Crianças de todo o mundo contam como o género afecta as suas vidas.

Texto Eve Conant   Fotografia Robin Hammond

Avery Jackson -  Kansas City, MIssouri, EUA: “A melhor coisa de ser rapariga é já não ter de fingir que sou um rapaz.”

Se quiser respostas sinceras sobre o modo como o género molda o destino, pergunte às crianças de 9 anos.
Aos 9 anos, uma menina no Quénia sabe que os seus pais irão dá-la em casamento, a troco de um dote, a um homem que talvez venha a espancá-la. Aos 9 anos, um rapaz na Índia sabe que será pressionado pelos outros rapazes a assediar sexualmente as mulheres na rua.

Sunny Bhope - Aharashtra, ÍNDIA: “A pior coisa de ser rapaz é que eles têm de roubar coisas e dar-em-cima-da-Eva [assediar mulheres].”

Aos 9 anos, crianças de todo o mundo, da China ao Canadá, do Quénia ao Brasil, descrevem sonhos grandiosos, mas os rapazes não falam do género a que pertencem como obstáculo, enquanto as raparigas o fazem com muita frequência. 
À beira da mudança, na última antecâmara que separa a infância da adolescência, as crianças de 9 anos ponderam inquestionavelmente as suas próprias possibilidades e os limites que o género a que pertencem lhes impõe. 

Fang Wang - Aqueshui, CHINA: “Por vezes, ajudo o meu irmão mais velho às escondidas [na quinta]. Quando a minha mamã descobre, bate-me. Diz que as raparigas que fazem estas coisas, ficam com calos nas mãos e depois tornam-se feias.”

Para compreender o ponto de vista destas crianças, a National Geographic entrou em 80 lares de quatro continentes. Das favelas do Rio de Janeiro aos arranha-céus de Pequim, fizemos as mesmas perguntas a um leque diversificado de crianças de 9 anos. E os nossos interlocutores não mediram as palavras. 
Muitos reconheceram prontamente que a adaptação às comunidades onde vivem e aos papéis que se espera que venham a desempenhar pode ser difícil, frustrante, confusa e solitária. Outros vão levando uma boa vida, enquanto ultrapassam os obstáculos impostos pelo género.

Nawar Kagete - Kaputir, QUÉNIA: “Uma rapariga é seduzida em todo o lado. É perseguida pelos homens. Se for buscar água, é perseguida. Se for apanhar lenha, é perseguida.”

Qual é o melhor aspecto de ser rapariga?
Avery Jackson sacode dos olhos uma madeixa de cabelo com as cores do arco-íris e reflecte sobre a questão. “Tudo é bom quando se é rapariga!”
Qual é o pior aspecto de ser rapariga?
“A maneira que os rapazes têm de dizer sempre: ‘Isso não é para raparigas.’” 
Avery passou os primeiros quatro anos da sua vida como rapaz, sentindo-se infelicíssima. Vivendo abertamente como rapariga transexual desde 2012, Avery, nascida e criada em Kansas City, encontra-se agora no epicentro do debate em curso sobre os papéis desempenhados por cada género e os respectivos direitos. 

 

Mikayla McDonald - Otava, CANADÁ: “Não há nada que eu não consiga fazer só porque sou rapariga. Somos todos iguais. Há sempre as mesmas oportunidades para todos, mas antigamente nem todos eram iguais.” 

Os crescidos falam sobre o assunto, mas os miúdos como Avery também querem intervir no debate. “As crianças de 9 anos podem revelar uma clareza de raciocínio e uma sensatez impressionantes”, afirma Theresa Betancourt, professora associada de saúde infantil e direitos humanos na Universidade de Harvard. Elas enfrentam a pressão dos pares e uma responsabilidade crescente, mas não são tão afectadas pela resignação e pela autocensura trazidas pela adolescência.

Yingzhi Wang - Pequim, CHINA: “Acho que a pior coisa de se ser rapaz é assediar as raparigas, porque, geralmente, as raparigas são mais fracas e mais pequenas e também são tímidas… Os rapazes deveriam proteger as raparigas, tal como o meu pai protege a minha mãe e é responsável pela nossa família.”

Na sua pequena casa perto de Mumbai, na Índia, Sunny Bhope responde que o pior aspecto de ser rapaz é a expectativa de que ele adira ao “dar-em-cima-da-Eva”, eufemismo usado na sua cultura para referir o assédio sexual às mulheres em público. 
Para Yiqi Wang, em Pequim, o melhor aspecto de ser rapariga é o facto de “sermos mais calmas e credíveis do que os rapazes”. E para Juliana Meirelles Fleury, no Rio de Janeiro, o melhor é… “podermos entrar primeiro no elevador”.

Jiayi Fan - Pequim, CHINA: “Se eu pudesse fazer mudanças, mudaria a minha personalidade, porque as minhas capacidades sociais não são boas. Gostaria de me tornar mais extrovertida, não demasiado tímida.”

Como poderia a vida ser diferente se fosses rapariga, em vez de rapaz (ou rapaz, em vez de menina)?
Segundo Lev Hershberg, de Jerusalém, se fosse rapariga, “não gostaria de computadores”. Shimon Perel, seu concidadão israelita, afirma que, se fosse rapariga, poderia brincar com uma corda de saltar.
Se fossem rapazes, Pooja Pawara, dos arredores de Mumbai, andaria de moto, enquanto Yan Zhu, da aldeia chinesa de Yaqueshui, nadaria num rio cuja água, segundo a avó, é demasiado fria para as raparigas. Por não ser rapaz, Luandra Montovani não tem licença para brincar nas ruas da sua favela no Rio de Janeiro, onde afirma existirem perigos como “violência e balas perdidas”.

Maria Eduarda Cardoso Raimundo - Rio de Janeiro, BRASIL: “Gosto de ser rapariga, porque as raparigas tomam mais cuidado consigo do que os rapazes.”

Eriah Big Crow, uma lakota oglala que vive na Reserva de Pine Ridge, no estado do Dakota do Sul (EUA), diz, quase em sussurro, que não há nada que ela não possa fazer, porque os rapazes e as raparigas são “exactamente iguais”.
Esta afirmação de Eriah talvez soe demasiado optimista aos ouvidos de Anju Malhotra, principal assessora da UNICEF para questões de género e desenvolvimento. No que respeita à desigualdade entre sexos, diz, “ainda não conseguimos antecipar a data final para o seu desaparecimento”, mas há progressos. 

 

Riley Richards - Reserva de Pine Ridge, Dakota do Sul, EUA: “Quando for grande, quero entrar para os fuzileiros para proteger o meu país, porque há pessoas más que têm andado a matar as pessoas do meu povo.”

Para os cidadãos do mundo com menos de 10 anos, assistiu-se nas últimas décadas a mais equidade entre géneros em áreas como o acesso ao ensino primário, diz Claudia Cappa, da UNICEF. Mas “o aborto selectivo de fetos femininos” persiste em alguns países, segundo esta especialista. 
No entanto, passada a marca dos 10 anos de idade, a estreita faixa de separação transforma-se num vasto oceano. “A situação muda por completo durante a adolescência”, afirma Claudia, lembrando as diferenças “gritantes” entre géneros no acesso ao ensino secundário, por exemplo, ou na exposição ao casamento precoce e à violência. “Isto acontece quando o indivíduo deixa de ser criança”, diz. “Torna-se fêmea ou macho.”

Lopeyok Kagete - Kaputir, QUÉNIA : “A coisa boa de ser rapaz é o pénis.”

O que queres ser quando fores grande?
Lokamu Lopulmoe, uma rapariga de etnia turkana, residente na região rural do Quénia, afirma que, quando crescer, os seus pais “receberão o meu dote e, mesmo que o marido venha a espancar-me, os meus pais terão o dote para se consolarem”. A cerca de quinhentos quilómetros de distância, num condomínio fechado em Nairobi, Chanelle Wangari Mwangi conversa connosco sentada na sua sala repleta de troféus e imagina um futuro muito diferente: quer ser golfista profissional e “ajudar as pessoas carenciadas”.
Em Otava, no Canadá, William Kay planeia confiantemente o seu futuro como “como banqueiro, ou um génio informático”. Em Pequim, Yunshu Sang gostava de ser agente da polícia, “mas a maioria dos polícias são homens”, diz ela, “e, por isso, não posso”.


Nicole Nduta Munyui Osano - Nairobi, QUÉNIA: “A diferença entre os rapazes e as raparigas é que as raparigas são meigas e os rapazes brutos e alguns deles chamam nomes às pessoas e não são simpáticos nem sabem controlar-se.”

Há algo que te faça sentir triste?
Tomee War Bonnet, uma lakota oglala, sente-se triste por “ver as pessoas matarem-se”. E o que faz nascer pensamentos destes na cabeça de uma criança de 9 anos? O historial de suicídios da sua reserva, cometidos por jovens nalguns casos com escassos 12 anos. 
Em Mumbai, Rania Singla sente-se triste quando o irmão mais novo lhe bate. Lamia al Najjar, da Faixa de Gaza, afirma: “Sinto tristeza por ver [a maneira como] a nossa casa foi destruída” devido aos combates ocorridos na região em 2014. 

Alfia Ansari - Mumbai, ÍNDIA: “Não vamos ter formação escolar, mas os rapazes vão andar na escola e, por isso, vão poder viajar para qualquer lado, mas as raparigas não podem.”

O que te faz sentir mais feliz?
Factores mais vezes citados: a família, Deus, a comida e o futebol. E os amigos. Para Maria Eduarda Cardoso Raimundo, no Rio de Janeiro, filha de pais separados, felicidade significa “ter a mamã e o papá ao meu lado, abraçando-me e dando-me conselhos”. 
Segundo Bede Sheppard, aos 9 anos, as crianças “desenvolvem sentimentos tão importantes como a empatia, o sentido de justiça e a distinção entre certo e errado”. Enquanto vice-directora do Departamento de Direitos das Crianças da organização Human Rights Watch, Bede Sheppard lidou com crianças trabalhadoras, refugiadas. Na sua opinião, as mais oprimidas e desfavorecidas podem também ser as mais empáticas e as mais altruístas. Lopeyok Kagete, um pastor de etnia turkana, sonha distribuir dinheiro. Sunny Bhope aspira “arranjar quartos para os sem-abrigo”.

 

Dvir Berman - Givat Zeev (Colonato israelita), CISJORDÂNIA: “Quando se é rapaz, é-se mais forte, pode-se levantar objectos como frigoríficos… Quando se é rapariga, tem de se pentear o cabelo e vestir roupas e ter cuidado em ser-se decente e isso tudo.”

Quando as raparigas e rapazes de 9 anos conversam entre si, surgem pontos de consenso. 
Os rapazes metem-se em sarilhos com mais frequência, são mais transigentes, e as raparigas passam mais tempo a tratar do cabelo. Essas conclusões fazem parte da realidade, mas nela existem também assuntos com mais importância.  

Ibrahim Al Najjar - Khan Yunis, FAIXA de GAZA: “Os rapazes brincam uns com os outros. E as raparigas brincam umas com as outras. Eles não se misturam a brincar. Elas brincam a coisas diferentes das nossas e nós brincamos a coisas diferentes das delas.” 

Se pudesses mudar algo na tua vida, ou no mundo, o que escolherias?
No Rio de Janeiro, Clara Fraga tornaria os ladrões “bons, para não andarem a roubar”. Abby Haas trataria de “livrar de gente má” a sua reserva no Dakota do Sul. Em Otava, Manuel Rosselli afirma querer “destruir os terroristas”. Algumas respostas dão a impressão de que estamos a ouvir um adulto em miniatura a falar, não uma criança. Se pudesse, afirma Fang Wang, na China, mudaria “a maneira como me sinto quando estou sozinha”.
A aspiração mais frequentemente expressa pelos interrogados, atravessando todos os géneros e diferenças geográficas, foi resumida por Avery Jackson. Se ela pudesse mudar o mundo, não haveria “assédio de qualquer tipo. Porque isso é mesmo muito mau.” 

Tomee War Bonnet - Reserva de Pine Ridge, Dakota do Sul, EUA: “A pior coisa de ser rapariga é não podermos fazer o mesmo que os rapazes. Fico chateada por nunca ter havido uma rapariga presidente.”

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