Índice do artigo

Com máscaras para resguardar os animais contra os agentes patogénicos humanos, os funcionários da “escola florestal” ensinam orangotangos órfãos a desenvolver capacidades e comportamentos naturais para conseguirem sobreviver sozinhos.

 Num trilho não muito distante do posto de investigação de Cheryl Knott, vejo provas destes conflitos. Um macho chamado Prabu está sentado no ramo alto de uma figueira, espreitando ocasionalmente para baixo e revelando uma ferida recente na sua testa e um golpe no lábio inferior, que o deixou sem um pedaço de carne. Era evidente que Prabu estivera envolvido numa luta: mas teria vencido ou perdido?

Enquanto o observo, ele levanta-se e emite um volumoso chamamento: é uma excitante e complicada miscelânea composta por grunhidos graves e uivos gorgolejantes que pode chegar a mais de um quilómetro na floresta. Por norma, os chamamentos longos dos machos duram menos de um minuto, mas Prabu demora-se mais de cinco minutos. Coberto de sangue, mas desafiador, Prabu ainda proclama a sua força aos machos rivais e potenciais parceiras femininas.

Ilustração: Fernando G. Baptista, Matthew W. Chwstyk e Ryan Williams; Manyun Zou Fontes: Tim Laman; Cheryl D. Knott, Universidade de Boston; Carel P. van Schaik, Universidade de Zurique; Serge Wich Universidade John Moores, Liverpool; Meredith Bastian, Zoológico Nacional Smithsonian.

 Alguns cientistas crêem que a dicotomia entre os machos de orangotango se deve, parcialmente, às diferentes histórias geológicas das ilhas de Samatra e Bornéu. Samatra é mais fértil do que Bornéu: nesta última ilha, o solo velho e desgastado tem carência de nutrientes necessários para a flora e muitas florestas são pautadas pelos ciclos de altos e baixos das árvores que geram frutos em massa com longos intervalos temporais. Os orangotangos de Samatra não têm de percorrer longas distâncias para encontrar alimento em quantidade suficiente e a densidade de fêmeas é mais elevada. Isto dota os machos da capacidade para permanecerem num só local e estabelecerem ligações. O ambiente relativamente mais pobre de Bornéu deu origem a um registo de “vale-tudo”, em que os indivíduos deambulam por áreas amplas, procurando alimento e oportunidades de acasalamento onde possível.

Isto pode explicar por que motivo o desenvolvimento das características próprias do macho dominante difere entre ilhas. Levanta, contudo, uma questão muito mais complicada.

“Como sabe um macho de Samatra que, se lhe crescerem flanges e não for ele o líder, não vai conseguir acasalar?” Carel van Schaik lança a pergunta ao entrarmos no seu gabinete na Universidade de Zurique, onde ele e os seus colegas publicaram dezenas de artigos de investigação sobre orangotangos de Samatra e de Bornéu.

A resposta, óbvia, à pergunta é: o macho não “sabe”, no sentido humano do termo. “Não é algo que eles aprendam”, diz o meu interlocutor. “Tem de haver um interruptor e a sensibilidade desse interruptor tem de ser diferente em populações diferentes. Tem de ser, de alguma forma, genética.”

Continua por responder a pergunta sobre a maneira como o desenvolvimento masculino é activado.

Continua por responder a pergunta sobre a maneira como o desenvolvimento masculino é activado, em parte devido ao mesmo desafio que se apresenta, em tantas frentes, aos investigadores de orangotangos: os seus sujeitos são muito difíceis de estudar.

Além da diversidade fisiológica, os orangotangos exibem diferenças de comportamento transmitidas de indivíduo para indivíduo e de geração para geração num processo que pode, com toda a legitimidade, ser identificado como cultural.

“Num dos nossos locais de investigação, ouvimos um chamamento utilizado pelas progenitoras para reconfortarem as crias”, disse-me Maria van Noordwijk, membro da equipa de Zurique que estuda cuidados maternais entre primatas. “Chamamos-lhe pigarreio. Havia uma fêmea que já conhecíamos muito bem antes de ela ter a primeira cria. No dia seguinte a parir, ela já fazia esse chamamento. Nunca lho ouvíramos antes. É, claramente, algo que aprendeu com a sua progenitora.”

Os investigadores não analisam só o comportamento dos animais quando observam orangotangos.

“Supostamente, os primatas não deveriam fazer aprendizagem vocal”, continua Carel van Schaik. “E, no entanto, a não ser que acreditemos que isto é genético, hipótese que eliminámos, é muito provável que seja cultural. Aquilo que os orangotangos fazem não é como a voz humana, mas a compreensão, a aprendizagem e a imitação dos sons estão lá.”

Os investigadores não analisam só o comportamento dos animais quando observam orangotangos. Subjacente aos dados recolhidos, encontra-se a seguinte pergunta: o que podem os orangotangos dizer-nos sobre os humanos?

A revelação de todos os segredos contidos nos cérebros e nos corpos destes nossos parentes simiescos implica preservar todo o espectro de adaptações. A perda de cada população individual elimina oportunidades de aprender com as suas adaptações ambientais e culturais singulares.

Passei algum tempo no terreno na companhia de Marc Ancrenaz, responsável desde 1996 por um projecto de conservação de orangotangos no rio Kinabatangan, em Sabah, uma região do Nordeste de Bornéu. Aqui, várias centenas de orangotangos vivem num corredor estreito de habitat degradado ao longo do rio, no meio de aldeias, elas próprias rodeadas por um mar de palmeiras.

Fogos para limpar a floresta e plantar palmeiras e outras culturas queimaram 2,5 milhões de hectares na Indonésia em 2015. 

 “É claro que preferiríamos floresta primária, mas é isto que temos”, comenta Marc. “Há vinte anos, a ciência pensava que os orangotangos não conseguiam sobreviver fora da floresta primária. Ficámos muito surpreendidos aqui. Como podem os orangotangos existir num sítio onde supostamente não deveriam estar?” Marc é um de vários investigadores que consideram a paisagem alterada pela acção humana essencial para a sobrevivência dos orangotangos. “Acho que isto representa o futuro da biodiversidade”, afirma.

Na região ocidental de Bornéu, Cheryl criou uma organização para trabalhar com comunidades locais no desenvolvimento de modos de subsistência sustentáveis alternativos.

Na região ocidental de Bornéu, Cheryl criou uma organização para trabalhar com comunidades locais no desenvolvimento de modos de subsistência sustentáveis alternativos, reduzindo o abate ilegal de árvores e a caça furtiva e oferecendo acções formativas sobre conservação nas zonas em redor do Parque Nacional de Gunung Palung. Seguindo o mesmo espírito, Marc implementou programas formativos sobre conservação em escolas e comunidades de Sabah, tentando descobrir maneiras de as pessoas e a natureza coexistirem. Associa-se a pessoas que vivem ao longo das margens do rio Kinabatangan, ajudando-as a ganhar dinheiro com os orangotangos através do ecoturismo e negócios afins. A sua esperança é que os residentes se sintam responsáveis pela sobrevivência dos animais.

Para os orangotangos sobreviverem mantendo a sua diversidade actual, governos e conservacionistas terão de fazer escolhas inteligentes sobre onde criar reservas, a sua gestão e a utilização de recursos limitados. Terão de encontrar maneiras de a espécie coexistir com os seres humanos em duas ilhas onde o habitat diminui constantemente.

Sem condições para sobreviver em ambiente selvagem, este macho passará o resto da sua vida num centro de socorro.

 “Vejo muitas pessoas a tentarem desenvolver esforços de conservação movidas pelo coração e pelos sentimentos, o que é positivo”, comenta Marc. “Mas a conservação tem de apoiar-se em ciência concreta. O objectivo dos cientistas é produzir melhor conhecimento, melhor compreensão da ecologia e da genética dos orangotangos. O resto é apenas utilizar este conhecimento de forma a repercutir-se no ordenamento do território e nas comunidades. É aqui que a conservação, efectivamente, tem lugar.”

Nas florestas de Bornéu e de Samatra, os comportamentos dos orangotangos persistem, mas alguns mistérios das suas vidas têm sido desvendados. Outras descobertas dependerão do sucesso desta combinação de ciência e conservação e de respostas sobre as ligações entre os seres humanos e estes símios tão parecidos connosco.

“Um cientista deve ser objectivo”, resume Cheryl, enquanto conversamos no seu acampamento. “Mas também é humano e é por causa dessa ligação que aqui estou.” 

Descubra uma nova visão do mundo!

Assine a National Geographic.

Pesquisar