretudo, ao abandono do mundo rural, que permitiu um grande número de repovoamentos”, explica este especialista, que acompanha há mais de vinte anos a população da serra Nevada, sem dúvida a maior de toda a península, com cerca de 15 mil exemplares, e também a mais diversificada em termos genéticos.

Na Península Ibérica, existem cerca de cinquenta mil exemplares de cabra-montês, pertencentes a duas subespécies: Capra pyrenaica hispanica, que representa 80% dos indivíduos e distribuída por todas as serras próximas do Mediterrâneo, com a sua colónia mais importante na serra Nevada (em cima, as ravinas da depressão de Guadix); e Capra pyrenaica victoriae, que ocupa o Noroeste e Centro peninsular e cuja população principal se encontra na serra de Gredos.

“Na Andaluzia, há mais de trinta núcleos populacionais de cabra-montês”, acrescenta. “O núcleo da serra Nevada é alvo de um plano de gestão, com acompanhamento da população e monitorização das doenças que a afectam, fundamentalmente a sarna, e manutenção de exemplares cativos naquilo a que chamam a ‘estação de referência da cabra-montês da serra Nevada’, para que funcionem como reservatório genético da espécie e possam ser objecto de planos de investigação e gestão elaborados por cientistas, técnicos e estudantes pós-graduados.”
Nestes territórios, as cabras têm poucos predadores, também eles praticamente desaparecidos. “A caça é permitida na maioria das populações andaluzas, embora incida fundamentalmente num sexo e idade determinada”, explica o biólogo.

No Verão, as cabras acorrem aos borreguiles, prados húmidos no alto das montanhas que são uma espécie de oásis num ambiente tão pedregoso. Duas crias iniciam-se na arte da luta, com jogos essenciais para o sucesso da sua fase adulta. 

 “A taxa de extracção é sempre menor do que a taxa anual de reprodução, razão pela qual a densidade aumenta progressivamente. Tendo em conta que a maioria das populações de cabras divide o seu território com outros ungulados selvagens e domesticados, pode haver grande pressão sobre o coberto vegetal, provocando a sua deterioração.
É nestas situações de alta densidade que se verifica o aparecimento e propagação de doenças infectocontagiosas, como a sarcoptose.” 

Uma cria pede à progenitora para ser amamentada. 

 Um dos maiores problemas que afectam actualmente a conservação da cabra-montês é precisamente o surto de sarna sarcóptica, uma doença parasitária altamente contagiosa que chegou a ser responsável por elevadas taxas de mortalidade. Em 1987, durante um surto ocorrido no Parque Natural das Serras de Cazorla, Segura e Las Villas, 97% da população morreu em apenas quatro anos. 
Posteriormente, operações de acompanhamento a animais doentes equipados com coleiras de localização por GPS e infestações experimentais introduzidas pelos investigadores revelaram a existência de indivíduos resistentes à sarna na serra Nevada. “A doença gerada por Sarcoptes scabiei afecta uma grande variedade de mamíferos e tem maior incidência nos meses de maior humidade relativa: Fevereiro e Abril”, explica José Enrique Granados. 

Um macho desce pelas ravinas da depressão de Guadix, na província de Granada, demonstrando a assombrosa agilidade que caracteriza a espécie.


Uma fêmea corre junto da margem de um lago de montanha, a 2.900 metros de altitude.

Estes agentes infecciosos alimentam-se da pele. As fêmeas escavam galerias no estrato córneo, ali depositando os ovos, a partir dos quais eclodem larvas que, por sua vez, se dirigem à superfície da pele. A sua profusão provoca deterioração da pele, perda de peso e alteração dos valores fisiológicos e hematológicos, um quadro que aumenta as possibilidades de infestações secundárias passíveis de provocar a morte do hospedeiro.

As fêmeas escavam galerias no estrato córneo, ali depositando os ovos, a partir dos quais eclodem larvas que, por sua vez, se dirigem à superfície da pele.

Também há outros problemas, afirma Pelayo Acevedo, do Instituto de Investigação de Recursos Cinegéticos da Universidade de Castilla-La Mancha, sediado em Ciudad Real. “A possível concorrência com outros ungulados, como o gado caprino e o muflão-africano, e os potenciais efeitos negativos da caça ou do excesso de turismo no seu habitat” são factores complexos. Este investigador participou em vários estudos para caracterizar o estado das populações e estabelecer normas para a sua gestão, principalmente das populações da comunidade de Castilla-La Mancha. O muflão-africano, oriundo do Saara e do Magrebe, é um caprino introduzido pela primeira vez em Espanha em 1970, em resposta à grande exigência de animais de caça de grande porte. Actualmente, é considerado uma espécie invasora, tanto na Península Ibérica como nas Canárias, mais especificamente em La Palma, onde causa danos graves à fauna autóctone.

A cabra-montês desloca-se entre penhascos com total segurança graças à peculiaridade das suas patas, cada uma das quais com uma “sola” áspera e antiderrapante e quatro pontos de apoio.

A cabra-montês prospera actualmente em paisagens muito diversificadas, sobretudo nas terras de Granada, onde o fotógrafo italiano Ugo Mellone, ali instalado desde 2013, a captou em todo o seu esplendor ao longo de três anos, brincando nos cumes montanhosos, escalando paredes de argila, subindo os penhascos costeiros ou saltando entre as escarpas nas quatro estações do ano. “Haverá melhor forma de conhecer e penetrar na paisagem granadina do que acompanhar a cabra-montês nas suas idas e vindas pelo território?”, pergunta. “É incrível observá-la quando faz as suas fabulosas acrobacias, desafiando a força da gravidade graças à poderosa capacidade de fixação das suas patas, cada uma das quais dotada de quatro pontos de apoio.”
Este robusto ungulado é, sem dúvida, um dos mamíferos mais ágeis do planeta, graças às suas patas adaptadas e à sua potente musculatura.

Um macho descansa, aninhado na base de um morro que sobressai, como uma atalaia,entre as ravinas da depressão de Guadix. 

 Os machos são muito maiores do que as fêmeas e ostentam grandes chifres (cujo tamanho e qualidade estão associados à mobilidade do esperma), possuem barba e crina e exibem grandes manchas negras numa pelagem que muda com o passar das estações: mais clara no Verão e mais escura no Inverno. Em média, um indivíduo mede 97 a 148 centímetros, com 65 a 84 centímetros de altura no garrote. O peso oscila entre 30 quilogramas e os 90 alcançados pelos machos adultos de maior porte.

Os machos são muito maiores do que as fêmeas e ostentam grandes chifres (cujo tamanho e qualidade estão associados à mobilidade do esperma), possuem barba e crina e exibem grandes manchas negras numa pelagem que muda com o passar das estações

“Embora a cabra-montês esteja associada a paisagens de montanha, abruptas e despovoadas, o seu padrão de distribuição é mais influenciado por factores de índole climática do que por questões orográficas ou de actividade humana”, afirma José Enrique Granados. Segundo este padrão, existe uma diferença clara na distribuição das duas subespécies: a victoriae ocupa o Noroeste e Centro da península e a hispânica o Sul e o Leste. A grande heterogeneidade dos territórios provoca grande variação entre as populações, o que afecta inclusivamente a longevidade dos indivíduos. “Nas populações de cabras que se alimentam de plantas assentes sobre um substrato calcário, os machos chegam a viver 18 anos. Entre as que vivem em substratos de silício, a esperança de vida é cinco ou seis anos inferior”, comenta o investigador. 

Um exemplar desce a encosta de um frondoso pinhal na serra Nevada durante o Inverno.

Adaptadas para escalar e pastar, as cabras são gregárias e têm períodos de actividade sobretudo ao amanhecer e ao entardecer. As fêmeas mantêm-se juntas, acompanhadas pelos indivíduos mais jovens, com 1 ou 2 anos, e os machos formam grupos separados. Esta divisão só se interrompe na época do cio, que ocorre em Novembro ou Dezembro. A espécie é polígama: um único macho (um adulto com mais de 8 anos) fecunda um numeroso grupo de fêmeas. 
Esta circunstância provoca forte competição entre machos. Nessas disputas, eles defrontam-se com cabeçadas e golpes de chifres para saírem vencedores na batalha da reprodução. Em finais de Novembro, as hierarquias já estão definidas e os vencedores começam a cortejar as fêmeas. O macho fica atrás da fêmea com a cabeça e o pescoço bem esticados, dando golpes com a pata dianteira e batendo com a língua, produzindo desta forma um som que induz a fêmea a urinar.

Nessas disputas, eles defrontam-se com cabeçadas e golpes de chifres para saírem vencedores na batalha da reprodução.

A retracção do lábio superior do macho (conhecida como reflexo de Flehmen) favorece a chegada das partículas odoríferas ao seu órgão vomeronasal (ou de Jacobson), muito sensível às feromonas e útil para avaliar a intensidade do cio da fêmea.
Na época do cio, é frequente ver um grupo de machos perseguindo a mesma fêmea. Enquanto ela não estiver receptiva, fugirá do assédio, provocando disputas colectivas. As fêmeas que ficarem prenhes terão um período de gestação de cerca de 155 dias e, em média, parirão uma única cria. A progenitora escolhe um local de difícil acesso e permanece sozinha e atenta à cria durante a primeira semana, juntando-se depois às outras fêmeas para partilhar os cuidados dos novos cabritos.

Em Fevereiro de 1999, o ambientalista Miguel Dantas da Gama avistou três cabras nas escarpas do Gerês, uma observação inédita em praticamente um século. Década e meia depois, instantâneos como este voltaram a ser comuns no único parque nacional português. Fotografia Luís Borges.

Surge assim uma nova geração, representativa desta espécie emblemática que já ocupava este território há milhares de anos. “Na província de Granada, encontraram-se vestígios pré-históricos de caprinos no sítio arqueológico de Zafarraya e na região de Orce, onde apareceram os fósseis da espécie de cabra conhecida mais antiga da Península Ibérica e, provavelmente, da Europa, com 200 mil anos de antiguidade, a Capra baetica.” Por enquanto, as descendentes dessa cabra ancestral que, no seu tempo, viveu, juntamente com elefantes, rinocerontes, antílopes, girafas, hienas e até com tigres-de-dente-de-sabre, têm sobrevivido ao progresso humano. A continuação das suas cabriolices por muitos anos, na sua infinita graciosidade selvagem, em desafio da gravidade, pulando entre o céu e a terra, seria o mais claro sinal de que fomos dignos da sua companhia. 

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