O Sol desvanece-se. Qual pérola, a Lua ergue-se. E acontece magia.

Texto Cathy Newman   Fotografia Diane Cook e Len Jenshel

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Uma festa como esta, realizada nos sumptuosos jardins de Vaux-le-Vicomte, assinalou o final do seu dono, Nicolas Fouquet, em 1661. Luís XIV chegou, viu e cobiçou: a propriedade foi confiscada e Fouquet encarcerado. 

Na narrativa de um jardim durante a noite, as personagens do enredo são flores com fragrâncias intensas que desabrocham na escuridão (como o jasmim, a angélica e a gardénia), traças com asas cor de jade e escaravelhos iridescentes como opalas.

Um jardim nocturno convida à reflexão.

A Lua, que ilumina este palco, toma o seu brilho emprestado do Sol. A sua luz pálida é reflectida. Um jardim nocturno convida à reflexão. Ao contrário do Sol, a Lua é convidativa para o nosso olhar. Podemos vê-la crescer e enaltecê-la com poesia, vê-la minguar e lamentá-la com melancolia e admirar a maravilha de um mundo ao revés onde as plantas se alongam na direcção não da luz do Sol, mas do brilho ténue projectado sobre a Terra por um diadema de estrelas.

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Os jardins de Kykuit, na propriedade da família Rockefeller no estado de Nova Iorque, foram concebidos para serem apreciados de noite ou de dia. Uma fileira de tílias conduz ao Templo de Afrodite. Para conhecer Kykuit, afirmou William Welles Bosworth, que desenhou os seus jardins, “devemos visitá-lo… à noite, quando tudo é pacificamente eloquente”.

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A cor é irrelevante num jardim nocturno. Devido à forma como o olho vê, à luz da Lua minguante, até as mais incendiárias tonalidades de vermelho e laranja se transformam em tons monocromáticos de prateado e cinzento. A retina, o revestimento sensível do interior do olho, possui camadas compostas por células fotorreceptoras denominadas cones e bastonetes. Ao detectarem a intensidade da luz, os bastonetes têm capacidade para captar níveis de iluminação reduzidos. Mas os cones, que distinguem a cor, precisam de um limiar de luz mais elevado do que o fornecido pela palidez do luar. Na ausência desse limiar, a cor desvanece-se.

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Quando um frio inusitado matou a colecção de orquídeas da sua casa no México, o inglês Edward James criou Las Pozas, um jardim com estranhas construções como o Palácio de Bambu, de betão, durável e imune aos caprichos do clima.

O perfume das flores durante a noite é ilusório. “Os jardins são mais fragrantes de noite do que de dia porque a maioria dos polinizadores nocturnos tem má visão e serve-se do olfacto para encontrar as flores”, diz John Kress, conservador de botânica no Museu Nacional de História Natural do Instituto Smithsonian.

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Um clarão de nenúfares tropicais que florescem de noite ergue-se dos lagos dos Jardins Longwood, na Pensilvânia. As flores desabrocham ao pôr do Sol e fecham-se na manhã seguinte.

O mundo das flores nocturnas e dos seus polinizadores é um universo alternativo, com ajustes efectuados ao longo de anos de selecção evolutiva. Os polinizadores diurnos como as borboletas, as aves e as abelhas, baseiam-se em indícios visuais telegrafados por cores garridas; os trabalhadores do turno da noite, como os escaravelhos e as traças, dependem da fragrância, da luminescência das pétalas brancas ou, como na ecolocalização dos morcegos, dos contornos esbatidos da forma.

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No Japão, a floração de cerejeiras, co
mo estas no Santuário de Hirano, em Quioto, é um acontecimento. “O único defeito das cerejeiras são as multidões que atraem quando ficam em flor”, escreveu o poeta Saigyo, no século XII.

É melhor ficarmo-nos pelo lusco-fusco onírico da imaginação e entrarmos no Pavilhão Onde a Lua Se Encontra com o Vento no Jardim do Mestre das Redes, em Suzhou, na China, ou no Jardim Branco de Vita Sackville-West, em Sissinghurst Castle, Inglaterra, decorado em tons de neve com tulipas brancas, lírios e anémonas, ranúnculos-creme, campânulas brancas-acinzentadas e rosas Iceberg e White Wings.

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Pináculos de bambu cor de jade flanqueiam um caminho curvo no Templo Kodai-ji, em Quioto. O murmúrio do vento filtrado por uma floresta de bambus é acarinhado e destaca-se como um dos cem sons que o povo japonês quer ver preservado.

Ou podemos recuar ao passado e invocar os jardins de prazer construídos pelos governantes mongóis, refrescados por pérolas de água caindo de fontes de mármore, à sombra de árvores carregadas de romãs e laranjas e pintadas pelo luar, como o lendário jardim de Xalimar, perto de Caxemira.

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Diz-se que um jardim islâmico é um palácio sem telhado. Fascinada pela arte do islão, a herdeira Doris Duke criou Xangri Lá, a sua casa em Honolulu. O pátio central, com os ladrilhos persas antigos, separa o espaço público do privado. ( Imagem publicada com autorização da Fundação Doris Duke para a Arte Islâmica)

Segundo a especialista em história da arquitectura Elizabeth Moynihan, a palavra “paraíso” pode remontar a uma transliteração da palavra persa antiga pairidaeza, um jardim murado. “O Paraíso prometido no Alcorão consiste em vários socalcos de jardins, cada um mais esplêndido do que o anterior”, escreveu. O palácio ao ar livre de um jardim islâmico era, no sentido literal e figurativo, o paraíso sobre a Terra, um local para beber vinho em jarros de prata, comer melões de Cabul e ouvir poesia.

O palácio ao ar livre de um jardim islâmico era, o paraíso sobre a Terra.

“Por mais distante e fechada que a alma do islão permaneça, duvido que alguma vez a tenhamos sentido mais próxima de nós do que naquela noite, entre as fontes e as flores nocturnas do jardim de Xalimar, enquanto a Lua cheia de Agosto, do alto das neves da fronteira tibetana, vertia sobre nós a sua luz nítida”, escreveu o visconde Robert d’Humières, depois de ser recebido no início do século XX pelo irmão do marajá de Jammu e Caxemira.

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“Talvez deva às flores o facto de me ter tornado pintor”, disse Claude Monet. Ele esperou quatro anos que o seu jardim de água em Giverny florescesse, antes de o imortalizar em quadros como “Nenúfares: Efeito Nocturno”.

 Se um jardim é uma tentativa de conquista do Éden, então os nossos anseios talvez sejam mais recompensados de noite. A Lua perdoa a degradação posta a nu pelo Sol. A flor ferida, a folha desidratada e o ramo apodrecido são engolidos pelas sombras, deixando apenas uma ilusão de perfeição, prateada pelas estrelas e dourada pelo luar.

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