Os espaços naturais do planeta serão sempre lugares de beleza. No entanto, temos de começar a aceitar que, devido às alterações climáticas, eles não permanecerão intactos.

 Texto Michelle Nijhuis

PARQUE NACIONAL DOS GLACIARES, Montana, EUA

Regressão dos glaciares - A luz do Sol ilumina a Garden Wall, uma formação rochosa em forma de crista moldada por glaciares. O Grinnell encheu em tempos a bacia situada abaixo da vertente rochosa, mas, à semelhança da maioria dos glaciares num mundo em aquecimento, tem vindo a encolher: desde 1850 perdeu mais de 75% da sua superfície. Fotografia Keith Ladzinski.

Recuo dos glaciares - Em 1850, havia cerca de 150 glaciares no actual território do parque. Restam somanete 25. O glaciar Grinnell perdeu mais de 75% da sua superfície. Ilustração: Matthew W. Chwastyk. Fontes: Serviço Nacional de Parques (NPS); Dan Fagre e Mark Fahey, USGS.

 A orla Marítima Nacional da ilha de Assateague, localizada ao longo de uma fatia esguia de 60 quilómetros de terra ao largo da costa dos estados de Maryland e Virgínia nos EUA, está a deslocar-se gradualmente para oeste. Assateague tem vindo a aproximar-se do continente ao longo dos séculos, na direcção das terras pantanosas da sua costa ocidental, à medida que os furacões e tempestades de nordeste vão retirando as areias das suas praias atlânticas e soprando-as para as zonas pantanosas do interior da baía. 

“Lindo, não acha?”, pergunta Ishmael Ennis, curvando-se para resistir ao vento primaveril. “É a evolução!” Abre um enorme sorriso ao olhar para a praia diante de si. Esta encontra-se juncada de cotos de árvores, ramos retorcidos e pedaços de turfa do tamanho de almofadas – são os restos de um pântano que formou, em tempos, a costa ocidental da ilha. Posteriormente enterrado por sedimentos trazidos pelas tempestades, está agora a reaparecer a leste, devido à deslocação da ilha. Ishmael, recentemente aposentado após 34 anos de trabalho como responsável pela manutenção de Assateague, já viu muitas tempestades na ilha.

Com efeito, esta Orla Marítima Nacional deve a sua existência a uma tempestade vinda de nordeste.

Com efeito, esta Orla Marítima Nacional deve a sua existência a uma tempestade vinda de nordeste, ocorrida em Março de 1962, quando a lendária Tempestade de Quarta-Feira de Cinzas se abateu sobre Assateague, obliterando a estância balnear emergente de Ocean Beach, destruindo a sua estrada, os seus primeiros 30 edifícios e os sonhos dos seus investidores. 

Tirando partido desse contratempo, em 1965 os conservacionistas convenceram o Congresso norte-americano a proteger a maior parte da ilha, integrando-a no Sistema Nacional de Parques. Actualmente é a mais longa parcela de ilha-barreira não-edificada da costa do Atlântico Central, adorada pelos seus cavalos selvagens de longas crinas, céus estrelados desobstruídos e perspectivas oceânicas serenas – que sempre foram pontuadas, tal como noutras ilhas-barreira, por tempestades impressionantes.

PARQUE MARINHO DA GRANDE BARREIRA DO CORAL, Austrália

Acidificação do oceano - O aquecimento climático causa estragos profundos na Grande Barreira de Coral da Austrália.A acidificação do oceano afecta pelo menos 38% dos corais de todo o mundo e este parque marinho, que actua como barreira de protecção de um ecossistema único, não é excepção. Fotografia D. Parer e E. Parer-Cook / MINDEN / ASA

Acidificação - O oceano absorve pelo menos uma quarta parte do CO2 emitido pelos seres humanos e o seu pH diminui: a água torna-se mais ácida. Isto pode danificar a vida marinha, reduzindo os índices de calcificação dos corais. Ken Caldeira, do Instituto Carnegie da Califórnia, conduziu uma experiência para recriar as condições naturais preindustriais na Grande Barreira de Coral e obteve a primeira prova experimental sólida de que, mesmo então, os corais só cresciam mais 7 % do que na actualidade. Ilustrações: David Martínez. Fonte: Instituto Carnegie da Califórnia.

 À medida que o clima se vai modificando, os cientistas prevêem que as tempestades se intensifiquem, os níveis dos mares continuem a subir e a lenta migração de Assateague para oeste acelere. Ishmael conhece a ilha suficientemente bem para suspeitar que essas alterações já estejam em curso: a equipa de manutenção de Assateague encontra já as respectivas consequências. Os parques de estacionamento da extremidade meridional da ilha foram destruídos seis vezes por tempestades em dez anos. O centro de visitantes sofreu danos três vezes. As reparações foram caras e, quando pedaços de asfalto do tamanho de punhos vindos dos parques de estacionamento começaram a sujar as praias, Ishmael Ennis resolveu classificar como quase inútil todo o esforço desenvolvido.

Engenhoso por natureza, ele apercebeu-se de que a situação exigia criatividade mecânica. Trabalhando em conjunto com o arquitecto do parque, Ishamel e os colegas adaptaram as casas-de-banho, os duches e os abrigos de praia de modo a poderem ser transportados rapidamente, antes da chegada de uma tempestade. Experimentaram diferentes pavimentos para os parques de estacionamento, optando finalmente por uma superfície porosa composta por conchas soltas que pudesse ser reparada facilmente e, quando necessário, transportada por um bulldozzer até uma nova localização. “Foi um caso sério do engenho da Costa Leste”, diz, com um sorriso. “Não estávamos a pensar nas alterações climáticas. Fizemo-lo porque tinha de ser feito.” Ele baixa o tom de voz, fingindo um sussurro de conspiração: “Foi tudo por acaso.”

PARQUE NACIONAL DE ANKARAFANTSIKA, Madagáscar

Alteração climática - As alterações climáticas provocam secas em Madagáscar cada vez mais intensas e frequentes, bem como ciclones de maior intensidade. Os fenómenos meteorológicos extremos afectam o futuro deste parque no Norte da ilha, habitat de mais de oitocentas espécies de animais, muitas das quais endémicas. Fotografia Bernard Castelein / NATURE / CORDON PRESS.

 Intencionais ou não, estas adaptações modestas foram o início de planos mais ambiciosos. A orla costeira marítima é agora um dos primeiros parques nacionais dos EUA a fazer face explicitamente – e a aceitar – os efeitos das alterações climáticas. Ao abrigo da sua proposta de plano de gestão, o parque não tenta lutar contra o inevitável. Continuará a deslocar-se à medida que a ilha se deslocar, transferindo as suas infra-estruturas juntamente com as areias. Segundo o plano, se a subida do nível dos mares e o agravamento das tempestades tornarem impraticável a manutenção da ponte estadual que liga Assateague ao continente, os visitantes do parque terão, simplesmente, de apanhar o ferry.

Aprovada no Verão de 1916, a lei que criou o Serviço Nacional de Parques incumbiu a agência de deixar a paisagem e a vida selvagem do parque “incólume para usufruto das gerações vindouras”. A lei não definia o conceito de “incólume”. Para Stephen Mather, carismático magnata do bórax e primeiro director do Serviço de Parques, incólume significava simplesmente “não construído”. Os primeiros directores seguiram essa linha de raciocínio, esforçando-se tanto por proteger como por promover bonitos panoramas.

Os primeiros directores seguiram essa linha de raciocínio, esforçando-se tanto por proteger como por promover bonitos panoramas.

As discussões começaram praticamente mal a agência nasceu. Em Setembro de 1916, o proeminente zoólogo californiano Joseph Grinnell publicou um artigo na revista científica Science sugerindo que o Serviço de Parques deveria proteger não apenas as paisagens, mas também o “equilíbrio original da fauna e da flora”. Nas décadas seguintes, biólogos especializados em vida selvagem fizeram eco da sugestão de Grinnell, pedindo que os parques permanecessem “incólumes” em termos ecológicos. Porém, as pessoas afluíam aos parques pelos espectáculos naturais e a sua preservação passou a ser a principal preocupação da agência.

 

PARQUE NACIONAL DE SUNDARBANS, Bengala Ocidental, Índia

Subida do nível dos mares - Grupos de chitais deambulam entre os mangues deste parque nacional situado no delta do Ganges. A grande região de pântanos salgados de Sundarbans alberga a maior extensão de mangues halófilos costeiros do mundo, um habitat que poderá ficar parcialmente submerso se o nível do mar continuar a subir. Fotografia Majority World / UIG / Getty Images.

 

A subida do nível do mar, de 3 a 8 milímetros anuais, poderá cobrir de forma permanente vastas áreas de mangues e floresta, habitats entre outros do muito ameaçado tigre de Bengala.

Condições originais
A vegetação destas zonas húmidas prospera em solos de água doce, mas o mangue precisa de condições salgadas e salobras.

Subida do nível dos mares

À medida que a água salgada invade a turfa e a degrada, a zona húmida retrocede e afunda-se. O mangue avança então para o interior.

Fontes: NPS, Fundação Everglades; Universidade Internacional da Florida; Gestão de Água do Distrito Sul da Florida.

 No início de 1960, o secretário do Interior Stewart Udall — que viria a supervisionar a integração de quase cinquenta locais adicionais no Sistema Nacional de Parques, incluindo Assateague — ficou preocupado com a forma como a agência geria a vida selvagem. Recrutou o biólogo Starker Leopold, da Universidade da Califórnia e filho do famoso biólogo de vida selvagem Aldo Leopold, para conduzir um estudo independente.

O Relatório Leopold revelou-se altamente influente. Partilhando a opinião de Grinnell, apelava a que o Serviço de Parques preservasse as “ligações bióticas” originais, existentes no tempo da colonização europeia. Nas décadas seguintes, o Serviço de Parques tornou-se mais científico. Os directores do parque começaram a atear incêndios controlados em florestas onde os incêndios florestais de origem natural tinham há muito sido suprimidos e reintroduziram espécies desaparecidas, como lobos e carneiros-selvagens. Porém, os esforços centraram-se menos no restauro dos processos ecológicos e mais na recriação de cenas estáticas, tornando cada parque, seguindo a recomendação do Relatório Leopold, uma “vinheta viva da América primitiva”. Como o tempo, essa visão assumiu aquilo que Paul Schullery, historiador especialista em Yellowstone, descreve como uma “aura quase bíblica”.

PARQUE NACIONAL DAS SEQUÓIAS, Califórnia, EUA

Altas temperaturas, seca - No alto da Sierra Nevada, sequóias gigantes iluminadas por holofotes erguem-se no céu. Podem viver três mil anos, mas a seca histórica da Califórnia tem-nas posto à prova. “Estamos a lidar com esta seca como antevisão do futuro,” afirma o ecologista Nate Stephenson. Fotografia Keith Ladzinski.

 E contudo, como o próprio Leopold veio mais tarde a reconhecer, essa interpretação era enganadora. A interpretação da América anterior à colonização ignorava a longa influência que os indígenas americanos tinham exercido sobre as paisagens dos parques, através da caça e fogos postos. Ignorava o facto de a própria natureza, quando entregue a si própria, não evoluir num sentido de estagnação – as paisagens e os ecossistemas são constantemente alterados por tempestades e secas, incêndios, cheias ou mesmos pelas interacções dos seres vivos. As paisagens ecológicas que o Serviço de Parques se esforçou por manter, saídas de um passado altamente imaginado, foram, de certa forma, apenas uma nova versão dos espectáculos que sempre se sentira compelida a apresentar aos visitantes.

As paisagens e os ecossistemas são constantemente alterados por tempestades e secas, incêndios, cheias ou mesmos pelas interacções dos seres vivos.

“O Serviço de Parques tem mantido com o público norte-americano um acordo tácito no sentido de preservar as coisas tal como sempre foram”, comentou Nate Stephenson, especialista florestal dos Parques Nacionais das Sequóias, do Desfiladeiro de Kings e de Yosemite. “Mas o tempo não pára aqui.”

A partir da década de 1980, os cientistas começaram gradualmente a aceitar que havia algum tipo de mudança em curso. Os glaciares do Parque Nacional dos Glaciares estavam a regredir, os incêndios florestais do PN Sequóias aumentavam de dimensão e os parques costeiros perdiam terreno face à subida do nível dos mares. Pouco depois da viragem do século, investigadores do PN dos Glaciares anunciaram que até os maiores glaciares do parque irão, provavelmente, desaparecer até 2030.

 

ÁREA DE CONSERVAÇÃO DO VALE DE DANUM, Bornéu, Malásia 

Incêndios florestais - Aqui vivem alguns dos animais mais ameaçados do planeta, como rinocerontes, orangotangos e panteras-nebulosas. Os incêndios vão arrasando grandes massas florestais na Malásia e na Indonésia, um fenómeno sazonal agora potenciado pela seca e pela agricultura de queima e corte. Fotografia Thomas Marent / Minden/ASA.

 Em 2003, um grupo de investigadores da Universidade da Califórnia, começou a reconstituir as pegadas de Joseph Grinnell. 

O zoólogo realizara levantamentos fanaticamente pormenorizados da vida selvagem em Yosemite e noutros parques da Califórnia, prevendo que o seu valor só seria “compreendido daqui a muitos anos, possivelmente dentro de um século”. Quando os investigadores de Berkely compararam os seus próprios levantamentos e outros dados recolhidos em Yosemite com o retrato captado por Grinnell há 90 anos, repararam que os domínios de vários mamíferos de pequeno porte se tinham deslocado significativamente para altitudes mais elevadas, em direcção às montanhas da Sierra Nevada. Dois outros mamíferos, em tempos comuns – um esquilo e um rato do campo –, estavam praticamente extintos no parque. O padrão era claro: as alterações climáticas tinham chegado também a Yosemite e os animais estavam a migrar para fugirem ao calor.

No Parque Nacional dos Glaciares, os painéis interpretativos fazem referências breves ao aumento das temperaturas. Os vigilantes da natureza evitam falar sobre as causas.

Durante algum tempo, o Serviço de Parques evitou abordar o assunto. O reconhecimento das alterações climáticas de origem humana era um gesto político e o Serviço de Parques não discute política com os seus visitantes. No Parque Nacional dos Glaciares, os painéis interpretativos fazem referências breves ao aumento das temperaturas. Os vigilantes da natureza evitam falar sobre as causas. “Fomos muito limitados”, recorda William Tweed, antigo chefe de interpretação nos PN Sequóias e Desfiladeiro de Kings. “A mensagem que recebemos foi, essencialmente: ‘Não falem nisso se puderem evitá-lo’.”

O problema, contudo, era muito mais profundo, ultrapassando as transitórias políticas públicas.Há muito que as pessoas visitam os parques nacionais para sentirem a eternidade – ter um vislumbre, por ilusório que seja, da natureza no seu estado estável e “incólume”. A verdade inconveniente das alterações climáticas tornou cada vez mais difícil ao Serviço de Parques proporcionar essa ilusão e ninguém sabia o que as áreas protegidas poderiam oferecer em sua substituição.

Há muito que as pessoas visitam os parques nacionais para sentirem a eternidade.

Quando Nate Stephenson tinha 6 anos, os seus pais ofereceram-lhe um par de botas e uma armação artesanal de madeira para a mochila e o saco-cama. Levaram-no, de mochila às costas, para uma caminhada no Parque Nacional do Desfiladeiro de Kings. Durante a maior parte dos 53 anos decorridos desde então, Nate passeia a pé pelas florestas antigas da Sierra Nevada. “São o centro do meu universo”, afirma. Pouco depois de se formar na Universidade da Califórnia, arrumou as malas no seu automóvel e viajou até ao Sul da Califórnia, onde trabalhou durante o Verão no Parque Nacional das Sequóias. Agora é investigador ecológico no local, estudando as mudanças ocorridas nas florestas do parque.

PARQUE NACIONAL DE NAMIB-NAUKLUFT, Namíbia

Seca - Esta região africana, extremamente árida e vasta, manteve-se estável durante gerações, mesmo com um escasso aporte hídrico. As alterações climáticas, porém, causam uma diminuição ainda maior da pluviosidade, um factor que afecta o equilíbrio instável de um ecossistema tão frágil. Fotografia Matthieu Colin / Hemis /GTRES.

 Enquanto os gestores do parque se sentem frequentemente consumidos pelas crises imediatas, investigadores como Nate têm a flexibilidade e a responsabilidade de contemplar o futuro mais distante. Na década de 1990, esta visão de longo prazo começou a tornar-se extremamente perturbadora para ele. Nate sempre presumira que as florestas de sequóias e pinheiros à sua volta durariam muito mais tempo do que ele, mas quando considerou os possíveis efeitos da subida das temperaturas e da seca prolongada, ficou menos certo disso. Conseguiu ver a “vinheta da América primitiva” a dissolver-se num passado inacessível. Essa percepção mergulhou-o num pessimismo que durou muitos anos.

“Eu acreditava piamente na missão do Serviço de Parques”, recorda. “De repente, vi que a nossa missão não voltaria a ser a mesma. Já não podíamos usar o passado como meta de restauro – estávamos a entrar numa época em que não só era impossível, como até indesejável.”

Nate deu início àquilo que apelida de “espectáculo itinerante”, fazendo apresentações a colegas do Serviço de Parques sobre a necessidade de uma nova missão. Com uma certa malícia, propôs-lhes uma experiência imaginária: e se o Parque Nacional das Sequóias se tornasse demasiado quente e seco para as árvores que lhe dão o nome? Deveriam os gestores do parque, que supostamente devem deixar a natureza entregue ao seu próprio rumo, regar as sequóias para salvá-las? Deveriam começar a plantar rebentos de sequóia em climas mais frios e húmidos, incluindo fora dos limites do parque? Deveriam fazer ambas as coisas ou nenhuma?

Com uma certa malícia, propôs-lhes uma experiência imaginária: e se o Parque Nacional das Sequóias se tornasse demasiado quente e seco para as árvores que lhe dão o nome?

Os seus ouvintes contorceram-se. Leopold não lhes deixara respostas para este novo desafio.

Num dia de finais de Setembro no Parque Nacional das Sequóias, o céu apresenta-se azul e límpido, graças a um vento forte, livre do fumo do incêndio florestal que grassa do outro lado da crista da Sierra Nevada. Nate e a sua equipa de campo estão a concluir uma temporada de levantamentos florestais, acrescentando dados a um registo que já acumula décadas sobre a saúde da floresta naquela região. Nos seus locais de estudo de mais baixa altitude, abaixo do nível onde se erguem as sequóias, 16% das árvores morreram este ano, aproximadamente dez vezes o volume habitual de mortalidade florestal. “É mais ou menos o que veríamos num território consumido por um incêndio de baixa magnitude”, comenta Nate. 

Enfraquecidas por longos anos de seca, muitas das árvores de baixa altitude estão a morrer também devido a pragas de insectos, circunstância que se regista igualmente em várias outras latitudes, incluindo na floresta portuguesa. Em altitudes mais elevadas, nas florestas de sequóias, várias gigantes antigas perderam algumas das suas agulhas num combate ao stress provocado pela seca e outras que já tinham sido flageladas por incêndios morreram mesmo.

Enfraquecidas por longos anos de seca, muitas das árvores de baixa altitude estão a morrer também devido a pragas de insectos.


“As sequóias até estão a aguentar-se relativamente bem. São os pinheiros, os abetos, os cedros que sofrem – é toda a floresta que está afectada”, explica Nate.

O problema das alterações climáticas é o seguinte: muitos efeitos são difíceis de prever. A temperatura média vai subir e a neve dará lugar à chuva, mas não é claro se a precipitação total irá aumentar ou diminuir ou se as alterações serão graduais ou abruptas. “Não sabemos como a acção vai desenrolar-se”, afirma Woody Smeck, superintendente dos PN Sequóias e Desfiladeiro de Kings. O Serviço de Parques já não consegue recriar o passado e não pode contar com um futuro garantido. Em vez disso, deve preparar-se para uma multiplicidade de futuros, muito diferentes entre si. 

Em 2009, o director do Serviço de Parques Jonathan Jarvis reuniu uma comissão de peritos externos para reexaminar o Relatório Leopold. O documento resultante, “Relendo Leopold”, propôs um novo conjunto de objectivos para a agência. Em vez de vinhetas primitivas, o Serviço de Parques deveria gerir “uma mudança contínua e ainda não inteiramente compreendida”. Em vez de “paisagens ecológicas”, deveria esforçar-se por preservar “a integridade ecológica e a autenticidade cultural e histórica”. Em vez de panoramas estáticos, os visitantes teriam “experiências transformadoras”. E, talvez o mais importante, os parques “formariam o centro de uma paisagem de conservação nacional terrestre e marítima”. Seriam geridos não como ilhas, mas como parte de uma rede de terras protegidas. 

PARQUE NATURAL DA RIA FORMOSA, Algarve, Portugal

Recuo da linha da costa - O aumento do nível do mar é uma consequência do aquecimento global e terá impactes distintos em várias latitudes do globo. Nesta área protegida algarvia, são previsíveis episódios de recuo da linha de costa e de migração das ilhas-barreira para o continente. A ameaçada população de cavalos-marinhos poderá não resistir. Fotografia Nuno Sá.

 O relatório ainda não está a ser seguido como política oficial, mas é o mais claro reconhecimento até à data feito pela agência da ocorrência de mudanças nos parques e da necessidade de geri-las. A forma exacta que essa gestão assumirá ainda não é evidente e grande parte dos objectivos terão de ser individualmente determinados por factores científicos, políticos e financeiros. 

Muitos parques esforçam-se por aumentar a sua tolerância à mudança, adaptando as suas próprias infra-estruturas e ajudando a sua flora e fauna a fazerem o mesmo.

Muitos parques esforçam-se por aumentar a sua tolerância à mudança, adaptando as suas próprias infra-estruturas e ajudando a sua flora e fauna a fazerem o mesmo. Na Orla Lacustre Nacional das Dunas de Indiana, investigadores estão a procurar microclimas mais frescos nos carvalhais para os quais o Serviço de Parques possa transportar a espécie ameaçada de borboleta Lycaeides melissa samuelis, praticamente erradicada do parque. No Parque Nacional dos Glaciares, os biólogos já começaram a transportar trutas da espécie Salvelinus confluentus para um lago situado a maior altitude, mais fresco, fora do seu domínio histórico. A ideia é proporcionar aos peixes um refúgio contra as alterações climáticas e uma espécie invasora. 

No Parque Nacional das Sequóias, Nate pretende que os directores do parque considerem a plantação de rebentos de sequóia numa zona mais alta e fresca do parque para observar o comportamento dos rebentos e também a reacção pública à realização de experiências com estas árvores emblemáticas. “Temos de começar a fazer experiências”, diz.

“A resposta é afirmativa. Talvez não da mesma maneira e talvez não cheguem lá da mesma maneira. Mas ainda poderão desfrutar deles.” 

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