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Uma cria com 11 meses imita a progenitora à hora da refeição. O juvenil ficará com ela até aos 10 anos, aprendendo a sobreviver. Um dos ensinamentos é a capacidade para encontrar os frutos mais nutritivos da floresta.

Em centros de reabilitação como o Animal Rescue, junto de Gunung Palung, o influxo constante de orangotangos órfãos mostra que estas mortes continuam a ser um problema grave. Actualmente, vivem mais de mil orangotangos em centros de reabilitação e o ensino de capacidades de sobrevivência a jovens orangotangos é uma tarefa difícil, sem garantias.

As ameaças enfrentadas pelos orangotangos surgem na altura em que o recente surto de investigação revela a surpreendente variedade da sua composição genética, estrutura física e comportamento, incluindo os primórdios do desenvolvimento cultural, que poderá ajudar-nos a compreender a nossa própria transição, de símios para humanos.

Durante vários séculos, os cientistas pensaram que todos os orangotangos pertenciam a uma espécie

Durante vários séculos, os cientistas pensaram que todos os orangotangos pertenciam a uma espécie, mas, nas últimas duas décadas, novos dados levaram os investigadores a considerar os orangotangos de Bornéu e de Samatra como espécies diferenciadas e ambas criticamente ameaçadas. Surpreendentemente, os investigadores descobriram que uma população recentemente encontrada num local denominado Batang Toru, na região ocidental da Samatra, é na verdade geneticamente mais próxima dos orangotangos de Bornéu do que das restantes populações de Samatra.

Alguns investigadores crêem que os orangotangos de Batang Toru diferem suficientemente dos outros para constituírem uma terceira espécie. Reduzidos a quatrocentos indivíduos, estão sob a ameaça de um projecto hidroeléctrico que poderá fragmentar o seu habitat e abrir a zona a mais intrusão humana, incluindo a caça ilegal. Além disso, várias populações de Bornéu são agora consideradas subespécies separadas, com base em factores como diferenças no tamanho corporal, vocalizações e adaptações ao ambiente. 

Fileiras de palmeiras substituem a floresta húmida junto do Parque Nacional de Gunung Palung, em Bornéu. Vastas extensões de habitat de orangotangos foram eliminadas pelas produções de óleo de palma. Mosaico composto por três imagens.

Do alto do seu poleiro, no dossel da floresta húmida de Samatra, um macho de grande porte conhecido como Sitogos salta para o tronco de uma árvore morta e, usando a totalidade dos seus 90 quilogramas, abana-a para trás e para a frente até a partir junto da base. No último instante, Sitogos salta para um ramo próximo enquanto a árvore cai na minha direcção, com um estrondo colossal.

Os orangotangos fazem muito isto quando estão zangados e são muito bons nisso. A árvore não teria caído com mais precisão se fosse apontada com uma mira laser. Sitogos significa “o forte” no idioma batak do Noroeste de Samatra. Fiel ao seu nome, o grande macho fita-me, abana o ramo ao qual está agarrado e emite um chamamento gutural e gorgolejante. Pode haver tigres de Samatra e ursos-malaios ao nível do solo na floresta, mas aqui, nas copas das árvores, ele é o rei.

Abrindo os braços até à sua envergadura máxima de dois metros, Sitogos desloca-se entre o dossel florestal utilizando as suas mãos de dedos longos e pés hábeis para passar de ramo para ramo. Uma jovem fêmea, Tiur (“optimista”), segue-o a cada passo, aproximando-se bastante quando ele pára. Muito mais pequena e com uma constituição mais delicada, ela continua a persegui-lo, embora ele pareça indiferente. Deitam-se juntos num ramo, comendo flores e partindo folhas de fetos semelhantes a taças para beber a água contida no interior. Quando ele se inclina para a frente sobre um dos membros, Tiur cata--lhe as costas.

Desenvolveu músculos fortes, pêlos mais compridos, almofadas carnudas (as flanges) de ambos os lados do rosto, e um enorme papo gutural que amplifica os seus chamamentos.

Algures num passado recente, Sitogos passou por uma transformação espantosa. Durante anos, foi pouco maior do que Tiur. A certa altura, uma vaga de testosterona inundou-lhe o organismo. Desenvolveu músculos fortes, pêlos mais compridos, almofadas carnudas (as flanges) de ambos os lados do rosto, e um enorme papo gutural que amplifica os seus chamamentos.

A cena sibarítica observada no dossel florestal é a recompensa de Sitogos, mas esta transformação física tem um preço. Algures ao longe, ouve-se o chamamento de outro macho de orangotango. Sitogos levanta-se, como que hipnotizado, e começa-se a avançar na direcção do seu concorrente.

Em muitas espécies, os machos sofrem profundas transformações físicas à medida que amadurecem, mas o processo é particularmente intrigante nos orangotangos. Nem todos os machos desenvolvem corpos enormes, flanges faciais e papos guturais como Sitogos. Muitos conservam corpos mais pequenos depois de atingirem a maturidade sexual, transformando--se mais tarde do que outros indivíduos. Alguns nunca chegam a desenvolver-se. O mecanismo por detrás desta divergência, chamado bimaturismo, é um dos maiores mistérios da zoologia.

Um macho de orangotango de Bornéu utiliza um ramo com folhas como guarda-chuva improvisado. Este comportamento adquirido é um exemplo da “cultura” dos orangotangos, transmitida de geração em geração. 

 Nas florestas do Norte de Samatra, um único macho dominante com flanges controla um grupo local de fêmeas. Vários machos da região conservam corpos mais pequenos e não desenvolvem flanges, evitando assim os confrontos que, inevitavelmente, ocorrem quando vários machos tentam afirmar o seu domínio (até eles próprios poderem tentar competir pelo papel dominante). A única oportunidade que os machos mais pequenos têm de transmitirem os seus genes é assistindo ao jogo a partir da linha lateral, fora do alcance do líder, esgueirando-se até ao grupo para acasalar sempre que possível.

Em Bornéu, pelo contrário, quase todos os machos desenvolvem flanges. Deambulam por áreas de grandes dimensões, sem que qualquer macho consiga controlar um grupo coeso de fêmeas. A melhor possibilidade de acasalamento do macho consiste em crescer, tornar-se forte e participar na competição, o que resulta em mais confrontos e ferimentos.

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