A nova arca de Noé

Talvez os zoológicos tenham de escolher entre preservar os animais que queremos ver e aqueles que podemos não voltar a ver.

Texto Elizabeth Colbert   Fotografia Joel Sartore

ARCA 1 LOGO

Abandonada pela progenitora em 2007 quando era pequena, Calusa é uma das escassas 165 panteras sobreviventes. Pantera da Florida (Puma Concolorcoryi), Zoo Lowry Park, Tampa, Florida, EUA. Classificação pelo UICN: a definir.

É possível que em 2100 metade de todas as espécies da Terra estejam irreversivelmente ameaçadas de extinção. Mas isso não acontecerá se eu conseguir evitá-lo. É essa a ideia subjacente à Arca Fotográfica: levar o público a olhar estas criaturas nos olhos e a preocupar-se o suficiente para as salvar enquanto ainda há tempo. O meu objectivo é fotografar o máximo de espécies em cativeiro antes que o tempo se esgote. Já fotografei cerca de três mil e estou apenas a começar. Trabalho sobretudo em jardins zoológicos e aquários, os actuais guardiões do reino. Muitas espécies poderiam ter desaparecido sem os esforços heróicos de reprodução em cativeiro. 
Os retratos, captados contra fundos pretos ou brancos como num estúdio fotográfico, nivelam o campo de jogo: uma tartaruga é tão importante como um rinoceronte. O poder da fotografia é conseguir, literalmente, congelar o tempo. Muito depois de eu desaparecer, estas imagens continuarão a trabalhar todos os dias em prol da salvação das espécies. Não existe missão mais importante porque é uma loucura pensar que podemos condenar a vida selvagem ao esquecimento. É um mundo que espero nunca ver. (Joel Sartore)

Periquito-de-barriga-laranja (Neophema chrysogaster), Santuário Healesville, Victória, 
Austrália. 
Classificação pelo UICN: em vias de extinção.

Terri Roth vestiu a bata e calçou uma luva de plástico transparente que cobria o seu antebraço direito e o cotovelo, chegando quase até ao ombro. A sua paciente de 680 quilogramas, uma rinoceronte chamada Suci, foi manobrada até entrar dentro de um compartimento estreito. Enquanto um dos seus colegas alimentava Suci com fatias de maçã retiradas de um balde, Roth calçou uma segunda luva sobre a primeira e agarrou naquilo que parecia um comando de consola de videojogos. Depois, enfiou o braço no recto da rinoceronte.

Os jardins zoológicos são o último refúgio contra uma vaga crescente de extinções.

Dois dias antes, Terri, directora do Centro de Conservação e Investigação de Vida Selvagem em Perigo do Jardim Zoológico de Cincinnati, tentara inseminar Suci, uma rinoceronte de Samatra nascida em 2004. A inseminação artificial (IA), igualmente efectuada com recurso a uma luva até ao ombro, implicara conduzir um tubo longo e fino através das pregas da cérvix de Suci. Segundo as notas da especialista, Suci “portou-se muito bem” durante a operação. Agora, era importante fazer uma ecografia de acompanhamento. Imagens com grão surgiram num ecrã de computador instalado junto à garupa substancial de Suci. Terri localizou a bexiga do rinoceronte, que apareceu no ecrã como uma bolha escura, e depois continuou. Na altura da IA, um ovo do ovário direito de Suci parecia prestes a ser libertado. Se o fosse, haveria probabilidades de Suci engravidar nesse ciclo. Mas o ovo ainda estava lá, no sítio exacto onde Terri o vira pela última vez.

ARCA 5

Rinoceronte-indiano, Jardim Zoológico de Fort Worth, Texas, EUA.Asha (“Esperança” em hindi), de 4 anos, viverá perto da sua progenitora durante um máximo de dois anos. Há mais rinocerontes nos jardins zoológicos e na natureza.

“Suci não ovulou”, anunciou Terri aos tratadores do jardim zoológico reunidos para ajudá-la. 
O grupo soltou um suspiro colectivo. Embora claramente desiludida, Terri começou imediatamente a elaborar planos para o próximo ciclo de Suci.
Se fazer uma ecografia a um rinoceronte parece radical, pense no seguinte: quando o Jardim Zoológico de Cincinnati abriu os seus portões em 1875 havia talvez um milhão de rinocerontes de Samatra a deambular pelas florestas entre o Butão e o Bornéu. Actualmente, devem existir menos de cem em todo o mundo. Três deles (Suci e os seus irmãos, Harapan e Andalas) nasceram em Cincinnati.

À medida que o mundo selvagem vai desaparecendo, os jardins zoológicos são cada vez mais encarados como arcas dos tempos contemporâneos.

Há seis anos, o jardim zoológico enviou Andalas para Samatra, onde ele padreou uma cria no Parque Nacional de Way Kambas. Se a espécie sobreviver, será em boa parte graças aos 16 anos que Terri Roth acumulou recolhendo amostras de sangue, realizando testes hormonais e fazendo ecografias a animais em cativeiro.
O que é válido para o rinoceronte de Samatra aplica-se a uma lista crescente de espécies salvas de caírem no esquecimento. À medida que o mundo selvagem vai desaparecendo, os jardins zoológicos são cada vez mais encarados como arcas dos tempos contemporâneos: o último refúgio contra uma vaga crescente de extinções.

Descubra uma nova visão do mundo!

Assine a National Geographic.

Pesquisar